Francisco George, antigo diretor-geral da saúde, criticou as recentes greves dos enfermeiros e médicos e afirmou concordar com a extinção da ADSE numa entrevista ao jornal Público e à Rádio Renascença.

“Não concordo com greves de médicos ou de enfermeiros. Não fazem sentido, não podem existir”, disse respondendo a uma pergunta sobre a greve cirúrgica dos enfermeiros que parou vários blocos operatórios em fevereiro.

“No meu entendimento, a greve não é um direito para médicos e enfermeiros. Porquê? Porque quem é prejudicado não é o patronato, é o doente””, disse, justificando a seguir:  “Sou a favor de movimentos grevistas, quando são justos, e sobretudo quando são contra patrões. Acontece que o doente não é o patrão do grevista. E esta é que é a grande diferença. O grevista lesa o patrão, mas quando o grevista é médico ou enfermeiro não está a lesar o patrão, está a lesar o doente. Nenhum doente, a meu ver, devia ser molestado, devia ser desassossegado quando vai a uma consulta e vê que há greve. E depois são mais seis meses. Isto é inaceitável, intolerável no plano de ética que eu observo”.

Francisco George defende também que “mais do que o fim” da ADSE por considerar que existem condições suficientes para um serviço 100% público. ““Hoje temos um serviço que cobre o litoral, o interior, o norte, o sul, as regiões autónomas e os funcionários públicos não são o mesmo. Repare: 600 milhões de euros para pagar a serviços privados prestados pelos médicos que vêm do público e fazem umas horas no privado. Com a agravante de os hospitais privados terem ido buscar os melhores…”, respondeu a uma pergunta sobre o fim deste subsistema de saúde da Função Pública.

“A ADSE devia ter sido dissolvida em 1979, quando os outros subsistemas foram. A ADSE é criada por Salazar em 1963, numa altura em que os funcionários públicos ganhavam muito pouco, mas Salazar não queria que fossem mendigos. E então arranjou ali uma forma de eles terem acesso a médicos privados. Surge assim o seguro para os funcionários públicos poderem ir a médicos privados e não terem que ir ao hospital público. Aliás, na altura nem havia Serviço Nacional de Saúde nem sequer hospitais…”, recordou.