“A Queda do Império Americano”

O novo filme de Denys Arcand, o decano do cinema canadiano (e do Quebéc) conclui uma trilogia solta, também composta por “O Declínio do Império Americano” (1986) e por “As Invasões  Bárbaras” (2003), este Óscar do Melhor Filme Estrangeiro, e ligada pela ideia de estarmos a viver uma era de decadência irreversível da civilização ocidental. É uma curiosa mistura de policial, filme “humanista” à antiga e de denúncia da corrupção geral pelo dinheiro. O realizador põe em cena um ingénuo doutorado em Filosofia que trabalha numa firma de entregas, e que um dia fica de posse de dois sacos com muitos milhões de dólares canadianos, pertencentes ao mundo do crime. Querendo usá-lo bem mas não sabendo como, recorre à ajuda de três “peritos” com mais experiência de vida e sobretudo de lidar com dinheiro do que ele: uma prostituta de luxo, um antigo cadastrado e um especialista em investimentos e paraísos fiscais. Ao mesmo tempo que conta uma história que entretém e informa, com personagens que fogem quase todas aos estereótipos, Arcand expõe a sua visão do mundo, sarcástica e moral, guiada por aquilo a que poderíamos chamar um libertarismo de fundo cristão. “A Queda do Império Americano” não é totalmente conseguido, mas vê-se com muito mais agrado do que o enésimo filme de super-heróis.

“Mr. Link”

A segunda longa-metragem de animação de Chris Butler para a produtora Laika após “ParaNorman” (2012) é, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma paródia aos velhos filmes de aventuras com intrépidos exploradores de paragens exóticas ou remotas do planeta. Em “Mr. Link”, o inglês Sir Lionel Frost (voz de Hugh Jackman) prefere andar atrás de criaturas de lenda ou mitológicas do que de espécies animais conhecidas, e vai dar com o Elo Perdido, ou Pé-Grande (voz de Zach Galifianakis), nas florestas dos EUA. Só que em vez de um monstro feroz, este revela-se uma criatura simpática e cortês, que aprendeu a ler e escrever em jornais e livros esquecidos ou perdidos por viajantes, e implora a Sir Lionel que o ajude a ir para o Tibete, onde moram os seus primos Yétis, por se sentir muito sozinho. Trabalhando com animação fotograma a fotograma tradicional e com efeitos digitais, Butler realiza uma fita que assenta no velho tema da viagem que acaba por funcionar como uma experiência de auto-descoberta, com personagens bem construídas, uma identidade estilística claramente definida e um humor que vai do  muito britânico “understatement” ao “nonsense” e às partes gagas. Outras  vozes incluem Zoe Saldana, Emma Thompson e Stephen Fry, magnífico no estentórico vilão Lorde Piggot-Dunceby.

“Noites Mágicas”

O italiano Paolo Virzi vai buscar as suas memórias de aspirante a argumentista e realizador vindo da província e instalado em Roma no Verão de 1990, para assinar este filme ambientado no agitado final de uma era de ouro do cinema italiano. É este o cenário que encontram, na Cidade Eterna, os três finalistas do Prémio Solinas para jovens argumentistas: o siciliano Antonino (Mauro Lamantia), tão cinéfilo quanto ingénuo e socialmente desastrado; o toscano Luciano (Giovanni Toscano), um esquerdista estoira-vergas que não pode ver um rabo de saia; e a romana Eugenia (Irene Vetere), uma neurótica viciada em comprimidos, com complexos por ter nascido rica e o pai ser um político poderoso. Antonino ganha o prémio e, instalado no luxuoso apartamento de Irene, o trio vai ser  testemunha de um tempo vivido intensamente, de uma atmosfera social e artística e de um momento de transição do italiano cinema que se desvaneceram. E entretanto, a seleção transalpina é eliminada pela Argentina nas meias-finais do Mundial de Futebol que se disputa em Itália. “Noites Mágicas” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.