Primeira Liga NOS

Bruno e o exemplo de como até pelo WhatsApp se faz a diferença (a crónica do Nacional-Sporting)

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Bruno Fernandes marca, assiste e decide; com o Nacional, nem foi preciso (1-0). Mas o papel de um líder também pode ser interpretado fora de campo – Luiz Phellype, o goleador improvável, que o diga.

Luiz Phellype apontou o golo que deu a vitória ao Sporting com o Nacional, o quinto nos últimos quatro jogos do Campeonato

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

O futebol do Sporting continua a ser uma bolha que se resume a um protagonista que eclipsa todos os outros: Bruno Fernandes. Bas Dost pode regressar aos treinos na Academia (ainda que com muitas fitas adesivas em torno do joelho, continuando fora das opções), Wendel pode ser alvo de sanção disciplinar por ter violado o código de conduta interno, Borja pode manter-se como uma dúvida até à viagem para a Madeira (viu adiado o regresso às convocatórias), mas é só do capitão e melhor marcador que se fala. Também por mérito próprio – se dá gosto vê-lo com a bola no pé, não fica em nada atrás no jogo falado. O médio fala como joga e joga como se fala porque, para ele, não há pormenor que escape no trabalho diário para se tornar (ainda) melhor.

Na segunda-feira, na entrevista no programa “Titulares” da SportTV poucas horas depois do incêndio de grandes proporções na Catedral de Notre Dame que fez parar Paris e o Mundo, o número 8 surgiu em estúdio com uma t-shirt de uma marca de roupa desportiva que tinha a imagem da Torre Eiffel. A conversa foi interessante, diferente até do habitual: analisou de forma fria todo o percurso da equipa na presente temporada e as falhas que hipotecaram a luta pelo título, elogiou as capacidades de Benfica e FC Porto, projetou o futuro numa outra realidade como a Premier League, avaliou virtudes e defeitos dos companheiros (Raphinha ou Acuña), contou que enviou um vídeo a Luiz Phellype com um golo de Ayoze (Newcastle). No dia seguinte, na reinauguração da SportZone no Colombo, escolheu Pirlo como o adversário mais difícil que encontrara, recordou que tinha Ronaldinho como ídolo de infância e assumiu que, quando acabar a carreira de jogador, gostaria de ser treinador.

Qualquer jogador é muito mais do que os espetadores conseguem ver. No caso do internacional, e por trás da boa capacidade de meia distância que lhe permitiu ter uma temporada onde bate todos os recordes a nível de golos, estiveram muitas e muitas horas de trabalho. “Nos juniores do Boavista tinha um dia que não podia treinar pela escola. Almoçava, treinava com o treinador de guarda-redes e ficava entre 30 a 45 minutos a bater bolas. Senti naqueles poucos meses que tive melhoria. No Novara, pegava em dez bolas, ia para o campo, metia estacas na baliza e tentava acertar entre o poste e a estaca. Depois tive dois treinadores que só trabalhavam a parte técnica, As pequenas coisas que parece que não fazem a diferença foi lá que aprendi”, contou. Na t-shirt da Torre Eiffel, no vídeo para Luiz Phellype ou na forma como tornou o seu remate de fora da área letal, nenhum pormenor passa ao lado. Como jogador, como capitão, como futuro treinador que pretende ser – ou que já é, em campo.

Este nem foi um dos melhores jogos de Bruno Fernandes na temporada. Como é habitual, todo o jogo do Sporting passou pelos seus pés (a meio da primeira parte, os dez jogadores já tinham feito pelo menos um passe para o médio) mas o capitão perdeu mais bolas do que é habitual e acabou por não marcar nem fazer assistências. No entanto, não foi por isso que os leões perderam a oportunidade de chegar à melhor série de vitórias consecutivas na época (oito) e no Campeonato (sete), bastando um único golo de Luiz Phellype para bater o Nacional. O mesmo Luiz Phellype que, chegado do P. Ferreira, teve a sua adaptação e leva agora quatro jornadas seguidas a marcar. Quando Bruno Fernandes lhe enviou pelo WhatsApp o supracitado vídeo de Ayoze a antecipar-se ao defesa para marcar, num movimento a papel químico do golo apontado pelo brasileiro na Vila das Aves na semana passada, o avançado respondeu que o médio tinha “meia razão”. Agora, alcançou a razão total. Porque também é nestes pormenores de ajuda aos companheiros que se vê o que deve ser um verdadeiro líder.

Ficha de jogo

Nacional-Sporting, 0-1

30.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Madeira, no Funchal

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

Nacional: Daniel Guimarães; Nuno Campos, Júlio César, Rosic, Filipe Ferreira (Riascos, 81′); Tissone, Vítor Gonçalves; João Camacho (Okacha, 74′), Avto (Witi, 62′); Rochez e Palocevic

Suplentes não utilizados: Ohoulo, Alhassan, Diego Barcelos e Rashidov

Treinador: Costinha

Sporting: Salin; Ristovski, Coates, Mathieu, Acuña; Gudelj (Miguel Luís, 85′), Doumbia; Diaby (Francisco Geraldes, 90′), Bruno Fernandes, Jovane Cabral (Jefferson, 82′) e Luiz Phellype

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Tiago Ilori, Bruno Gaspar e Pedro Marques

Treinador: Marcel Keizer

Golo: Luiz Phellype (62′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Acuña (7′), Gudelj (56′), Júlio César (62′), Jovane Cabral (65′) e Witi (90′)

Com Salin a fazer o primeiro jogo no Campeonato com Marcel Keizer (após a expulsão com vermelho direto de Renan na Vila das Aves), havia duas grandes dúvidas no onze de Keizer: por um lado, quem substituía Wendel no meio-campo – e o escolhido foi Doumbia, ficando Miguel Luís no banco; por outro, se o holandês manteria Acuña como lateral lançando Diaby no lugar do castigado Raphinha ou se preferia manter o maliano de reserva no banco apostando em Jefferson e no argentino como ala – e voltou a ganhar a primeira opção, com Acuña quase a fazer todo o corredor esquerdo sozinho. Mas aquilo que mais acabou por surpreender foi a forma como os leões deram a bola aos insulares nos primeiros minutos do encontro.

Apesar de se encontrar na zona de despromoção, os números do Nacional na classificação não fazem jus à qualidade que a equipa já conseguiu mostrar em algumas partidas, nomeadamente na primeira parte em Alvalade em que até esteve a ganhar por 2-0. A defesa e as transições são um calcanhar de Aquiles da formação de Costinha mas os insulares têm justificadas esperanças de poderem ainda dar a volta na classificação. Até pelo que se viu na véspera do jogo, quando os três capitães de equipa “invadiram” a conferência do técnico para manifestarem o total apoio e confiança do grupo no seu líder depois das declarações de um dirigente do clube a pedir uma troca para estas ultimas cinco jornadas. Nos primeiros 20 minutos, os insulares bloquearam quase por completo o jogo ofensivo dos leões (exceção feita a um remate de Bruno Fernandes logo a abrir) e tiveram mais bola, muitas vezes consentida pelo adversário. Perigo, quase nenhum. Tal como o número de remates tentados (um para cada lado).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Nacional-Sporting em vídeo]

No entanto, e por muita vontade que os jogadores do Nacional possam ter em defender a posição do seu líder com resultados, há uma natural diferença qualitativa entre os dois conjuntos com objetivos opostos. E bastou o Sporting acelerar o seu jogo, dar outra mobilidade na frente para tudo mudar e começar a ganhar mais segundas bolas para chegar com perigo à baliza contrária, como aconteceu nos remates de Bruno Fernandes, Diaby e Jovane Cabral até à meia hora, tudo para defesas apertadas mas bem conseguidas de Daniel Guimarães, brasileiro que começava a assumir o papel de MVP do encontro. Para isso contribuíram ainda mais dois fatores: o envolvimentos dos laterais nos momentos ofensivos (sendo que Acuña viu um amarelo logo aos sete minutos que o condicionou… e até podia ter valido algo mais) e a subida no terreno de Doumbia.

De forma inevitável, todo o jogo passava pelos pés de Bruno Fernandes, a máquina que faz funcionar toda uma máquina. E se não tinha bola para assistir ou rematar, conseguia mesmo assim tirar adversários de determinadas zonas do campo para dar espaço aos companheiros, como aconteceu pouco depois da meia hora quando Jovane Cabral foi ao corredor central fazer o passe de morte para Diaby falhar isolado na cara de Daniel Guimarães. O Sporting criava perigo em ataque organizado, criava perigo em transições e só não criava mais perigo nas bolas paradas porque teve apenas quatro cantos no primeiro tempo. Ainda assim, qualquer que fosse o jogador ou o local de remate – os leões conseguiram o assinalável número de dez tentativas feitas dentro da área dos insulares –, havia sempre o guarda-redes formado no Atl. Mineiro pela frente.

O segundo tempo manteve as mesmas características com que tinha acabado a primeira parte. Cada uma das equipas fez alguns ajustes ao intervalo em termos posicionais mas o encontro continuou a sentido único, com Daniel Guimarães a ter também a ajuda de Rosic para manter a baliza a zeros quando Diaby apareceu isolado na área após grande jogada de Doumbia pela esquerda para rematar e ver a bola bater nas costas do defesa insular quando se encaminhava para a baliza. Cúmulo das ironias, e depois de tantas oportunidades criadas de bola corrida, seria num esquema tático que os leões conseguiriam inaugurar por fim o marcador: livre lateral batido por Acuña descaído na esquerda e desvio de primeira de Luiz Phellype nas costas da defesa visitada, apontando o quinto pelos verde e branco em quatro jornadas consecutivas do Campeonato (62′).

Tudo corria mal ao Nacional. Em condições normais, os insulares estariam sempre por baixo ao longo do jogo mas, mesmo nas raras oportunidades em que podiam ter levado perigo à baliza de Salin, houve sempre qualquer coisa a falhar – exemplo paradigmático disso mesmo foi um livre direto em boa posição a meio do segundo tempo, por falta dura de Jovane Cabral sobre Palocevic, onde Rochez escorregou e acabou por dar dois toques na bola. E voltaria a ser o Sporting a poder aumentar os números do triunfo que confirma a melhor série de triunfos consecutivos da temporada, de novo por Diaby.

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