Desporto

Tiger Woods voltou em grande mas não foi o único – as histórias de sete grandes regressos do desporto

Golfista norte-americano voltou a ganhar um Major mais de dez anos depois mas não foi o único a regressar à modalidade onde foi feliz. De Ali a Jordan, as histórias de outros sete grandes comebacks.

Tiger Woods tornou-se o segundo mais velho de sempre a ganhar o Masters de Augusta

Getty Images

No passado domingo, o mundo recordou-se de que existe um Tigre a andar por entre os campos de golfe. Aos 43 anos, Tiger Woods venceu o Masters de Augusta com 13 pancadas abaixo do par e voltou a ganhar um dos quatro majors, algo que não alcançava há mais de dez anos, desde 2008. O regresso romântico de Woods, que também se tornou o segundo mais velho de sempre a ganhar o Masters, sobrepõe-se agora às notícias menos positivas sobre a vida pessoal do golfista, às quatro operações à coluna e ao vício em analgésicos a que não conseguiu fugir para aguentar as dores nas costas.

Ao vestir o quinto blazer verde da carreira, Tiger Woods torna-se protagonista de mais um regresso à competição na história do desporto. Depois de colocar a hipótese de terminar a carreira — e de muitos jornalistas, comentadores e analistas terem antecipado e vaticinado várias vezes essa reforma –, o golfista surpreendeu tudo e todos e voltou à ribalta da modalidade que fez dele um dos atletas mais bem sucedidos das últimas duas décadas. Mas não é o único. A par de Woods, existem vários atletas que colocaram um fim nas respetivas carreiras — ou vários fins — mas que acabaram por voltar ao sítio onde foram felizes. De Ali a Jordan, passando por Phelps e LeMond.

Muhammad Ali: o “não” ao exército dos EUA e ao Vietname

Se a larga maioria das pausas que os atletas fazem nas carreiras se deve a lesões ou a opções pessoais, essa generalização não se aplica a Muhammad Ali. O pugilista, descrito por muitos como o melhor de todos os tempos, não se lesionou, não decidiu parar, não se interessou por outra modalidade. Ali foi obrigado a parar. Em março de 1966, o atleta de 24 anos, então campeão do mundo de pesos-pesados, recusou ser integrado no exército norte-americano e servir o país na Guerra do Vietname. Como consequência, Ali perdeu de imediato o título conquistado dois anos antes e foi condenado a cinco anos de prisão e uma multa de 10 mil dólares. Livrou-se da pena de prisão, que ficou pendurada de forma indefinida depois de dezenas de recursos, e limitou-se a pagar uma espécie de entrada da coima. Pelo meio, perdeu quase quatro anos de carreira.

Até outubro de 1970, altura em que venceu uma disputa judicial no tribunal de Nova Iorque e voltou a obter uma licença para competir, Ali ocupou-se com o ativismo contra o conflito no Vietname e deu inúmeras palestras em escolas secundárias e universidades. O discurso anti-sistema, sempre contra um Governo na altura liderado por Richard Nixon, e os apelos à justiça racial e ao orgulho afro-americano, tornaram-no uma personalidade influente — bem para lá de um atleta de sucesso. A rejeição de Muhammad Ali ao exército dos Estados Unidos provocou um enorme impacto positivo na comunidade afro-americana mas tornou-o um alvo da mancha mais patriota e pró-guerra do país, tal como Kareem Abdul-Jabbar, antigo jogador dos Lakers, explicou numa entrevista há uns anos. “Lembro-me de que os professores da minha escola secundária não gostavam dele porque ele era muito anti-sistema. Disse que não à autoridade e safou-se. O facto de ele ter orgulho em ser um homem negro e de ter tanto talento…fez muita gente pensar que ele era perigosa. Mas essas eram exatamente as razões que me faziam gostar dele”, recordou Abdul-Jabbar, agora com 72 anos.

Ali, à esquerda, durante o combate com George Foreman em que acabou por recuperar o título de campeão do mundo de pesos pesados

Ali voltou com uma vitória contra Jerry Quarry e outra contra Oscar Bonavena. Os dois combates deixaram-no como principal candidato ao título que entretanto era de Joe Frazier e que lhe tinha sido retirado fora dos ringues. O encontro entre os dois pugilistas, ambos invictos até então, ganhou rapidamente o apelido de “Combate do Século” e foi a primeira vez que o mundo viu tudo aquilo que foi replicado nos últimos anos por Floyd Mayweather, Manny Pacquiao, Conor McGregor e Khabib Nurmagomedov. Muhammad Ali tomou a liderança dos insultos e dos jogos mentais antes de entrar no ringue e rapidamente se auto-intitulou de representante “do gueto”. “As únicas pessoas a torcer pelo Joe Frazier são brancos de fato, xerifes do Alabama e membros do Ku Klux Klan”, atirou. Mas se Ali ganhou sem as luvas calçadas, o mesmo não aconteceu quando a campainha tocou no Madison Square Garden.

Joe Frazier venceu por decisão unânime ao fim de 11 rounds e Muhammad Ali sofreu a primeira derrota da carreira. Passaram quatro anos — e um segundo combate contra Frazier que terminou com a vitória de Ali mas que não tinha qualquer título em disputa — até o pugilista de Louisville, Kentucky voltar a ter uma chance de recuperar o cinturão de campeão mundial que lhe tinha sido retirado. Em outubro de 1974, num evento que ficou conhecido como The Rumble in the Jungle e que teve lugar no antigo Zaire, agora República Democrática do Congo, Ali encontrou o então campeão do mundo, George Foreman. Foreman era o grande favorito; Ali, então com 32 anos, não reunia qualquer apoio e ninguém acreditava numa eventual do antigo campeão. Mas este, como sempre, estava confiante e levava essa confiança até hipérboles e exageros que hoje, conhecendo o final da história, só tornam tudo mais digno de filme. “Fiz coisas novas para este combate. Lutei com um crocodilo, lutei com uma baleia, algemei raios, atirei trovões para a cadeira. Só na semana passada, matei uma rocha, magoei uma pedra, pus um tijolo no hospital. Sou tão mau que dou náuseas à medicina”, disse Ali.

Ao fim de oito rounds, Muhammad Ali venceu por KO e voltou a colocar à cintura o título que já tinha sido seu dez anos antes. Perdeu-o em fevereiro de 1978 para Leon Spinks e recuperou-o apenas sete meses depois, tornando-se o primeiro e único pugilista da história a ser campeão do mundo de pesos pesados em três períodos distintos. Retirou-se da modalidade em abril do ano seguinte, com 37 anos, numa altura em que já sofria com dificuldade em articular frases e tremores nas mãos, os primeiros sintomas da doença de Parkinson que acabou por acompanhá-lo até ao fim da vida.

O pugilista perdeu o título mundial de pesos pesados depois de recusar combater na Guerra do Vietname

Michael Jordan: dos Bulls aos Wizards, passando pelo basebol

Em outubro de 1993, depois de uma carreira de quase dez anos ao serviço dos Chicago Bulls, três títulos de campeão da NBA, outros três de MVP da fase regular e ainda outros três de MVP das finals, Michael Jordan anunciou que iria colocar um ponto final na carreira de jogador de basquetebol. Na altura, com 30 anos, Jordan justificou a decisão com o cansaço acumulado depois dos Jogos Olímpicos de 1992 — onde foi campeão olímpico pela segunda vez consecutiva e integrou a Dream Team dos Estados Unidos, que também contava com Magic Johnson, Scottie Pippen e Larry Bird — e manifestou “falta de vontade” de jogar. Mais tarde, na autobiografia que publicou em 1998, acabou por confessar que a morte do pai, assassinado em julho de 1993, influenciou em larga escala a decisão de se afastar da modalidade que lhe deu praticamente tudo.

Mas se a saída da NBA surpreendeu quase toda a gente, a verdade é que o passo seguinte de Michael Jordan foi ainda mais inesperado. Em fevereiro do ano seguinte, aquele que ainda hoje é descrito como o melhor jogador de basquetebol de todos os tempos anunciou que iria competir nas Ligas inferiores do basebol dos Estados Unidos. Jordan assinou contrato com os Chicago White Sox, cujo dono detinha também os Chicago Bulls, e concordou em representar uma das franquias associadas da equipa que competia na Minor League Baseball. Jogou pelos Birmingham Barons e pelos Scottsdale Scorpions entre 1994 e 1995 e explicou mais tarde que, tal como quase tudo aquilo que fez na carreira desportiva, decidiu experimentar o basebol para honrar o pai, que sempre quis que um dos filhos praticasse a modalidade.

Fast forward para março de 1995 e Michael Jordan anunciou que iria deixar o basebol e regressar aos Chicago Bulls para ajudar a recuperar uma equipa que se tinha tornado uma sombra daquilo que havia sido até à primeira retirada do shooting guard. O comunicado de imprensa tinha apenas duas palavras: “I’m back”, estou de volta, em português. Jordan voltou e optou por não usar a mítica camisola 23 — retirada pelos Bulls dois anos antes, quando o jogador deixou o basquetebol –, carregando nas costas o número 45 que utilizou no basebol. Mas essa decisão durou pouco tempo.

Jordan esteve quase dez anos nos Chicago Bulls e depois regressou para mais três temporadas

Fora dos courts durante um ano e meio, Michael Jordan regressou em forma e ajudou os Bulls a chegar aos playoffs daquela temporada. A franquia de Chicago perdeu o primeiro jogo das meias-finais da Conferência Leste com os Orlando Magic e, no final da partida, Nick Anderson disse aos microfones das televisões que Michael Jordan “não parecia o Michael Jordan antigo” e que “o número 45 não explode como o número 23”. No jogo seguinte, Jordan voltou a aparecer com o 23 nas costas e respondeu com 38 pontos e a vitória dos Bulls — que, ainda assim, perderam à melhor de seis. A derrota com os Magic motivou-o para as temporadas seguintes: os Bulls foram tricampeões da NBA entre 1996 e 1998 e Michael Jordan foi o MVP das finals em todos os anos. O registo de ter sido considerado o melhor jogador da fase final da Liga de basquetebol dos Estados Unidos por seis vezes é ainda um recorde (Shaquille O’Neal, Magic Johnson, LeBron James e Tim Duncan estão todos empatados com três para cada um).

Voltou a retirar-se em janeiro de 1999 e, pelo menos nessa altura, toda a gente achou que era de vez. Um ano depois, já no século XXI, voltou a embrenhar-se na NBA mas enquanto co-proprietário e presidente dos Washington Wizards. Enquanto executivo, as decisões de Jordan nem sempre foram consensuais: apesar de ter dispensado jogadores altamente impopulares que tinham um peso salarial enorme, como Juwan Howard e Rod Strickland, a primeira escolha dos Wizards no draft de 2001 — Kwame Brown –, que o presidente considerava ser uma grande aposta, acabou por se revelar uma desilusão e deixou Washington sem grandes saudades depois de quatro temporadas. No verão desse ano, depois de contratar Doug Collins, seu antigo treinador nos Bulls, para orientar os Wizards na época seguinte, começaram os rumores de que Michael Jordan estaria a preparar um segundo regresso.

Em setembro de 2001, duas semanas depois do ataque às Torres Gémeas, anunciou que iria voltar novamente para representar os Washington Wizards e que iria doar todo o salário às famílias das vítimas do 11 de setembro. Nas duas últimas temporadas da carreira, acabou por não conseguir chegar aos playoffs mas ainda foi a tempo de ultrapassar a marca de Kareem Abdul-Jabbar e tornar-se o melhor marcador dos jogos All-Star (registo entretanto suplantado por Kobe Bryant). Na derradeira partida, em abril de 2003 — dez anos depois de se retirar pela primeira vez –, Michael Jordan foi ovacionado durante três minutos por colegas de equipa, adversários, adeptos, equipas técnicas e árbitros. À terceira reforma, foi de vez.

O número 23 foi retirado não só pelos Chicago Bulls mas também pelos Miami Heat, franquia que Jordan nunca representou

Michael Phelps: a depressão pós-oito medalhas de ouro

Os grandes, normalmente, inspiram aqueles que acabam por se tornar maiores do que eles. O ídolo de Michael Phelps, como o próprio já confirmou variadas vezes, é Michael Jordan. E tal como o jogador de basquetebol, também o nadador voltou à competição depois de já não ter nada a provar. Nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, Phelps ganhou oito provas distintas e tornou-se o atleta a conquistar mais medalhas de ouro olímpicas numa única edição (ultrapassando a marca de Mark Spitz, também ele nadador, que em 1972 tinha vencido sete). Antes, nos Jogos de 2004 em Atenas, já tinha conquistado seis ouros e dois bronzes; e depois, em 2012 e em Londres, ainda levou para casa quatro medalhas de ouro e duas de prata. Considerado o melhor nadador de todos os tempos e um dos melhores atletas olímpicos de sempre, Michael Phelps decidiu retirar-se logo após o final dos Jogos Olímpicos de Londres.

“Acabou. Terminou. Retiro-me. Acabou. Não há mais. Só quero acabar com a natação e não quero ter mais nada a ver com o desporto”, disse o norte-americano. A decisão, de tão brusca e até ríspida, deixava como garantido que Phelps não mais voltaria a entrar numa piscina para competir. Em janeiro do ano passado, confessou que sofreu uma depressão logo depois do fim dos Jogos e que chegou a ponderar o suicídio. Depois de dois anos de total reclusão e quase anonimato, o nadador decidiu que estava na hora de espantar fantasmas e formar novas memórias olímpicas. Em abril de 2014, com 31 anos, Michael Phelps anunciou que ia regressar à competição e que tinha como objetivo conseguir os mínimos para ir aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro daí a dois anos.

Em Pequim, em 2008, Phelps bateu o recorde de Mark Spitz e tornou-se o atleta com mais medalhas de ouro nuns Jogos (oito)

O primeiro obstáculo surgiu no ano seguinte, quando foi detido por conduzir alcoolizado e bem acima do limite de velocidade. A USA Swimming decidiu impedi-lo de representar os Estados Unidos nos Mundiais de 2015 e suspendeu-o durante seis meses, tornando o objetivo de Phelps ainda mais difícil. Mas não impossível. “Convenceu-me de que não estava a treinar para a história. Não estava a treinar para as medalhas. Nem sequer estava a treinar para os fãs. Desta vez, ele estava a treinar para ele mesmo. E a aproveitar a viagem”, contou recentemente Bob Bowman, treinador de longa data de Michael Phelps. Desta vez, o objetivo era apenas e só para concretização pessoal.

Sem a oportunidade de participar nos Mundiais, Phelps ganhou os 100 metros mariposa, os 200 metros mariposa e os 200 metros freestyle tanto nos Nacionais como nos trials norte-americanos para os Jogos Olímpicos e tornou-se apenas o segundo nadador da história dos Estados Unidos, e o primeiro homem, a qualificar-se para cinco Jogos. Na antecâmara do Rio, Michael Phelps tinha sido o mais rápido de 2015 nessas três provas. Foi o porta-estandarte norte-americano na cerimónia de abertura, viajou acompanhado pela noiva e pelo filho e apresentou sempre uma postura relaxada que contrastou em toda a linha com a imagem fechada e de reclusão que era a sua imagem de marca nas provas anteriores. No Rio, foi medalha de ouro cinco vezes e ainda conquistou prata nos 100 metros mariposa.

Retirou-se novamente, e agora de forma definitiva, em agosto de 2016. É o atleta olímpico mais medalhado de sempre, com um total de 28 medalhas — mais do que 161 países diferentes, incluindo Portugal. Tem ainda o recorde de medalhas de ouro (23), medalhas de ouro em eventos individuais (13) e medalhas em eventos individuais (16). Tal como o ídolo Michael Jordan, Michael Phelps regressou da reforma para mostrar que mais do que o melhor de uma geração, era o melhor de sempre.

O nadador norte-americano é considerado um dos melhores atletas olímpicos de todos os tempos

Monica Seles: a melhor de sempre que não chegou a ser a melhor de sempre

Assim como Muhammad Ali, Monica Seles também não escolheu parar. A tenista nascida em território sérvio quando o país ainda estava integrado na antiga Jugoslávia tornou-se a vencedora mais nova da história de Roland Garros em 1990, com apenas 16 anos, e conquistou oito Grand Slams antes sequer de completar 20 anos. No início dos anos 90, Seles era a tenista número 1 do mundo, a grande promessa do ténis internacional e a co-protagonista de uma rivalidade saudável com Steffi Graf.

Em 1993, Monica Seles estava no topo do ranking WTA e já tinha no palmarés três Australian Open consecutivos (1991, 1992 e 1993), três Roland Garros consecutivos (1990, 1991 e 1992), dois US Open consecutivos (1991 e 1992) e uma final de Wimbledon, que perdeu para Steffi Graf (1992). Depois de bater a já veterana Martina Navratilova na final do torneio Virginia Slims, em Chicago, Seles viajou para Hamburgo, na Alemanha, para participar na Citizen Cup. Durante o encontro dos quartos de final, contra a búlgara Magdalena Maleeva, a tenista foi esfaqueada nas costas enquanto estava sentada entre jogos.

O autor do ataque era Günter Parche, um fã obcecado por Steffi Graf que emergiu entre a multidão e esfaqueou Monica Seles na zona do ombro. O encontro foi interrompido de imediato, a tenista foi transportada para o hospital e recuperou fisicamente em poucas semanas. Mas o ataque provocou muito mais do que lesões físicas a Monica Seles. A tenista, então com 20 anos, afundou-se numa depressão profunda, ganhou 30 quilos e garantiu que não voltaria à Alemanha por não confiar no sistema legal do país — após alguma especulação que indicava que o ataque poderia ter motivação política, já que Seles havia recebido ameaças de morte relacionadas com a Guerra da Jugoslávia, soube-se mais tarde que Günter Parche tinha antecedentes de doença mental. O alemão nunca cumpriu pena de prisão, passou dois anos em tratamento psicológico e daí para cá, de acordo com a Tennis, viveu sempre internado em lares e casas de acolhimento.

Monica Seles tinha apenas 16 anos quando conquistou o primeiro Grand Slam da carreira

“As pessoas parece que se esquecem de que este homem me esfaqueou intencionalmente e não teve qualquer tipo de castigo. Não me sinto confortável em voltar à Alemanha. Não acho que alguma vez vá acontecer”, disse Monica Seles anos mais tarde. Em agosto de 1995, quando decidiu voltar, a então presidente do WTA Martina Navratilova propôs a entrada imediata de Seles para o número 1 do ranking em igualdade com a então líder da tabela, Steffi Graf. Apesar da oposição de algumas jogadoras, como a espanhola Arantxa Sánchez Vicario e porto-riquenha Gigi Fernández, Monica Seles regressou mesmo diretamente para o topo do ranking.

A tenista venceu o primeiro torneio em que participou depois de regressar, o Canadian Open, e chegou à final do US Open, onde perdeu para Steffi Graf. Em janeiro de 1996, Monica Seles conquistou o Australian Open pela quarta vez na carreira ao bater Anke Huber na final, naquele que acabaria por ser o último Grand Slam do palmarés da tenista. Em 2002, o último ano da carreira, Seles despediu-se no 7.º lugar do ranking WTA e venceu jogadoras como Venus Williams, Maria Sharapova, Martina Hingis e Kim Clijsters. A tenista sérvia, que acabou por adquirir cidadania norte-americana nos anos 90, passou ao lado de uma carreira que seria histórica porque foi atacada por um fã da principal rival. Monica Seles é ainda a melhor tenista de sempre que não chegou a ser a melhor tenista de sempre.

A tenista viveu uma rivalidade saudável com Steffi Graf

Mario Lemieux: o Super Mario que foi de génio no gelo a presidente

Como Michael Jordan inspirou Michael Phelps, Mario Lemieux inspirou Michael Jordan. O histórico jogador de hóquei no gelo, amigo próximo de Jordan, foi protagonista de dois regressos à modalidade depois de um abandono forçado e de outro por opção: e levou o número 23 a voltar ao ativo, na altura em que se tornou presidente/jogador dos Washington Wizards. Até porque a história de Lemieux, por muito estranho que pareça, é extraordinariamente semelhante.

Super Mario, como lhe chamam os adeptos de hóquei no gelo, é uma das principais lendas na National Hockey League — logo a seguir ao mítico Wayne Gretzky. Em janeiro de 1993, depois de vencer a Stanley Cup duas vezes consecutivas ao serviço dos Pittsburgh Penguins, Lemieux estava a trilhar um caminho que tinha como objetivo bater o recorde de Gretzky de golos (92) e pontos (215) numa única temporada. Foi nesse ano que o canadiano revelou algo que, naquela altura, parecia ser o fim de uma carreira excecional; mas que agora, com a devida distância, só lhe atribuiu ainda mais estatuto de lenda.

Mario Lemieux anunciou que tinha sido diagnosticado com um linfoma, um cancro no sangue. Na altura, com 28 anos, o atleta falhou dois meses de jogos para cumprir o tratamento de radiação. No último dia do tratamento, Lemieux voltou à competição, marcou um golo e fez a assistência para outro — os Penguins perderam mas o canadiano recebeu uma ovação de largos minutos por parte dos adeptos adversários. Com o jogador de volta, a equipa de Pittsburgh alcançou 17 vitórias consecutivas e Mario Lemieux acabou por terminar a temporada com a terceira melhor média de golos por jogo de sempre, só abaixo de duas épocas de Gretzky, e enquanto melhor marcador da NHL.

Quatro anos depois, em 1997, o canadiano anunciou que iria terminar a carreira. Com 32 anos e depois de duas operações à coluna, Lemieux vivia fustigado por várias hérnias e tendinites e confessou anos mais tarde que nos últimos meses ao serviço dos Penguins já nem sequer conseguia atar os atacadores dos próprios patins. Despediu-se, entrou diretamente para o Hockey Hall of Fame e tornou-se o único jogador de todos os tempos a reformar-se com uma média superior a dois golos por jogo — mas o adeus não durou muito. Os Pittsburgh Penguins tinham entrado num período negro a nível financeiro e acabaram por pedir insolvência no final de 1998. Lemieux, com um espírito de sacrifício que mostrava tanto na própria vida como no gelo, decidiu comprar a equipa e tornar-se dono da franquia que lhe tinha dado quase tudo.

Em 2000, decidiu regressar ao ativo e assumir o papel de capitão de equipa — para lá do de presidente. Em termos práticos, já pouco ou nada conseguiu. Retirou-se de forma permanente seis anos depois, aos 40 anos, principalmente devido a problemas cardíacos. Mas nesses seis anos, Mario Lemieux ajudou a reerguer uma equipa, a restaurar-lhe a identidade e a fortalecê-la financeiramente. Os resultados esses, estão à vista: o antigo jogador de hóquei no gelo continua a ser o presidente dos Pittsburgh Penguins e a equipa conquistou a Stanley Cup em 2009, 2016 e 2017.

Depois de ganhar a Stanley Cup duas vezes enquanto jogador dos Penguins, Lemieux já a venceu três vezes enquanto presidente da equipa

Jack Nicklaus: três anos e onze quilos depois

Jack Nicklaus é considerado o melhor golfista de sempre. Tiger Woods, ao conquistar o quinto Masters da carreira no passado fim de semana, ficou a uma vitória de igualar o recorde de Nicklaus, que é ainda o atleta com mais Masters no palmarés (seis). Ao contrários da grande maioria dos atletas, o golfista norte-americano não decidiu interromper a carreira, colocar um ponto final no percurso desportivo ou mudar de modalidade. Nicklaus só caiu de rendimento. E depois voltou ainda mais forte.

Depois de conquistar o US Open em 1967, aos 27 anos e já com outras seis vitórias em majors no palmarés (incluindo três Masters), Jack Nicklaus não voltou a ganhar qualquer torneio relevante até 1970. Os motivos, mais de 50 anos depois, permanecem algo inexplicáveis. A verdade é que o golfista ganhou peso, perdeu flexibilidade, deixou de ter o ritmo que o tornou um dos atletas mais entusiasmantes de sempre e viu os anos passarem por si. A morte do pai, um dos principais impulsionadores da carreira que ainda estava a construir, acabou por ser o estímulo de que Nicklaus precisava para voltar aos campos de golfe.

“As coisas não me interessavam muito. Depois o meu pai morreu e eu percebi que, de certa forma, ele viveu a vida dele através do meu golfe. E eu provavelmente nem sequer lhe mostrei o meu melhor. Por isso voltei ao trabalho. Foi um grande boost“, explicou mais tarde o golfista, que perdeu 11 quilos no espaço de quatro semanas e, cinco meses após a morte do pai, regressou às vitórias no Open Championship. No ano seguinte, ao conquistar o PGA Championship, tornou-se o primeiro golfista de sempre a vencer duas vezes todos os majors.

Jack Nicklaus continuou a competir até 2005, ano em que completou 65 anos, e ainda venceu mais três Masters, dois US Open, outro Open Championship e quatro PGA Championship. O total de 73 top 10 ao longo de 39 anos, de 1960 a 1998, é ainda um recorde tanto ao nível de consistência como de longevidade.

O golfista é ainda o recordista de vitórias no Masters de Augusta (tem seis)

Greg LeMond: 60 balas de chumbo e três vitórias no Tour

E agora para algo que faz pensar: Greg LeMond é o único ciclista norte-americano que ganhou a Volta a França. O atleta, que conquistou a principal prova de ciclismo três vezes (1986, 1989 e 1990), é o único representante dos Estados Unidos que tem no palmarés o facto de ter vestido a camisola amarela nos Champs-Élysées. Lance Armstrong, que venceu o Tour sete vezes consecutivas entre 1999 e 2005, perdeu todos os títulos depois de confessar o uso de doping.

Por tudo isto, LeMond é mesmo o único norte-americano a ter vencido o Tour. Mais: quando o alcançou pela primeira vez, há mais de 30 anos, LeMond foi mesmo o primeiro não europeu a vencer o Tour. Nessa altura, com 25 anos, o ciclista tinha um mundo inteiro de oportunidades à sua disposição e parecia ter todo o tempo do mundo para desfrutar delas. Até uma noite na Califórnia. Depois de ficar de fora da Volta a França de 1987, devido a uma lesão no pulso, Greg LeMond regressou aos Estados Unidos para passar alguns dias com a família. Enquanto caçava com vários tios e cunhados, o atleta acabou por ser confundido com um animal ao sair de um arbusto e foi baleado com cerca de 60 balas de chumbo.

Em 1990, último ano em que venceu o Tour, a indicar o número de vitórias na principal prova de ciclismo

O ciclista foi transportado de helicóptero para o hospital e a comunicação social, na altura, indicou que LeMond ficou a 20 minutos de morrer devido à gigantesca hemorragia que sofreu. O atleta ficou com 35 balas de chumbo no corpo, incluindo três perto do coração e várias alojadas no fígado, e perdeu a temporada de 1988 quase por inteiro. Venceu o Tour nos dois anos seguintes, em 1989 e 1990, e é ainda hoje o protagonista de uma das histórias mais bem sucedidas no que toca a regressos no mundo do desporto. Ainda assim, e depois de várias tentativas de voltar a conquistar a Volta durante os anos 90, acabou por se retirar em 1994 e garantiu que os anos após o acidente foram duros.

“Depois do acidente, acho que só três meses é que me correram bem [os meses das vitórias no Tour e do Mundial de estrada]. O resto foi puro sofrimento, luta, fadiga. Estava sempre cansado. Sem o acidente? Claro que não posso reescrever a história, mas acho que tinha acabado por ganhar cinco Tours”, confessou Greg LeMond em 1998, durante uma entrevista com Bryan Malessa.

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