Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, estava a almoçar quando o inesperado aconteceu: uma grua caiu sobre 9 casas na Rua da Corticeira, na zona das Fontainhas no Porto. O presidente chegou por volta das 15h30 e visitou a casa de João Laranjeira, uma das pessoas mais afetadas pelo acidente e a única cuja família terá que ser realojada.

À saída, Moreira enalteceu o facto de não existirem feridos, mas revelou “muita preocupação” com o que tinha acabado de acontecer — foi a segunda vez em dois meses que uma grua caiu. A 10 de fevereiro, uma grua pertencente à mesma empresa, Equipamentos de construção – Somirav, caiu na Rua da Torrinha e também não causou feridos.

“Causa-nos preocupação porque, num curto espaço de tempo, há gruas instaladas em espaço privado que estão ao obrigo de licenças que são emitidas, mas por empresas que prestam termos de responsabilidade, e pela segunda vez há problemas, por isso iremos tomar medidas.”

O autarca garante que vai “pedir ao Governo a alteração daquilo que são as regras destas situações”, relativamente à certificação das empresas que instalam estes equipamentos, e dará “ordens de fiscalização para investigar todas as gruas instaladas na cidade, o que vai demorar algum tempo”. A proteção civil da autarquia vai fiscalizar todas as gruas instaladas e pode mudar procedimentos. Rui Moreira admite “medidas draconianas” em função dos resultados da fiscalização que arranca já esta terça-feira e sublinhou que “mais uma vez tivemos sorte, mas não podemos sempre contar com a sorte. Esta situação exige que se tomem medidas”, sublinhou.

Ao Jornal de Notícias, Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção em Portugal, disse que a grua caiu devido às “cavilhas obsoletas” da base. “Esta grua já não devia estar a operar, porque já fez milhares de horas. Devia era ir para a Siderurgia Nacional”, afirmou.

Nuno Santos, chefe do gabinete do Presidente, acrescenta que “vão ser suspensas todos os licenciamentos” e que não vão “autorizar a montagem de mais gruas” até que se apurem todas as responsabilidades. Moreira explicou que esta é uma obra licenciada e que a empresa responsável pelo processo de construção da grua prestou os termos de responsabilidade, “mas não chega”, “não é suficiente”. “Essas condições não estão garantidas e isso preocupa-nos, por isso vamos ter de tomar medidas” para que não haja “uma terceira” situação de risco.

Foram nove as habitações afetadas, das quais 4 estavam devolutas. Uma das mais afetadas é a casa de João Laranjeira, onde morava há cerca de três anos com a mulher e a filha de ambos com um ano e meio. Soube do que aconteceu no trabalho, “a três ruas daqui”, quando a mulher lhe ligou nervosa e sem se conseguir explicar muito bem. “Ela estava em casa quando tudo aconteceu, estava precisamente no quarto onde caiu o cesto da grua com pedras. Por acaso foi suportado pelo sótão, uma estrutura que construi para o restauro da casa”, explica o morador em entrevista ao Observador. “A minha mulher apanhou um grande susto, mas felizmente não estava lá a minha filha, estava na minha sogra.”

A autarquia assegura que a família, que não estava a morar numa habitação municipal, será realojada na zona de Santa Catarina e que, numa primeira fase, vai guardar todos os pertencentes, para depois se procederem as obras necessárias.

O comandante dos Bombeiros Sapadores do Porto, Carlos Saraiva Marques, afirma ainda que é “prematuro e difícil chegar a alguma conclusão”. No entanto, garante que se encontra no local onde está a base da grua a Divisão de Investigação Criminal para tentar “investigar eventuais causas”. O comandante acrescenta que ainda hoje a grua com 30 metros de comprimento será retirada pela empresa que a montou e que, aos bombeiros, resta apenas “remover entulhos, principalmente na casa que foi mais afetada”.

Lucinda Loureiro mora na casa número 13 daquela rua e também apanhou “um grande susto” esta tarde. “Estava a fazer a cama quando ouviu um estrondo vindo do telhado”, diz ao Observador. A grua passou por cima do teto do seu quarto e quando saiu de casa deparou-se com um poste de eletricidade caído no chão. Ainda não sabe quando vai poder voltar a casa, mas tem indicação de que estão reunidas “todas as condições de segurança para poder regressar”.

José Maria Pinto vive na casa onde nasceu há mais de 60 anos. “Estava no café quando fui alarmado pelos vizinhos, ouvi muitos gritos”, conta ao Observador. A sua cozinha ficou com o teto danificado, “mas nada de maior”. José afirma que a grua se encontra junto a sua casa “há mais de seis meses” e tudo indica que se trata de uma obra para “mais um alojamento local”. “Estava em funcionamento” quando o acidente aconteceu, recorda.

Com a presença de Rui Moreira no local, onde visitou algumas casas e esteve largos minutos a falar com a corporação de bombeiros e alguns habitantes, foram duas as populares que se mostrarem indignadas com a atitude do presidente da câmara. “Deixe-me ficar na casa onde nasci.” “Não pode ir tudo para os turistas.” “Enganou-nos bem.” “Em França somos mais bem tratados.” Foram estas algumas das frases ouvidas, aos gritos, quando os ânimos se exaltaram.