Moçambique

Moçambique. Crianças aprendem a pescar para matar a fome das famílias

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Represas agrícolas estão a ser transformadas em centro de pesca para centenas de miúdos, alguns órfãos e outros abandonados, procurando mitigar a pobreza galopante que se acentuou após o ciclone Idai.

ANTÓNIO SILVA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Represas agrícolas, de quintas coloniais, estão a ser transformadas em centro de pesca para centenas de miúdos, alguns órfãos e outros abandonados, procurando mitigar a pobreza galopante que se acentuou após a devastação do ciclone Idai.

Das pequenas lagoas, nos subúrbios de Chimoio, a capital de Manica, centro de Moçambique, saem minúsculos peixes para alimentar numerosas famílias, que tentam reerguer-se após o ciclone que destruiu casas e hortas, além de ter levado à falência os pequenos negócios, por os produtos terem ficado entre os escombros de barracas e casas desabadas.

“As vezes consigo levar carril [peixe] para almoço e jantar” diz à Lusa Lucas Anastácia, sete anos, irmão mais velho de outros quatro que dependem dos seus biscates e da mãe, para sobreviver.

Com os olhos fixos na boia do anzol e cana improvisados com esferovite, arrame de vedação de capoeiras e caniço, tirado nas margens do lameiro, Lucas Anastácia, reconhece o risco de pescar numa lagoa infestada por serpentes, mas as necessidades da casa falam mais alto.

“Com o aumento das águas na lagoa, o peixe ficou mais fácil de apanhar”, disse à Lusa Zaqueu Fernando, um outro pescador, que por instinto sabe a direção para capturar alguns peixes médios, muito raros entre os miúdos.

Com as calças – que recebeu de doação num centro de abrigo no Trangapasso – dobradas pelo joelho, Pedrito Frank, recolhe minhocas para usar como isca, para mais uma jornada que deve valer a refeição da noite, na lagoa de Cau, um antigo pomar de toranjas e laranjas da extinta Grémio.

“Primeiro vínhamos pescar de brincadeira entre amigos” disse à Lusa Pedrito Frank, num sorriso confiante, a coisa que o ciclone não conseguiu levar dele e garante que “agora (a pesca) é de verdade, para tirar peixe para comer em casa”.

Dezena de miúdos frequentam os “damos”, nome dado às lagoas de Cau, Mudzingaze, 1.º de Maio e 7 de Abril, antigas represas nos arredores de Chimoio que forneciam água para irrigação das quintas agrícolas coloniais, para a produção de frutas e sisal, para alimentar a produção têxtil e de sumo.

“Meu pai nos deixou e vejo minha mãe se esforçar muito para nos dar de comer”, pelo que esta “é a minha contribuição” disse à Lusa Stefano Gabriel, 16 anos, o único “adulto” do grupo de dezenas que lançam os anzóis para assegurar mais uma refeição familiar.

Além de casas, o ciclone Idai destruiu várias culturas agrícolas no cinturão verde de Chimoio, de que dependiam para sobrevivência a maioria das populações afetadas.

A organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla inglesa) estima que o ciclone causou a perda de cerca de 750 mil hectares de colheitas na região centro de Moçambique, agravando a insegurança alimentar da área e do país.

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