Sri Lanka

Sri Lanka bloqueou redes sociais logo a seguir aos atentados. Porquê?

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Papel do Facebook nos confrontos religiosos de 2018 levou o Governo do Sri Lanka a "congelar" as redes sociais. Para travar propagação de fakenews, mas também de mensagens de ódio religioso e racial.

AFP/Getty Images

Foi uma das primeiras medidas anunciadas pelo Governo do Sri Lanka em resposta aos brutais atentados deste domingo. A par do recolher obrigatório a partir das 18.00, foram também bloqueadas as redes sociais. O Governo justificou esta medida com a preocupação de evitar o alastramento de notícias falsas que aticem os ódios religiosos e raciais numa sociedade multicultural que conhece periodicamente episódios de violência.

O primeiro-ministro, Ranil Wickremesinghe, apelou às pessoas para que não acreditam na informação falsa que vejam na internet. A Cruz Vermelha do Sri Lanka avisou que o tweet com rumores de que as suas instalações tinham sido atacadas não tinha fundamento. E segundo um investigador do centro para políticas alternativas de Colombo, citado pelo Washington Post, um órgão indiano chegou a atribuir os ataques a bombistas suicidas muçulmanos.  O ministro da Defesa lançou mesmo um apelo aos media para não publicarem nomes ligados aos ataques, avisando que isso pode gerar tensões entre as várias comunidades do Sri Lanka. E adiantou que o bloqueio será temporário enquanto duram as investigações sobre a autoria do atentado.

No domingo à noite foi anunciada a detenção de 13 pessoas, todas cingalesas, mas os ataques não foram ainda reivindicados e pouco se sabe sobre os presumíveis autores e as suas motivações, para além de um alvo evidente: as igrejas cristãs, duas das quais católicas em plena celebração da Páscoa.

O próprio primeiro-ministro admitiu que as forças de segurança tinham sido avisadas para potenciais ataques, mas essa informação não lhe foi comunicada. Horas antes, o Governo tinha desmentido a existência de um relatório dos serviços de informação a avisar para o ataque, divulgado no tweet atribuído a um ministério local, classificando-a como informação falsa.

Primeiro-ministro do Sri Lanka, Ranil Wickremesinghe, na conferência após os ataques terroristas no país

Banir as redes sociais não é uma medida nova e já tinha sido adotada em 2018 quando uma onda de tumultos abalou uma região do país com ataques que tiveram como principal alvo a comunidade muçulmana. As redes sociais, em particular o Facebook, foram acusados de permitir a circulação de notícias falsas e incitações à violência contra muçulmanos que, segundo as autoridades, ajudaram a espalhar os confrontos e os linchamentos.

Na altura, as autoridades avisaram o Facebook que também controla as redes WahtsApp e Instamagram de que estavam a ser feitas publicações que incitavam à violência. A empresa que gere a rede comprometeu-se a contratar mais controladores de conteúdos e a melhorar a comunicação, como conta o New York Times. No entanto, segundo o jornal americano,  as autoridades cingalesas mantiveram um clima de desconfiança em relação à gestão das redes sociais.

Aliás, a seguir aos atentados deste domingo de manhã, investigadores alertaram logo para um pico de falsas notícias sobre os autores e o número de vítimas. No entanto, como assinala o Washington Post, a suspensão temporária das redes sociais também suscita preocupação. Residentes locais e observadores internacionais notam que que será mais difícil aos habitantes do pais comunicarem com família e amigos, sobretudo se estiverem no estrangeiro.

Uma residente de Colombo que trocou mensagens com o jornal norte-americano conta que teve de usar o Twitter para explicar porque não podia responder às mensagens enviadas por WhatsApp e Facebook. “As pessoas podem apenas comunicar através de SMS ou Twitter”, disse Roshni Fernando que testemunhou que não tem acesso ao Youtube, nem ao Instagram.

O Facebook já reagiu a esta medida e assegurou estar a trabalhar para reforçar as primeiras respostas a estas situações e aplicar alei em vigor, bem como identificar e remover o conteúdo que contenha violência para lá dos limites definidos. A empresa mostra-se empenhada em manter os serviços e em ajudar a comunidade e o pais nestes tempos trágicos.

Outras redes sociais contactadas pelo Washington Post não fizeram comentários ao anúncio do Governo do Sri Lanka. De acordo com uma organização de direitos digitais com sede em Londres, o bloqueio afetou os serviços do Facebook, Youtube, Snapchat e Twitter. As autoridades terão pedido aos fornecedores locais destes servidores para bloquearem os serviços, mas a medida foi aplicada de forma diferenciada.

O Sri Lanka não é o único país a mostrar estas preocupações. Também a Índia já bloqueou o acesso a plataformas digitais para tentar controlar explosões de violência, sobretudo de natureza racial, étnica ou religiosa. E não são apenas países. Há também investigadores a culpar o Facebook por incitar ataques racistas em vários países.Na Europa, órgãos da União Europeia têm vindo a aprovar medidas para combater as fakenews, muitas difundidas pelas redes sociais, e com impacto no comportamento das pessoas e nas decisões de voto, mesmo em democracias maduras como os Estados Unidos e o Reino Unido. E há alertas para o facto de o risco destas propagações ser maior em países onde a confianças nas autoridades locais é baixa e há histórias recentes de violência entre comunidades.

Com uma dimensão inferior a Portugal e o dobro da população, o Sri Lanka é um cocktail de etnias e religiões que tem sido palco de conflitos sobretudo entre a maioria budista e as minorias muçulmana e cristã. Há relatos de ataques e violência, sobretudo contra cristãos e muçulmanos e as próprias autoridades admitem que por trás dos atentados deste domingo esteja o extremismo religioso. Já esta segunda-feira, o Governo do país responsabilizou um pequeno grupo islâmico radical local, National Thowheed Jamath, admitindo também ligações internacionais aos atentados.

De acordo com o New York Times, a decisão de banir as redes sociais no Sri Lanka representa uma escalada no movimento global contra as empresas gestoras das redes sociais porque é uma iniciativa preventiva e não reativa. O Governo agiu logo, em vez de confiar na capacidade ou vontade do Facebook e outras empresas para fiscalizar e controlar as publicações para evitar discursos de ódio ou apelos à violência, uma reação previsível depois dos ataques que tiveram como alvo três igrejas cristãs. As redes sociais foram consideradas demasiado perigosas para se manterem operacionais, isto num país da Ásia que é um dos palcos de grande crescimento do Facebook.

[Nova bomba encontrada perto de igreja no Sri Lanka. Detonação foi controlada]

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