[ATENÇÃO: este texto tem SPOILERS sobre o episódio 2 da oitava temporada da Guerra dos Tronos. Se não quer saber mais, não leia]

O melhor de “Guerra dos Tronos” não são os dragões, nem os mortos-vivos, nem o sexo, nem as grandes batalhas, nem os altos valores de produção, nem as personagens, nem os diálogos. O melhor de “Guerra dos Tronos” são aqueles momentos em que nos tira o tapete. Em que percebemos que fomos enganados – e gostamos. Em que, quando pensávamos que já tínhamos percebido para onde é que a série ia, percebemos que, se calhar, não vai… E ao episódio 2 da temporada final, a apenas quatro da última vez que ouviremos aquela música, começamos a suspeitar que não vai… E voltamos a sentir-nos estúpidos. E, portanto, gratos.

Já lá vamos. Depois da mera chamada em que consistiu o primeiro episódio (“Jon? Presente. Arya? Presente. Sansa? Presente. Jorah, Davos, Jaime, Cersei, mortos, dragões, etc? Presentes…”), o tomo 8_02, não sendo ainda propriamente o festim, já é outra loiça dramatúrgica.

Agora que percebemos – e o teaser do próximo episódio já libertado pela HBO assim o confirma – que a batalha com os mortos vem antes do embate com Cersei e começa já no episódio 8_03, aceitamos melhor as conversas (e se há conversa no episódio 8_02…): é a calmaria antes da tempestade.

Os círculos vão-se fechando: estamos de regresso a Winterfell e à muralha onde tudo começou. Mas todas as personagens mudaram, cumprindo o seu arco: Tyrion era um “bêbedo devasso” e, agora, é o respeitável estratego da rainha; Jaime Lannister era o “leão de ouro”, mau e vaidoso, e agora é um humilde soldado que se vai colocar ao serviço do bem, Sansa era uma ingénua princesa destinada a ser pouco mais do que uma figura decorativa ao lado de um rei qualquer e, agora, é uma líder política ardilosa…

Os círculos vão-se fechando e fazem-no com elegância. Jaime Lannister está diante de Bran que lhe recorda uma frase que quem quer que tenha visto o primeiro episódio de sempre de “Game of Thrones” nunca esqueceu: “The things we do for love…” Mas a frase mais marcante vem um pouco mais à frente, pela voz de Sansa: “Os homens fazem coisas estúpidas pelas mulheres”. Um momento de sabedoria razoavelmente inultrapassável.

Há tantas personagens concentradas nos episódios desta temporada final que, algumas não têm mais do que uma deixa por cena ou são, por vezes, apenas os figurantes mais bem pagos de sempre. (Propomos aqui, desde já, o lançamento de um abaixo-assinado para a reanimação cardíaca de Varys, que foi em tempos das personagens mais interessantes de GoT e, agora, não passa de um aio de companhia mudo – como se já não bastasse ser eunuco.) Mas vale a pena peregrinar por esse desfile de quadro após quadro após quadro, naquele que, dizem as personagens, pode ser o último dia do mundo, para ver, pelo menos, três coisas: Arya crescida, Jaime ordenando um novo cavaleiro dos Sete Reinos e as profecias de Brandon Stark, comentadas pela filosofia de Sam Tarly, lançando alguma luz sobre o que nos espera.

Não vamos uma única vez a Porto Real. Não vemos Cersei, nem qualquer dos “maus”, doo outro lado da história. Mesmo os mortos ficam guardados para o plano final, onde vão fazer o gancho final que já tantas vezes foi deles… O que nos faz suspeitar de que o verdadeiro conflito pode estar aqui, em Winterfell, no Norte, entre os “bons”…

Já circula pela net uma nova teoria: a de que Daenerys pode ser, no fim do dia, a grande vilã de “Guerra dos Tronos”. O grande arco de personagem que não percebemos acontecer. A rainha louca obcecada pelo trono simplesmente porque sim, porque acredita que lhe está destinado, o poder pelo poder, que tentou dar a liberdade e fazer a democracia, mas a verdade é que falhou sempre. Em contraste com Jon Snow, que sempre colocou o interesse colectivo acima do dele mesmo. Daenerys e os seus dragões e os seus exércitos e as forças que pareciam desequilibradas contra as de Cersei e que, se calhar, não estão. Porque a guerra poderá ter, no fim de contas, outro adversário…

Nota relevante: não morre ninguém neste episódio. Talvez uma homenagem à Páscoa. Ou um sinal de que o próximo será a carnificina.