Passados seis dias do desmoronamento do templo mais emblemático de França, Javier Sierra, escritor de “Las puertas templarias”, um romance em que Notre-Dame é protagonista e que venceu o Premio Planeta de 2017, escreveu uma crónica sobre os segredos da catedral para o El Mundo. Sierra falou com José Luis Corral, professor de História Medieval na Universidade de Zaragoza e o professor disse-lhe que o pináculo que caiu esconde um mistério.

Em 2006, José Luis Corral estava a reunir informações para o seu livro “Fulcanelli, o proprietário do segredo” e com uma permissão especial subiu ao topo de Notre Dame para ver o pináculo. O escritor tinha estudado um controverso ensaio de 1926 no qual a catedral parisiense era interpretada pela alquimia. O ensaio afirmava que cada gárgula, estátua, relevo, vitral ou detalhe arquitetónico era capaz de transformar a matéria-prima (chumbo, pecados, ignorância) em ouro (sabedoria, riqueza, bondade).

Na sua visita Corral encontrou, pregado à base do pináculo de 750 toneladas de madeira revestida a chumbo, uma placa de 50×20 centímetros adornada com símbolos maçónicos e com uma inscrição: “Este pináculo foi feito no ano de 1859. M. Viollet-le-Duc foi o arquiteto da catedral. Por Ballu, a empresa de carpintaria, sendo Georges capataz dos colegas carpinteiros do ‘Devoir de Liberté’”.

A menção de um ‘Devoir de Liberté’ levou-o a uma pista que decidiu não incluir no seu romance. Agora, depois do que aconteceu em Paris, Corral revela que, de acordo com as suas primeiras investigações, essas palavras escondem a existência de uma sociedade secreta da qual os profissionais liberais, especialmente os da indústria da construção, faziam parte do século XIX. O porfessor chegou assim a uma organização que era uma espécie de antecessora dos actuais sindicatos, mas com uma filosofia quase religiosa. Seria dela que mais tarde floresceria a maçonaria.

“Desde a época das catedrais, havia muito zelo na forma como o conhecimento de uma disciplina prática era transmitido, como a dos pedreiros. Tudo era cercado de sigilo para que o conhecimento permanecesse nas mãos de poucos e fosse passado apenas por iniciação. De aprendiz a professor”, diz o escritor.

Esta placa, que foi devorada pelo fogo, mostrava que os trabalhadores que restauraram a Notre-Dame no século XIV eram iniciados. Embora não houvesse provas de qualquer vínculo de Eugène Viollet-le-Duc com esses grupos, admite-se que membros da sua família eram maçons. Viollet-le-Duc foi parceiro do arquiteto Jean-Baptiste Lassus nas tarefas de reabilitação da catedral. Posteriormente foi possível ligar o nome de “Georges” com Henri Georges (1818-1887), um carpinteiro qualificadoque contruiu além daquela agulha, as da Capela Santa de Paris, do mosteiro do Mont Saint-Michel, da basílica de Vézelay e da catedral de Orléans, que é 21 metros mais alta que a que colapsou em Notre Dame. Por último “Ballu” foi revelada como uma prestigiada empresa de carpintaria, localizada na ‘rue des Récolets’ e de que faziam parte irmãos da mesma sociedade.

“Os Carpinteiros do ‘Devoir de Liberté’ identificaram-se com pequenos bastões de metal presos às lapelas”, diz Corral.

A origem do Pináculo de Notre Dame

George e Viollet-le-Duc trabalharam juntos durante as mais de duas décadas de reconstrução de Notre Dame. Quando começaram seu trabalho em 1844, o pináculo não existia. O original foi demolido na época da Revolução Francesa. Apenas a imensa fama adquirida pelo romance de Victor Hugo “Nossa Senhora de Paris” (1831) convenceu as autoridades a alocar dois milhões e meio de francos para a sua reconstrução — sendo que o próprio Victor Hugo seria maçon.

“A ligação entre pedreiros e catedrais vem de longe. De facto, os primeiros maçons foram os trabalhadores que construíram templos como Notre-Dame na Idade Média. A palavra que os designa vem da palavra maçon, que significa pedreiro”, explicou Luis Corral, lembrando que os maçons terão ficado na posse dos “segredos de construção transmitidos por Hiram, o arquiteto do Templo de Salomão em Jerusalém”.

Na terça-feira, um membro do Grupo de Restauração dos Monumentos Históricos de Paris encontrou um bloco enorme de cobre verde, amassado e incapaz de ser aberto e revelar as relíquias escondidas lá dentro. Mas segundo velhos relatos, naquele grande pináculo de 30 toneladas estava selado um espinho extraído da suposta coroa de Cristo que Luís IX trouxe das Cruzadas, e dois ossos dos corpos de St. Denis e St. Genoveva, patronos de Paris.

O pináculo tinha outros símbolos maçónicos, nomeadmente o galo no topo, e abrigou um auto-retrato de Viollet-le-Duc. O arquiteto autorizou que o seu rosto servisse de modela para estátua de St. Thomas, o único dos doze apóstolos de metal na estrutura do pináculo que não olhava para Paris. Esse conjunto de estátuas foi salvo do incêndio por ter sido levado para limpeza quatro dias antes.

Mas Javier Sierra acredita que Viollet-le-Duc foi retratado por causa de outro mistério. Ele era grande admirador do arquiteto medieval Villard de Honnecourt, que acreditava que a catedral era um edifício cujas proporções estavam ligadas ao corpo humano. A nave seria o tronco, as laterais os braços, e na abóbada estava o coração. Deste ponto de vista, o pináculo sob o altar – onde era mantida a coroa completa de Cristo que milagrosamente sobreviveu à queda da abóbada – marcava acima de tudo o pulsar da catedral.