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Cinema

Denys Arcand: “O dinheiro é neutro, não é bom nem é mau”

Eurico de Barros entrevistou o consagrado realizador canadiano Denys Arcand sobre o seu novo filme, "A Queda do Império Americano", já em exibição: decadência, corrupção, comédia e fuga de capitais.

Autor
  • Eurico de Barros

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004 com “As Invasões Bárbaras”, e várias vezes premiado em Cannes, Denys Arcand é o decano e o mais prestigiado dos realizadores canadianos, e do cinema do Québec, autor de obras como “Réjeanne Padovani” (1973), “Jesus de Montréal” (1989) ou “A Era dos Ignorantes” (2007). O último filme da sua trilogia informal, “A Queda do Império Americano” (os outros dois são “O Declínio do Império Americano”, de 1986, e o citado “As Invasões Bárbaras”) acaba de se estrear em Portugal. Nele, Pierre-Paul, um doutorado em Filosofia, homem bondoso e ingénuo, que não conseguiu melhor do que um emprego numa empresa de entrega postal (“E ganho mais do que se desse aulas”, diz a certa altura), é a única testemunha de um assalto falhado e fica de posse de dois sacos contendo 12 milhões de dólares, lucros das atividades criminosas dos “gangs” de Montréal.

Querendo usar o dinheiro para o bem, mas não sabendo como, e estando vigiado pela polícia, Pierre-Paul junta em seu redor quatro pessoas que sabem mais a dormir sobre a vida real e os esquemas para escamotear dinheiro ao Estado do que ele acordado: uma prostituta de luxo, um antigo criminoso que estudou Gestão na cadeia de onde acabou de sair e um especialista em finança, investimentos e fuga de capitais para paraísos fiscais. O Observador entrevistou Denys Arcand por “e-mail” sobre “A Queda do Império Americano”, filme em que o realizador, com cinismo, humor e um ponto de vista libertário mas moral, harmoniza o policial, a sátira social e de costumes e o ataque à corrupção galopante, ao culto cego do dinheiro e à vulgarização do branqueamento de capitais nas sociedades contemporâneas.

O título de trabalho de “A Queda do Império Americano” era “O Triunfo do Dinheiro”. Porque é que o mudou?
Durante a montagem do filme, o título “O Triunfo do Dinheiro” parecia criar alguma confusão. Havia algumas pessoas que tinham dificuldade em o decorar, outras eram hostis à palavra “dinheiro”. E pensei que o melhor mesmo era mudá-lo.

O que liga esta trilogia informal, “O Declínio do Império Americano”, “As Invasões Bárbaras” “A Queda do Império Americano”? A ideia de uma decadência geral do nosso modo de vida ocidental?
Para mim, “Declínio do Império Americano” ou “Queda do Império Americano” significam muito simplesmente isto: esta época em que vivemos. Penso que dentro de dois ou três séculos, se houver ainda seres humanos na Terra e se eles pensarem em nós, dirão: aquelas pessoas viveram no tempo do declínio e da queda do império americanos

Se eu disser que “A Queda do Império Americano” é um policial de fundo moral e cristão, está de acordo?
Policial, sim, moral, certamente, cristão é que já não tenho tanta certeza. Mas a palavra for entendida no sentido original dos ensinamentos de Jesus, então estou de acordo.

Mesmo sendo um homem muito inteligente, Pierre-Paul é também um ingénuo idealista, enquanto que todos os que o rodeiam são pessoas pragmáticas e realistas. Está a dizer-nos que não podemos triunfar neste mundo sem esse equilíbrio entre idealismo e calculismo?
A personagem de Pierre-Paul é ingénua, sem dúvida. Porque ele é um intelectual que vive nos seus livros. Mas não o considero um idealista, é simplesmente bom e generoso. É um homem que, nos seus tempos livres, faz voluntariado a servir comida aos pobres. Há muitas pessoas assim e elas são a esperança da humanidade.

Salvo os “gangsters”, não há neste filme personagens totalmente negativas, antipáticas, estereotipadas. Elas são muito humanas e verosímeis nas suas qualidades e falhas. Tenta sempre que esta humanidade e esta verdade das personagens seja uma constante dos seus filmes?
Eu demoro muito tempo a escrever os argumentos dos meus filmes, entre dois e três anos. Todos eles são baseados em anos de pesquisas e de encontros com muitas pessoas. Se passamos muito tempo com polícias, com gente da finança, mesmo com bandidos, acabamos por ultrapassar os clichés habituais e encontrar seres humanos.

Este é um filme sobre dinheiro, fala-se de dinheiro ao longo de toda a história, mas não há uma condenação moral, filosófica, ideológica do dinheiro. É da opinião que o dinheiro em si é neutro e que o problema está na forma como as pessoas o usam?
Sim, acho que o dinheiro é neutro, não é nem bom nem mau. A maior parte das pessoas muito ricas (salvo os criminosos, claro) tiveram simplesmente sorte: encontraram petróleo no jardim ou inventaram a Microsoft. E a maior parte das pessoas muito pobres simplesmente nasceram no lugar errado, na altura errada. Depois, o que cada um faz com o seu dinheiro determina o seu valor enquanto ser humano.

A forma como descreve os circuitos da fuga ao fisco, e da criação de empresas-fantasma e de fundações de fachada no estrangeiro é muito detalhada e credível. Consultou economistas e especialistas no assunto para ficar dentro do seu funcionamento?
Com certeza, e como não sou jornalista e eles sabem que não verão o seu nome nos jornais no dia seguinte, e que as informações que me dão serão transformadas sob a forma de um filme de ficção, confiam-se a mim de uma forma muito mais descontraída.

Quando começa a rodar um filme, o argumento está terminado e segue-o sem alterar uma vírgula, ou tem espaço para lhe introduzir modificações se assim achar necessário?
Eu estou sempre aberto a sugestões dos atores e mesmo dos técnicos com quem trabalho. Mas na verdade, como os meus argumentos assentam em muito trabalho de pesquisa, quase nunca há necessidade de lhes fazer alterações.

No elenco de “A Queda do Império Americano” encontramos atores como o veterano Rémy Girard, com o qual já fez seis filmes, mas também uma estreante, Maripier Morin, que apresenta programas de televisão. Acontece-lhe escrever papéis especificamente para certos atores, ou só os escolhe uma vez os argumentos completados?
Com a exceção de dois filmes, “Jesus de Montréal” e “As Invasões Bárbaras”, nunca escrevi um papel para ninguém em particular. Sou daqueles realizadores que faz muitas audições. A Maripier Morin teve que fazer quatro, por exemplo! E quanto ao Rémy, se estiver livre, evidentemente que há sempre um lugar para ele nos meus filmes.

Já sabe que filme vai fazer a seguir?
Tenho vontade de me atirar ao politicamente correto. Mas ainda não sei bem como.

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