A escritora uruguaia Ida Vitale recebeu esta terça-feira em Madrid o Prémio Miguel de Cervantes 2018, numa cerimónia em que destacou a inspiração de D. Quixote de la Mancha, cuja loucura considerou ser um “frenesim poético”.

O maior galardão da literatura espanhola foi entregue a esta poetisa, tradutora e ensaísta de 95 anos pelo rei Felipe VI.

Muitas vezes o que chamamos a loucura do Quixote poderia ser vista como a irrupção de um frenesim poético, não sublinhado como tal por Cervantes, um novelista que tinha um respeito particular pela poesia”, disse Ida Vitale, na cerimónia de entrega do prémio.

A poetisa recordou como teve conhecimento da obra de Miguel de Cervantes em Montevideu, capital do Uruguai, onde nasceu, e declarou estar agradecida e emocionada por receber o galardão que, segundo ela, chegou tarde. “As minhas leituras de D. Quixote, com exceção das incluídas nos programas do liceu, foram livres e tardias”, disse Ida Vitale.

Nascida em Montevideo, em 02 de novembro de 1923, Ida Vitale afirmou-se como poetisa, jornalista, tradutora e crítica literária.

Entre a vasta obra publicada da autora, destacam-se títulos como “La luz desta memoria”, “Procura de lo imposible”, “Léxico de afinidades”, “Sueños de la constancia” e “Cada uno en su noche”.

A escritora pertenceu à chamada Geração de 45, que integrou igualmente os escritores Mario Benedetti (1920-2009) e Juan Carlos Onetti (1909-1994), grupo que é considerado, na história das literaturas hispanas, o mais importante movimento literário no Uruguai, no século XX.

Ida Vitale estudou Humanidades e lecionou até 1974, em Montevideu, quando a ditadura militar a obrigou a exilar-se no México, durante dez anos.

Colaboradora de jornais e revistas, fez também parte do conselho assessor da revista Vuelta e do grupo fundador do periódico Unomasuno, no México.

Sem obra publicada em português, de acordo com o catálogo da Biblioteca Nacional, Ida Vitale traduziu, contudo, em 1968, para castelhano, as “Cartas de amor de la religiosa portuguesa”, atribuídas a Mariana Alcoforado, publicadas em Montevideo, no Uruguai, pela Arca-Galerna.

Entre os prémios que recebeu contam-se o Prémio Internacional Octavio Paz de Poesia e Ensaio, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2015) e o Internacional de Poesia Federico García Lorca (2016).

É também doutora honoris causa pela Universidade da República do Uruguay.

No passado mês de setembro, Ida Vitale foi distinguida com o Prémio em Línguas Românicas da Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara, que será entregue no México, no próximo dia 24, durante a FIL.

O júri do prémio mexicano, que distinguiu Vilate por unanimidade, destacou então “a depurada voz” da escritora, que “sabe renovar a tradição e afirmar a sua presença na modernidade”, constituindo “uma força poética no âmbito da língua espanhola”.

Em 2017, o Prémio Cervantes, dotado de 125 mil euros – prémio conhecido em Espanha como “o Nobel de literatura em catelhano” -, foi atribuído ao nicaraguense Sergio Ramírez.

A distinção da uruguaia Ida Vitale, em 2018, rompeu a tradição de alternância, entre autores espanhóis e latino-americanos, estabelecida ao longo das diferentes edições do prémio.

Miguel de Cervantes Saavedra é um romancista, dramaturgo e poeta que nasceu em Alcalá de Henares, arredores de Madrid, em 1547 e morreu na capital espanhola, em 1616.

A sua obra-prima, “D. Quixote de la Mancha”, é um clássico da literatura ocidental, habitualmente considerado um dos melhores romances já escritos.

A influência desta obra sobre a língua castelhana é de tal forma grande que este idioma é frequentemente chamado a língua de Cervantes.