Quase três anos depois de o Governo ter decidido que o Forte de Peniche faria parte de um conjunto de monumentos a serem reabilitados e explorados como hotéis, restaurantes ou salas de conferências por parte de entidades privadas, decisão contestada por vários setores e depois corrigida pelo executivo, a atual ministra da Cultura esteve de visita a esta lendária prisão política do salazarismo, símbolo do autoritarismo do Estado Novo, mas também da oposição política ao regime.

Nesta terça-feira ao início da tarde, Graça Fonseca visitou uma exposição provisória que permite vislumbrar o Museu Nacional Resistência e Liberdade, que está precisamente incluído no Forte de Peniche e cuja abertura oficial deverá ocorrer até ao fim do próximo ano, segundo a titular da pasta da Cultura: “Vamos tudo fazer para que fique concluído no fim de 2020”, disse.

O futuro museu representa “uma homenagem muito importante” aos presos políticos e opositores da ditadura, disse a ministra. “É uma forma de fixar este pedaço da nossa história, que não podemos e não queremos esquecer, para que a história não se repita”, acrescentou.

A visita de Graça Fonseca serviu também para dar a conhecer o Memorial aos Presos Políticos, uma parede em ferro, à entrada do forte, com nomes de 2510 “opositores ao regime fascista”, presos em Peniche entre 1934 e 1974, lê-se na legenda. Outros nomes serão acrescentamos ao longo do tempo, conforme venham a ser apurados pelas pesquisas documentais em curso.

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A exposição e o memorial assinalam os 45 anos da Revolução dos Cravos e conhecem inauguração oficial na quinta-feira, às 18h30, com a presença do primeiro-ministro, António Costa. São também duas das primeiras manifestações da nova instituição museológica, cuja direção será escolhida em 2020 através de concurso público internacional, segundo Graça Fonseca, e no qual deverão trabalhar cerca de 40 funcionários. O custo global é de 3,5 milhões de euros.

O Forte de Peniche, ou Fortaleza, localiza-se no extremo sul da península de Peniche, distrito de Leiria, e teve um papel central em vários momentos da história portuguesa. Remonta a 1645, reinado de D. João IV, e desde 1938 está classificado como Monumento Nacional. Prisão política entre 1934 e 1974, alojamento provisório de famílias portuguesas regressadas das antigas colónias a seguir ao 25 de Abril de 1974, alberga desde 1984 o Museu Municipal de Peniche.

A exposição agora montada intitula-se “Por Teu Livre Pensamento” — primeiro verso de um fado de intervenção escrito por David Mourão-Ferreira, musicado por Alain Oulman e cantado por Amália Rodrigues. É organizada pela Direção-Geral do Património Cultural e pelo Comité Executivo do Museu de Peniche (grupo criado pelo Ministério da Cultura em outubro do ano passado com a “missão de acompanhar a última fase da obra de criação” do Museu Nacional Resistência e Liberdade, a instalar na Fortaleza de Peniche). Inclui fotografias, documentos, desenhos, vídeos e objetos de acervos públicos e privados.

Além de Graça Fonseca, estiveram presentes nesta visita para a imprensa a diretora-geral do património cultural, Paula Araújo da Silva, os historiadores Fernando Rosas e João Bonifácio Serra e o conselheiro de Estado Domingos Abrantes.

Rosas, de 73 anos, esteve preso por vários meses em Peniche em 1972. Abrantes, 10 anos mais velho, funcionário do Partido Comunista e ex-deputado, foi preso político em Peniche entre 1965 e 1973. São ambos membros do Comité Executivo do Museu de Peniche, grupo criado pelo Ministério da Cultura em outubro do ano passado com a “missão de acompanhar a última fase da obra de criação” do Museu Nacional Resistência e Liberdade.

O exterior do forte está em reabilitação, mas ainda falta o interior. Fernando Rosas disse ao Observador que as obras no interior “são complexas, é preciso destruir e reconstruir paredes”, mas prevê que o museu esteja pronto no fim de 2020.

A exposição é composta por quatro núcleos: Mostra Documental, Palratório, Capela de Santa Bárbara e Fortim Redondo/Segredo. O primeiro núcleo, explicou Rosas, é no espaço de um antigo refeitório e alojamento da GNR e para já constitui “uma espécie de síntese introdutória do que será o museu”, referiu.

Ali se encontram mesas iluminadas com inúmeros documentos, originais e réplicas. Recortes, a famosa Moção Aprovada na Capela do Rato em 1973, documentos sobre o assalto ao Paquete Santa Maria, primeiras páginas sobre o 25 de Abril do “Diário Popular” e do “Diário de Lisboa”, fotos da libertação dos presos de Peniche a 27 de Abril, transcrições de conversas telefónicas de Mário Soares, um index de livros proibidos na cadeia.

Há também um ecrã interativo com desenhos de Álvaro Cunhal executados entre 1951 e 1959 na Penitenciária de Lisboa e em Peniche; projeções de imagens em grande formato, algumas “relativamente inéditas”, disse Rosas, acerca do movimento estudantil, da guerra colonial e de movimentos de libertação colonial. Uma vitrine com uma camisa verde da Mocidade Portuguesa, outra com cartazes da campanha eleitoral da União Nacional em 1949. “São muito raros estes cartazes, eu pessoalmente não os conhecia”, contou o historiador.

A visita durou cerca de duas horas, com momentos muito impressivos relatados por Domingos Abrantes. No segundo núcleo, relativo às visitas de familiares de detidos, este explicou que “as crianças eram as principais vítimas deste espaço.” O palratório conserva um aspeto que remonta à década de 60 e inclui fotos dos casamento que ali eram celebrados (o de Abrantes em 1969, por exemplo) ou os desenhos e postais que os filhos enviavam aos pais presos.

“Havia famílias que não traziam aqui os filhos, porque eles começavam a ter problemas psicológicos, não podiam beijar os pais, vinha um guarda atrás dele. Nas conversas durante as visitas, a simples pergunta ‘quanto gastaste para vir aqui?’ poderia ser considerada uma pergunta política e levar os guardas a acabar com a conversa. Qualquer conversa íntima entre casais era impossível. Todos os guardas ficavam a saber as coisas mais íntimas, a vida era toda devassada”, recordou Domingos Abrantes.

No núcleo da Capela de Santa Bárbara (que retrata as relações entre a fortaleza e a cidade, para lá do século XX), João Bonifácio Serra tomou a palavra para dizer que o edifício funcionou como “peça central da defesa de Lisboa”, ideia surgida a seguir à restauração da independência, em 1640. “Depois das invasões francesas, essa função de defesa de Lisboa foi-se perdendo e a fortaleza tornou-se um depósito emigrados”, antes de ser prisão política, acrescentou.

Por fim, no  núcleo do Segredo, ou Fortim Redondo, encontram-se elementos visuais evocativos das célebres fugas de Dias Lourenço e de Álvaro Cunhal com outros nove presos em janeiro de 1960.

“Os conteúdos foram trabalhados por pessoas que aqui têm uma história, para que os que aqui venham conheçam a história contada na primeira pessoa, o que é uma forma de gerar empatia”, resumiu a ministra.