A reunião desta semana dos responsáveis pela Tesla com investidores, que decorreu na sede da marca em Palo Alto, na Califórnia, foi recheada de surpresas. Para os que desejam investir no construtor, mas sobretudo para os concorrentes. De uma assentada, Elon Musk, o CEO da empresa, conseguiu seguir um rumo oposto ao da totalidade dos outros construtores de automóveis. Enquanto estes dizem que os carros autónomos estão a anos de poderem ser uma realidade, Musk defendeu exactamente o contrário, afirmando que a Tesla está pronta para avançar já no próximo ano, nos locais onde isso seja legalmente possível. E vai montar um negócio, a funcionar tipo Airbnb, para que os seus clientes também ganhem dinheiro a concorrer com a Uber.

Para que não houvesse dúvidas, a Tesla revelou um vídeo de um Model 3, com o piloto de testes sentado no banco do condutor (de outra forma seria ilegal), mas sem tocar no volante ou nos pedais, que viajou no ponto A ao ponto B. De caminho, o veículo circulou, aparentemente sem problemas, por estradas secundárias, onde lidou com sinais de Stop e semáforos, para depois rodar na auto-estrada onde revelou estar à vontade com cedências de prioridade e as vias de acesso e saída, mesmo quando as curvas eram mais apertadas e estreitas.

Como é que isto é possível?

O que está a permitir activar a condução autónoma já em 2020 é o facto de a marca estar a concluir o desenvolvimento do novo computador, que denomina FSD (de Full Self Driving), que gere todo o processo, para o qual conta com o novo processador, concebido pela própria Tesla. Musk, que raramente poupa nos adjectivos, considera ser “objectivamente o melhor chip do mundo”. Veja aqui como funciona a mais recente versão do Autopilot em modo 100% autónomo, sem recurso ao condutor:

A Tesla usava até aqui o computador do sistema Autopilot 2.5, que recorria a um processador da Nvidia, tida como a melhor neste domínio, pelo que a reacção aos elogios da Tesla ao seu próprio chip não se fez esperar. Segundo a Nvidia, que não contesta o avanço da condução autónoma dos seus antigos parceiros, “não faz sentido comparar um chip duplo, como o FSD da Tesla, capaz de 144 biliões de operações por segundo, com o chip simples da Nvidia que era usado antes, sete vezes menos rápido”. Para o fabricante de processadores, “uma comparação mais correcta seria opor o FSD ao Nvidia Drive AGX Pegasus, igualmente duplo, que atinge 320 biliões de operações por segundo”. É claro que a resposta não se fez esperar, com a Tesla a explicar que “nunca seria possível utilizar um chip como esse num automóvel devido ao seu elevado consumo de energia (500W), que é cinco vezes superior ao FSD”. É que se o objectivo é ter um sistema de condução autónoma, é sempre bom ter presente que este vai servir um veículo eléctrico, cuja energia deve ser utilizada prioritariamente para se deslocar.

Além de todos os cálculos que realiza, o FSD possui ainda inteligência artificial, para aprender com a experiência que vai acumulando, sendo de recordar que a Tesla regista tudo o que acontece com todos os seus veículos nos quatro cantos do mundo e há muitos anos que todos esses dados estão a ser guardados para “ensinar” o computador da casa.

Há aqui algum truque?

Sim e não. Primeiro, convém lembrar que a Tesla prometeu ter a condução autónoma pronta até final de 2017, ano em que deveria atravessar os EUA de costa a costa. Finalmente, tudo indica que será até ao final de 2019 que o projecto avança, tanto mais que Musk mencionou estar a preparar um evento marcante para ganhar a confiança no legislador, de forma a antecipar a legalização dos carros sem condutor. Em relação aos dois anos de atraso, o próprio Elon Musk reconheceu as derrapagens: “De todas críticas que nos fazem, admito uma, aquela que nem sempre conseguimos cumprir com os prazos previstos.” Nada que o tivesse impedido de realçar que, apesar disso, a marca sempre  “conseguiu atingir os objectivos” a que se propôs, garantindo que a condução autónoma vai ser apenas mais um desses exemplos. E muito antes da concorrência.

9 fotos

Em relação ao vídeo que demonstra o nível atingido pela condução autónoma da marca, a Tesla abriu o jogo, pois não só editou a versão mais curta que aqui publicamos, como distribuiu igualmente o vídeo completo, sem cortes ou edição, onde é possível constatar que o veículo fez aquele mesmo percurso várias vezes até atingir a perfeição.

Se é certo que a Tesla ainda tem um longo trabalho pela frente, não é menos verdade que a marca norte-americana está num estágio de evolução em que, mais uma vez, bate com larga vantagem todos os concorrentes, cujos veículos não só não conseguem realizar este percurso, como os seus responsáveis nem acreditam que tal seja exequível nos próximos anos. Resta agora esperar para ver, pelo menos até final do ano, quando a marca deverá começar a testar de forma oficial.

Quais as vantagens da condução autónoma da Tesla?

O custo e a eficiência, quando esta última for alvo de demonstração em condições normais. Até aqui, o melhor sistema de ajuda à condução era o da Tesla e a melhor solução de condução autónoma era a desenvolvida pela Waymo, a divisão da Google. Porém, o sistema da tecnológica americana é muito sofisticado e caro, com vários radares, câmaras e pelo menos 3 LiDAR, que no início do projecto custavam 75.000 dólares a unidade, até que a Waymo começou a fabricá-los ela própria, com o preço a baixar para 7.500$ a unidade.

O que a Tesla afirma é que o LiDAR, de Light Detection and Ranging (um emissor de raios laser que mede a distância aos obstáculos, que mais parece um cilindro a girar no tejadilho dos veículos autónomos) é caro e não é necessário. Musk defendeu mesmo que “se o ser humano consegue conduzir com os dois olhos, então é possível ensinar uma máquina a fazer o mesmo com a ajuda apenas de câmaras”, embora a Tesla também recorra a radares de médio e longo alcance, além de sensores ultrassónicos.

Dentro de um ano, a Tesla espera estar a activar a condução autónoma nos carros dos clientes e, dentro de dois anos, caso seja legal, começam a ser produzidos Tesla sem volante. Mas a marca será responsável pelos acidentes por mau funcionamento

Mesmo para os fabricantes que venham a adquirir o sistema à Waymo, a condução autónoma vai ser sempre cara, sobretudo de início. E o cliente vai ter de encomendar um veículo novo com esse extra dispendioso. Para a Tesla, a situação está longe de ser essa. Já vendeu uns largos milhares de unidades equipadas com a versão Enhanced do Autopilot (custa 5.400€ em Portugal), que já inclui todo o hardware necessário para a condução autónoma – menos o novo processador FSD, que a marca terá de instalar gratuitamente –, faltando apenas actualizar o software over-the-air.

Tesla-robot para concorrer contra a Uber

Uma das principais novidades que a Tesla anunciou durante o Autonomy Investor Day foi pretender criar um serviço de táxis-robôs, destinados a concorrer contra empresas como a Uber. É sabido que esta empresa de transportes está igualmente a desenvolver uma solução autónoma, mas a Tesla quer criar uma rede com modelos da marca para fornecer um serviço de ride-sharing e conta com os carros que já vendeu aos clientes. De caminho, desafia-os a ganhar algum dinheiro com o seu veículo, explorando-o quando não estão a utilizá-lo, um pouco à imagem do que acontece com as casas no Airbnb.

A Tesla irá criar mais um campo na sua aplicação, o que permite a cada cliente interessado em rentabilizar o seu veículo registá-lo, disponibilizando-o a quem estiver interessado. Esta oferta pode ser total, entre o público associado à aplicação, como acontece com a Uber ou, caso o dono do Tesla prefira, limitando o acesso do seu veículo a um grupo de amigos, colegas de trabalho ou pessoas com quem contacta nas redes sociais. E tal como acontece na Uber, também a Tesla vai reter uma parte do que é facturado (entre 25 e 30%, segundo Musk), com o restante a reverter para o proprietário. E como não há custos com o condutor, a margem de lucro é substancialmente mais interessante do que nos veículos que necessitam de alguém ao volante.

Nas regiões em que exista um representativo número de clientes desejosos de explorar os seus Tesla, serão estes a assegurar o serviço, para nas restantes zonas ser a própria Tesla a colocar veículos para aluguer. Mas o construtor está confiante que os mais de 1.000.000 de Tesla que estão a circular em meados de 2020, com capacidade de se deslocar sem condutor, vão conseguir gerar uma frota de dimensões muito generosas, nos quatro cantos do mundo. Segundo a Tesla, que estima a longevidade dos seus veículos no aluguer em cerca de 11 anos, um robot-táxi pode gerar até 30.000 dólares por ano de lucro bruto.

Resta agora esperar mais uns meses para ver até que ponto estas previsões da Tesla e de Musk, para a condução autónoma, se confirmam. Caso isso aconteça, será obviamente bom para o construtor, mas também para os potenciais clientes e para a segurança, pois o sistema é barato, boa parte dos condutores já o pagaram e, ao contrário das soluções da concorrência, vai conseguir “conduzir” sem ter de recorrer a mapas de alta definição ou limites de vias cartografados e definidos por GPS. E não faltam fãs do projecto entre a comunidade científica, como o director do New England University Transportation Center do MIT, Bryan Reimer, que é também investigador do MIT AgeLab. Segundo ele, a solução da Tesla é “notável e tecnologicamente inacreditável”, pelo que Reimer diz não acreditar que “alguém consiga atingir um objectivo similar nos tempos mais próximos”.