Música

Mumford and Sons: “Se tivéssemos tocado sempre em pubs teríamos sido felizes”

Os Mumford and Sons habituaram-se a esgotar arenas em todo o mundo e iniciam uma nova tou europeia esta quinta feira em Lisboa. Mas em entrevista dizem-nos que esse nunca foi o objetivo.

Autor
  • André Almeida Santos

Ted Dwane, o baixista dos Mumford & Sons, está em Londres. A sua voz parece relaxada e a forma como conversa com o Observador ao telefone em nada indica que vai começar uma digressão de semanas no dia seguinte. A Delta Tour, em volta do último álbum da banda, Delta, começa esta quinta feira a sua aventura europeia em Lisboa, na Altice Arena. É o regresso da banda a Portugal, quatro anos após terem tocado no NOS Alive.

Esta digressão é construída em volta do desejo da banda sentir-se mais próxima do seu público e, para isso, resolveram tirar o palco do sítio tradicional e colocá-lo no centro das salas, com o público todo à sua volta. Como Ted Dwane diz, esta é uma banda que seria feliz se continuasse a tocar em pubs e em bares. Ter o público mais próximo contribui para a interação que querem ter com os seus fãs. Diz-se que é uma experiência em 360 graus, nas palavras de Ted subentende-se que é um desejo da banda de voltar às suas origens, uma solução para a aproximação possível nas grandes salas.

[“Delta” ao vivo na O2 Arena:]

Já estão em Portugal?
Não, tenho estado no meu estúdio em Londres.

Ah, eu voltei ontem de Bristol.
Que fazias lá?

A família da minha namorada vive numa aldeia perto de Bristol.
Gostas de estar lá?

Sim, é muito pacato. Fica perto de Stroud.
Sim, eu cresci em Bristol e estudei na universidade de Bristol. Conheço a zona muito bem.

Adoro estar lá. A paisagem é tão diferente da de Portugal. As cores são únicas.
Sim, essa zona é a minha favorita. É tão bonito. Adoro.

Que estão a fazer no estúdio? Imagino que estão a preparar a digressão que começa agora?
Mais ou menos. Para te dizer a verdade, acabámos uma digressão nos Estados Unidos, fizemos uma das nossas maiores digressões lá, durante cinco semanas. Voltámos há duas semanas e tenho aproveitado o tempo livre. Estive um pouco na minha casa do campo. Tenho andado um pouco ocupado com as minhas abelhas, a fazer coisas típicas do campo. Agora estou em Londres, no meu estúdio, a terminar algumas coisas para recomeçar tudo amanhã.

O que é que tem andado a fazer com as abelhas?
Comprei uma pequena casa do campo e havia abelhas na casa. Tive de tirá-las de casa e agora tenho três colmeias. Estou a aprender. É muito interessante.

Era algo que se tinha imaginado a fazer?
Não, nunca! Mas já se passaram três anos e adoro. É muito divertido.

A digressão europeia é diferente da que fizeram nos Estados Unidos?
Não, é a mesma. Com a Delta Tour queríamos mudar o que as pessoas experienciavam nos nossos concertos. Porque andámos a fazer o mesmo durante dez anos, com o palco numa ponta, as pessoas em frente, o modo tradicional. Com esta digressão, o palco está montado de uma forma em que se dá mais atenção ao público. O palco está mais baixo, e o público vê-se a si mesmo também. É uma experiência quase comunal. Estávamos muito nervosos quando começámos, porque é diferente do que habitualmente fazemos.

Têm de se mexer em volta do palco?
Sim, como não temos um baterista durante grande parte do concerto, podemo-nos mexer com frequência. Esse foi o detalhe mais desafiante, como te dirigires a toda a audiência, em constante movimento. Tens de te lembrar que há sempre pessoas atrás de ti.

Disse que estavam cansados de tocar da forma tradicional. Mas o que vos levou a ter esta ideia?
Não estávamos bem cansados, mas imaginámos a experiência enquanto fãs. Estás à espera que um espectáculo seja de uma certa maneira, e nós sempre quisemos incluir o público no nosso espectáculo. Queremos dar a sensação de que a sala é mais pequena do que realmente é, e que estamos mais próximos. A ideia de ter o público à volta do palco, é uma solução que vai de encontro a essa ideia. Se colocarmos o palco no meio da sala, as pessoas vão estar mais próximas, há mais do que uma primeira fila. Assim há mais interação entre a banda e o público. Penso que aprendemos muito com esta experiência, nunca mais voltaremos a tocar da mesma maneira.

[“Beloved”:]

Tocam com outros músicos em palco. Como é que funciona para eles? Imagino que haja muita coordenação.
Eles são mais estáticos do que nós. Temos dois de um lado, três do outro, penso que eles se habituaram. No início foi estranho para toda a gente, porque nunca o tínhamos feito. Mas acho que eles gostam.

Foi como aprender uma coreografia?
Nem por isso. É o nosso palco, viajamos com ele para todo o lado. Montámos num espaço para ensaios, em Inglaterra, e ensaiámos durante duas semanas. Tivemos de pensar, claro, em como tocar as canções, sem estarmos todos do mesmo lado. Coordenamos tudo. Não é coreografado, mas é pensado.

Vão fazer a digressão toda num tourbus?
Vamos viajar para Lisboa e daí para Barcelona e o nosso tourbus encontra-nos lá. Porque acho que é uma viagem muito longa…

Imaginou-se, em 2007, que iria estar a fazer estas digressões gigantescas num tourbus?
Não. No início estávamos todos entusiasmados pelo mesmo tipo de música, nem toda a gente que conhecíamos estava interessada na mesma música que nossa. Os nossos interesses eram vastos, mas os nossos gostos convergiam num sítio muito especial. Na altura, éramos muito felizes por tocar em pubs, nunca imaginámos que íamos fazer estas digressões. Acho que se tivesse sido sempre assim, tocar em pubs, teríamos sido felizes.

Vocês são britânicos, foram cabeças de cartaz de Glastonbury em 2013. Como é estarem nessa posição, sendo um festival que tem um lugar muito especial no imaginário britânico?
Tínhamos tocado todos os anos lá, exceto um ano, se não me engano, desde que existíamos. Os primeiros concertos lá tocámos em tendas pequenas, nem sequer éramos pagos. E fomos subindo, subindo, até chegarmos ao Pyramid Stage [o palco principal de Glastonbury]. Penso que como coletivo, tivemos uma experiência eufórica por termos chegado lá; individualmente construímos as nossas memórias. Como te disse, eu cresci em Bristol, que fica muito próximo de Glastonbury. Fui pela primeira vez aos dezasseis anos. Era sempre um grande evento, todos os anos. Quando comecei a ir, fui todos os anos que pude, fui seis vezes antes de começar a tocar lá. Tenho um amigo que vive muito perto da Worthy Farm [onde decorre o festival] e o Pyramid Stage é permanente, a parte exterior, a estrutura da pirâmide, está sempre lá, eles só tiram o palco. Costumávamos ir lá, quando tínhamos 18, 19 anos, estacionávamos o carro por baixo da pirâmide, bebíamos uma garrafa de cidra e imaginávamos como seria tocar lá. Tocar lá foi quase como um sonho. Como uma banda inglesa, foi um dos grandes momentos que experienciámos.

Enquanto banda, qual foi a maior mudança para vocês nos últimos dez anos? Como disse, eram uma banda pequena, que tocava em pubs, e tornaram-se numa banda de grandes salas em pouco tempo.
Claro que muito mudou, mas para nós, continua a ser o mesmo. É difícil de explicar, porque não temos outra experiência além da nossa. Quando vemos a nossa família e amigos em casa, percebemos que a forma como vivemos e usamos o nosso tempo não é normal. É difícil de imaginar as coisas de outra forma… acho que todos queríamos isto. Por isto, quero dizer viajar e tocar música enquanto uma banda, se tivéssemos continua a tocar em pubs, bares, não teria sido muito diferente. É óbvio que agora tocamos para audiências muito grandes, e estamos muito gratos por isso, aceitamos o desafio e fazêmo-lo da melhor forma possível. Mas a atitude seria a mesma, sempre foi, quando éramos uma banda a começar, nos pubs, a tocar para quinze pessoas, tentávamos dar o melhor espectáculo possível. O sentimento, a atitude, motivação, não mudou. Ainda está lá. nada mudou.

Planeiam lançar um álbum ao vivo desta digressão, como fizeram com as digressões passadas?
Sim, gravamos todos os nossos concertos. Para ouvirmos e vermos os erros que fazemos. Imagino que possa existir um álbum ao vivo.

E ouvem as gravações enquanto estão em digressão?
Não, não. Quando estás a tocar material novo, sabes como funciona em estúdio e tocas ao vivo e pensas que vai ser igual, e, por vezes, não é. Durante o soundcheck ouvimos a atuação anterior e tentamos imaginar o que a audiência sentiu neste momento e mudamos pequenas coisas para tornar o espectáculo melhor. Mas não nos sentamos com headphones a ouvir o último concerto.

Desenvolvem novo material durante as digressões?
Aproveitamos o soundcheck como uma oportunidade para experimentar canções novas ou refazer canções antigas. Também temos uma sala de ensaios no backstage e todos os dias experimentamos novas ideias. É importante continuarmos a escrever e experimentar quando estamos em digressão. É importante manter esse impulso.

Mas quando vão para estúdio, já levam muito material?
Passamos muito tempo a escrever. Quando sentimos que temos canções suficientes, começamos a pensar mais objetivamente. É a partir daí que começamos a apontar numa direção, em termos de som, de estética. Esperamos até estarmos em estúdio para organizar todas as ideias.

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