São Tomé e Príncipe

Naufrágio em São Tomé e Príncipe provoca sete mortos. Existência de vítimas portuguesas ainda por confirmar

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Navio fazia a ligação entre as ilhas de São Tomé e do Príncipe. Sete pessoas morreram e 10 estão desaparecidas. Governo procura confirmar que duas são portuguesas. Buscas serão retomadas ao amanhecer.

Os sobreviventes foram levados para o porto da ilha de Príncipe (MIGUEL MADEIRA / LUSA)

LUSA

Subiu para sete o número de mortos num naufrágio ao largo de São Tomé e Príncipe. Há ainda 10 desaparecidos, que incluirão duas portuguesas e um francês. Os dados foram avançados à agência Lusa por fontes governamentais são-tomenses. Ao Observador, fonte da secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas explicou que o Governo está a acompanhar, de perto, a situação, mas que, até ao momento, não foi possível reunir dados que permitam confirmar ou desmentir a informação.

Já na noite de quinta-feira, o presidente do governo regional adiantou que estavam “registados três estrangeiros que vinham no barco”, duas cidadãs portuguesas e um francês, embora tenha indicado tratar-se de “informações não confirmadas”. “Ao povo português e aos familiares desses estrangeiros, manifestar a nossa total solidariedade”, disse José Cassandra.

Os mortos são, assim, três adultos e quatro crianças, informaram as mesmas fontes. As autoridades conseguiram resgatar com vida outras 55 pessoas, que foram levadas para o porto da ilha de Príncipe, onde eram já aguardadas por dezenas de familiares e amigos.

Mais um corpo sem vida, de uma criança, acaba de ser retirado do mar. Assim sendo sobe para sete o número de mortos confirmados e descem para 10 os desaparecidos”, divulgou ao final da tarde de hoje fonte do gabinete do presidente do governo regional do Príncipe, numa mensagem na rede social Facebook.

Já na manhã desta sexta-feira, o secretário de Estado das Comunidades que ainda não foi possível confirmar a existência de cidadãos portugueses a bordo do navio que naufragou, apesar de estar a acompanhar a situação.

Em declarações à agência Lusa, José Luís Carneiro explicou que na lista de passageiros “há dois nomes que, aparentemente, levam a concluir que se tratará de cidadãos portugueses”. “Todavia, não é possível confirmá-lo porque não temos registo desses nomes nos nossos serviços consulares. Contudo, é sempre de admitir que pudessem estar em viagens de turismo. Mas ainda não foi possível determinar a nacionalidade desses dois passageiros que têm nomes portugueses”, disse.

De acordo com o secretário de Estado das Comunidades, em circunstâncias como estas há três formas de atuar para se chegar a uma identificação: confirmação através do registo consular, através de informações das autoridades locais e pelos contactos de familiares.

Ora, neste caso, estas três fontes de informação não se verificam, ou seja, por um lado não temos registo destes cidadãos na secção consular da embaixada e as autoridades ainda não conseguiram confirmar a identidade dos desaparecidos e, por outro lado, também não temos contactos familiares a solicitarem informações sobre estes dois nomes”, destacou.

Por isso, José Luís Carneiro salientou a importância de todas as pessoas que vão viajar estarem inscritas nos postos consulares e na aplicação registo do viajante.

À TSF, o presidente do governo regional revelou que as buscas foram retomadas ao amanhecer desta sexta-feira — mas admitiu que é pouca a esperança de encontrar sobreviventes. José Cassandra explicou ainda que “a tripulação está em choque” e avançou possíveis causas para o acidente. Disse que os passageiros agora resgatados falam de “mau acondicionamento da carga e de vagas de ondas bastante fortes” causadas por uma tempestade que atingiu o país.

O navio “Amfitriti” fazia a ligação entre as ilhas de São Tomé e do Príncipe, uma viagem que dura entre seis e oito horas, e naufragou às primeiras horas da manhã desta quinta-feira, já próximo da ilha do Príncipe. Transportava 64 pessoas e uma carga de 212 toneladas. No total, tinha capacidade para receber a bordo 250 passageiros sentados.

Os números oficiais apontam para 55 sobreviventes já resgatados (MIGUEL MADEIRA/LUSA)

À RTP, o adido de defesa da embaixada portuguesa em São Tomé voltou a sublinhar que não tem confirmação da presença de portugueses entre os desaparecidos. “Alguém terá difundido essa informação, de que duas pessoas teriam nacionalidade portuguesa, mas a própria pessoa que fez o check-in não confirmou se havia ou não portugueses”, acrescentou.

O primeiro socorro às vítimas foi feito por barcos particulares, nomeadamente de pescadores.  José Cassandra disse que todas as embarcações disponíveis se dirigiram para o local do naufrágio. Também o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento (MRCC) de Lisboa prestou apoio às autoridades de S. Tomé e Príncipe nas operações de busca e salvamento, após contacto com o navio patrulha NRP Zaire, em missão naquele país.

O MRCC solicitou ainda ao Instituto Hidrográfico o cálculo da deriva, prontamente efetuado, por forma a ajudar as autoridades são-tomenses e todos os meios envolvidos nas buscas.

Em comunicado, a Marinha portuguesa explica que o NRP Zaire, com uma guarnição constituída por militares portugueses e são-tomenses, navegou de imediato para o local do naufrágio. A bordo seguiu uma equipa de mergulhadores da Guarda Costeira de São Tomé e Príncipe e uma equipa médica que se junta ao enfermeiro do navio português e é constituída por um médico e um socorrista do Exército de São Tomé e um enfermeiro da Guarda Costeira local.

Autoridades suspeitam de excesso de carga

O navio “Amfitriti” zarpou do porto de São Tomé com destino à cidade de Santo António e adornou já perto da ilha do Príncipe, afundando-se em seguida. A embarcação é habitualmente utilizado por residentes da ilha do Príncipe, que se deslocam à capital para fazer compras. Suspeita-se que o excesso de carga possa estar na origem do naufrágio.

Estamos todos muito preocupados e só temos é que lamentar mais um acidente trágico que está a acontecer no transporte marítimo de pessoas a bens para a Região do Príncipe”, disse José Cassandra aos jornalistas, acrescentando que o governo nacional está a “acompanhar a situação com preocupação”.

Cassandra, que se encontrava na capital, São Tomé, para encontros com representantes do executivo são-tomense e para uma reunião do Conselho Superior de Defesa, agendada para esta sexta-feira, regressou entretanto à ilha do Príncipe, disse fonte do seu gabinete.

Várias embarcações, incluindo de pescadores, juntaram-se no local para socorrer as vítimas (MIGUEL MADEIRA/LUSA)

A mesma fonte adiantou à Lusa que o governo regional estava a realizar uma reunião de emergência às 17:30 (menos uma hora que em Lisboa).

Este é terceiro acidente marítimo grave na ligação entre as duas ilhas. Há cerca de dois anos, o navio “Ferro-Ferro” desapareceu com pelo menos 12 passageiros e tripulantes, não se sabendo até hoje exatamente o que aconteceu. Há cerca de dois meses, uma outra embarcação ficou à deriva no alto mar durante cerca de cinco horas, por falta de combustível, com mais de 51 passageiros a bordo.

Pela primeira vez podemos chamar essa rota, uma rota de morte”, considerou o presidente do governo regional, fazendo alusão a vários outros acidentes que ocorreram e que levaram a perda de várias vidas humanas e bens.

“Neste momento, o que interessa é fazermos tudo para salvar vidas e depois assacarmos as responsabilidades que são necessárias e tentarmos ver se pomos um ponto final de uma vez por todas com estes acidentes”, acrescentou.

O executivo regional, que se reuniu na tarde desta quinta-feira, na sequência do acidente, decretou três dias de luto e suspendeu as festividades do Dia da Autonomia da região, que se celebraria este fim de semana, adiantou fonte governamental.

Governo anuncia inquérito imediato às causa do acidente

O primeiro-ministro são-tomense, Jorge Bom Jesus, anunciou, entretanto, a “abertura imediata de um inquérito” ao naufrágio.

Todas as medidas estão a ser tomadas, para em primeiro lugar se encontrar rapidamente os desaparecidos e garantir toda a assistência aos sobreviventes, e num segundo momento, se proceder à abertura imediata de um inquérito para se apurarem as causas deste trágico acidente e assacar as eventuais responsabilidades”, afirmou o chefe do Governo de São Tomé e Príncipe, em declarações aos jornalistas.

Jorge Bom Jesus adiantou ainda que três das pessoas resgatadas foram levadas para São Tomé por terem “ferimentos graves”. “Em meu nome pessoal e do governo central, quero endereçar profundos sentimentos de pêsames às famílias enlutadas e a toda a população no geral, assegurando ao governo regional todo o apoio e solidariedade institucional que a situação impõe”, disse o primeiro-ministro.

“Este é um momento de dor, um momento de luto e eu gostaria de mais uma vez apelar à população do Príncipe [para que tenha] a maior serenidade para podermos ter discernimento suficiente para irmos controlando a situação que vivemos hoje”, afirmou.

O governante lamentou que os acidentes marítimos já se arrastem “há mais de 15 anos”, prejudicando a população da região.

Nós vimos registando que, ao longo destes anos, o Príncipe vai perdendo os seus filhos, as famílias vão perdendo os seus familiares e a população do Príncipe vai ficando mais pobre, do ponto de vista social, cultural e material”, lamentou o governante.

O chefe do executivo regional afirmou estar em “permanente comunicação” como o Presidente da República, Evaristo Carvalho, o presidente da Assembleia Nacional, Delfim Neves, bem como com o primeiro-ministro, que, referiu, “estão a acompanhar de perto a situação, manifestando a solidariedade total”, que agradeceu “de coração”.

Também o presidente do governo regional do Príncipe disse que o acidente “não pode ficar impune”, lamentando que a ilha venha sendo afetada por acidentes marítimos nos últimos anos.

Eu quero apelar a toda a população do Príncipe para que estejamos unidos. Pensamos que essa tragédia não pode ficar impune, tem que se fazer um inquérito profundo para se apurar responsabilidades e atuar em conformidade”, disse José Cassandra, numa comunicação hoje na cidade de Santo António, capital da ilha do Príncipe.

Cassandra enviou ainda um agradecimento às entidades privadas que operam na região autónoma do Príncipe e que prestaram apoio “na tentativa de salvar mais vidas”, nomeadamente disponibilizando um helicóptero privado e duas pequenas embarcações, referindo ainda que tem recebido “palavras de consolo” das missões diplomáticas e membros de várias instituições.

(em atualização)

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