Estilo de Vida

O guia de Matt Haig para sobreviver ao século XXI e à ansiedade da vida moderna

"O mundo à beira de um ataque de nervos" é a mais recente obra do autor britânico. Em 400 páginas, Haig enumera os problemas da sociedade moderna e tenta ajudar, sem presunção, o leitor.

Em novembro de 2018, numa feira do livro em Londres (Tim P. Whitby/Getty Images)

Getty Images

Matt Haig é um pouco catastrófico na forma como escreve, mas talvez isso vá ao encontro do título do seu mais recente livro, “O Mundo à beira de um ataque de nervos”, que chegou ao mercado português a 11 de abril. O autor britânico de 43 anos não tem problemas em enumerar (quase) tudo o que vai de mal com o mundo — e até o faz de uma forma sucinta e metódica que auxilia a leitura. Os motivos desse pessimismo justificável são desde logo claros: o escritor faz um paralelismo entre a vida moderna caótica e a nossa saúde mental.

O livro está à venda por 15,50 euros (Porto Editora). © DR

A ideia de que o modo como vivemos seja responsável, em parte, pela infelicidade do ser humano não é um tema novo para o autor. Aos 24 anos Matt Haig viveu um estado de ansiedade tão intenso que o levou a escrever o bestseller “Razões para viver” (sob a chancela da Porto Editora). Desde que publicou esse livro em 2015 (ano de lançamento no mercado livreiro britânico, onde vendeu mais de um milhão de exemplares) que Haig se tornou, sem querer e contra a sua vontade, numa espécie de perito sobre o que é sofrer de ansiedade e depressão. As histórias similares que diferentes leitores lhe fizeram chegar não o assustaram, escreve o The Guardian, com Haig a assinar um novo título onde mergulha mais a fundo no problema e procura dar “soluções práticas”.

Em ‘Razões para Viver’ já abordara o meu estado de saúde mental. Na altura, a questão com que me deparava era relativamente ‘simples’: Quem razões existem para eu continuar vivo? Desta vez, a pergunta com que me confrontava era mais abrangente: Como podemos viver num mundo louco sem enlouquecermos? (pág. 20)

“Como manter o equilíbrio num planeta que nos enlouquece?”, “Como preservar a humanidade numa era tão obsessivamente tecnológica?” e “Como ser feliz quando somos incentivados a cultivar a ansiedade?” são as três perguntas que surgem na contracapa e que servem de chapéu às problemáticas debatidas no livro com quase 400 páginas. No livro, cuja estrutura parece estar propositadamente desorganizada, a ansiedade é palavra recorrente e começa por ser, desde o início, associada ao sentimento de medo.

Os episódios contados na primeira pessoa são muitos e cruzam-se com referências históricas, citações filosóficas e estatísticas que ajudam a traçar o cenário negro da vida moderna. Mas nem tudo está debaixo de uma nuvem cinzenta e, volta e meia, o autor traz a lume motivos para sermos mais felizes. Exemplos? Na página 134 o autor enumera os tópicos para nos “mantermos sãos na internet”, isto é, uma lista de “mandamentos utópicos” que raramente segue por serem difíceis de cumprir — mas que cumprindo talvez surtam efeito. E na página 161 estão outras dicas, entregues na forma de uma lista, para nos mantermos a par das notícias “sem endoidecermos”.

O livro segue um método já experimentado pelo autor, que recorre a capítulos curtos, escrita concisa e muitas listas. A estrutura apela à já de si fragmentada audiência de quem o poderá ler, já que Haig argumenta que a capacidade de concentração está a ser dilacerada pelas notícias ininterruptas, pelos ecrã luminosos de smartphones e redes sociais a que estes dão acesso. Afinal, o livro não entra na prateleira dos títulos de auto-ajuda.

Na década de 90 do século XX, quando o slogan da Microsoft nos perguntava ‘onde quer ir hoje?’, tratava-se de uma pergunta retórica. Na era digital, a resposta é quero ir a todo o lado. Recorrendo às palavras do filósofo Soren Kierkegaard, a ansiedade bem pode ser encarada como a ‘vertigem da liberdade’. (…) Não conseguimos viver todas as vidas possíveis. (pág. 33)

Como todas as histórias, também esta tem dois lados, isto é, escreve Haig que “resolvemos temporariamente” o problema da escassez no mundo ao substituí-lo com o “problema do excesso”. Vai daí que, em determinadas fases do ano, dedicamo-nos ao veganismo ou à abstinência de bebidas alcoólicas, adotamos técnicas mindfulness no nosso dia a dia e ajoelhamo-nos ao estilo de vida minimalista. “É a procura de um yin que contrabalance o yang frenético da vida no século XXI”, escreve Haig. A sociedade de consumo é apontada como causadora de insatisfação, ela que “assenta na ideia de ficarmos desejosos de ter o último modelo, em vez de nos contentarmos com o que temos”. “E trata-se de uma receita quase infalível para a infelicidade”, continua.

Num mesmo registo, o livro aborda ainda a crescente preocupação com a estética, num mundo inundado de “cremes de dia, cremes de noite, loções para o pescoço”, etc, numa realidade onde somos bombardeados “por imagens de gente que é dona de uma beleza invulgar” não apenas no pequeno e grande ecrã, mas também nas redes sociais que “filtram” sistemática e constantemente os seus utilizadores. A passagem do tempo, e a forma como lidamos com isso, a sobrecarga da vida, tendo em conta a forma como vivemos, a “histeria em massa” ou a “guerra ao sono” são alguns dos temas abordados pelo autor, que ajudam a compor a obra que o ator Stephen Fry diz estar “cheio de sabedoria, reflexão e perspicácia”.

Por vezes, a minha cabeça parece um computador com demasiadas janelas abertas e o fundo de ecrã atafulhado de coisas. É como ter um pequeno disco colorido a rodar continuamente dentro de mim, incapacitando-me de fazer alguma coisa. (página xx)

Parte da solução, da resposta à quantidade de estímulos que nos chegam diariamente e que nos convencem de que há mil facetas de uma mesma vida a explorar, passa pura e simplesmente pelo ato de desligar. Para o jornal já citado, “O mundo à beira de um ataque de nervos” é “generoso, sensível e oportuno”, no sentido em que a sua leitura é apropriada tendo em conta o “agora” em que vivemos. “Lê-lo vai provavelmente ser bom para a sua saúde mental, sobretudo se deixar o seu smartphone no outro quarto”, continua o The Guardian.

Ao mesmo jornal, embora numa entrevista distinta, Haig admitiu que queria escrever um livro que pusesse o leitor a olhar para o mundo como se este fosse um “paciente psiquiátrico”, como “um estudo de caso”. Para então se perceber “como muito dos problemas que o mundo enfrenta são paralelos ao que uma pessoa deprimida ou suicida ou assustada faria se estivesse à procura de soluções precipitadas.”

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