Cinema

“Teen Spirit: Conquista o Sonho”. Quem quer ser cantora pop?

Elle Fanning interpreta uma rapariga que só quer cantar e por isso ruma à televisão em "Teen Spirit: Conquista o Sonho", o filme de estreia de Max Minghella. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Dantes, queriam ser atores e atrizes. Agora querem ser cantores e cantoras. Mas já não gravam maquetas que enviam às editoras, na esperança que alguém lá os ouça e chame para uma audição, nem cantam no Metro ou na rua, tentando ser “descobertos”. Vão direitinhos, e em massa, para a televisão, desaguando naqueles muitos concursos de “ídolos” e de “vozes” que lhes acenam com a celebridade num abrir e fechar de olhos. O cinema ainda não se mostrou particularmente interessado por este fenómeno, e cabe a “Teen Spirit: Conquista o Sonho”, a primeira realização do ator inglês Max Minghella, filho do desaparecido autor de “Um Fantasma do Coração” e “O Paciente Inglês”, dar-lhe alguma atenção (a fita é produzida pelo actor Jamie Bell, de “Billy Elliot”).

[Veja o “trailer” de “Teen Spirit: Conquista o Sonho”]

Só que aqui, o concurso que dá título ao filme tem um interesse apenas secundário. Acima de tudo está a personagem, Violet (Elle Fanning), uma adolescente de origem polaca, de poucas palavras e escassa sociabilidade, que vive na Ilha de Wight, frequenta o liceu e trabalha num “pub”. À parte a mãe, que está sempre preocupada com ela, a recordação do pai que as abandonou e um cavalo que adora, Violet tem muito pouco mais que a defina, senão uma paixão imensa pela música: canta no coro da igreja, no “pub”, fechada no quarto, ao ar livre. Por isso, e sem a mãe saber, inscreve-se nas provas do concurso Teen Spirit, que anda à procura da próxima estrela pop adolescente. Embora não seja isso que ela deseja ser. Violet só quer mesmo é cantar à vontade, cantar muito. E se isso a tirar do seu mundozinho limitado, rotineiro e cinzento, melhor ainda.

[Veja uma entrevista com Elle Fanning]

Há um senão. Para poder concorrer, Violet tem que ter a autorização de um dos progenitores ou estar acompanhada por um familiar próximo ou por um mentor. E este surge na figura de Vlad (Zlatko Buric), um velho cantor de ópera que outrora foi grande na Rússia, mas que agora vive numa carrinha a cair aos bocados e quando não está a embebedar-se, está a ouvir os seus discos, nostalgicamente. Vlad ensina-lhe como respirar para cantar melhor, como estar em palco, como encarar o público, como ter confiança nela própria, e sugere ser vagamente o seu “manager”. E Violet acaba por conseguir passar à próxima fase do concurso, que os irá levar a Londres, juntamente com uma banda de apoio formada por colegas da escola que tocam em festas.

[Veja uma entrevista com Max Minghella e o produtor Jamie Bell]

Max Minghella, também autor do argumento, não quer descobrir a pólvora em “Teen Spirit: Conquista o Sonho”, onde encontramos as situações esperadas e as personagens consagradas deste formato. O que ele consegue é dar um aspeto novo ao material conhecido, pegar nos clichés e apresentá-los de um outro ângulo. É como alguém que areja uma sala dando nova disposição aos móveis que a decoram e vendo-se livre das bugigangas que estão a mais. Assim, centra-se em Violet e filma em linha reta, com concisão e espírito prático, e o próprio concurso televisivo, que permite a Rebecca Hall aparecer na pele de uma versão feminina de Simon Cowell e pôr a protagonista perante as realidades pragmáticas da indústria musical, é mostrado tal e qual como são todos eles, sem ser diabolizado nem idealizado. Isto é uma máquina e eis como funciona, cada qual que tire as suas conclusões, diz o realizador.

[Veja o videoclip do filme]

Minghella poupa os raros momentos de elaboração estilística (com este ou aquele tique de teledisco, “ma non troppo”) para quando filma Violet consolada ou arrebatada pela música que ouve, ou em palco rodeada de néon e de luzes estroboscópicas (a banda sonora é toda composta por “covers”, como é de rigor nestes concursos ). É a cantar que a rapariga deita cá para fora tudo o que guarda só para si e que de outra forma não conseguiria transmitir. E Elle Fanning, que revela aqui que canta tão bem como representa, mostra como Violet se define e transforma graças à acendalha da música, e permite revelar a cantora incandescente que há por trás da miúda retraída. Trémula ou refulgente, Fanning é a candeia que alumia “Teen Spirit: Conquista o Sonho” do princípio ao fim.

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