Esta foi a primeira entrevista concedida por Lula da Silva desde que, em abril do ano passado, foi preso na sequência do caso Lava Jato. A edição brasileira do El País e o Folha de São Paulo interrogaram o ex-presidente do Brasil durante mais de duas horas. Da morte do neto ao governo de Jair Bolsonaro, Lula da Silva respondeu a todas as perguntas e lamentou que o povo brasileiro esteja a ser liderado “por um bando de malucos“.

Façamos uma autocrítica geral neste país. Este país não pode estar governado por esse bando de malucos que governa o país. O Brasil não merece isso e sobretudo o povo não merece isso”, disse.

Ao longo da entrevista, o ex-Chefe de Estado esteve sentado numa mesa a meio de uma sala na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, afastada pelo menos quatro metros de todas as pessoas. A cumprir uma pena de oito anos e dez meses de prisão — uma pena que foi reduzida esta semana –, Lula da Silva falou de política com um alvo preferido na mira: Sérgio Moro. “Não vai sobreviver na política“, antecipou.

O ministro da Justiça brasileiro voltou a ser criticado por Lula da Silva quando o assunto foi a sua detenção. “Eu tenho a certeza de que durmo todos os dias de consciência tranquila. E tenho a certeza de que o [procurador Deltan] Dallagnol não dorme e que o [ministro da Justiça Sérgio] Moro não dorme”, adiantou, depois de ter revelado que não se importava de morrer na prisão. “Não tem problema“, atirou.

Questionado sobre o presidente do Brasil, Lula da Silva anteviu dificuldades para Jair Bolsonaro. “Ou ele constrói um partido sólido ou não perdura”, vaticinou.

O momento mais emocionante da entrevista foi aquele em que o antigo Chefe de Estado teve de falar da morte do seu neto. Visivelmente emocionado, Lula da Silva não fugiu da questão. “Às vezes penso que teria sido muito mais fácil se tivesse sido eu a morrer. Já vivi 73 anos. Podia ter morrido e deixava o meu neto viver“, desabafou entre lágrimas.

Já na cerimónia, Lula da Silva tinha falado sobre o desaparecimento do seu neto. “O Arthur foi um menino que sofreu muito bullying na escola, porque era neto do Lula. Por isso, eu tenho um compromisso com você, Arthur: eu vou provar a minha inocência e, quando eu for para o céu, vou levar o meu diploma de inocente”, afirmou então.

Esta entrevista esteve envolvida em polémica desde o primeiro momento. Pedida há cerca de um ano, e depois de ser suspensa e cancelada algumas vezes, conseguiu mesmo realizar-se, depois de se ter tornado um caso judicial mediático no Brasil.