O chefe de Estado de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, e o primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus, deslocaram-se este sábado ao Príncipe, numa ação de solidariedade para com as autoridades e população daquela região autónoma, dois dias depois do naufrágio do navio “Amfrititi”, que provocou oito mortos e nove desaparecidos. Perante manifestantes, admitiram a necessidade de uma análise e reflexão alargada para evitar mais mortes na travessia marítima, após um naufrágio que causou pelo menos oito mortos.

À chegada à ilha, a comitiva – que integrava ainda o vice-presidente da Assembleia Nacional, Levy Nazaré, e deputados dos partidos que apoiam o Governo, estando ausentes eleitos da Ação Democrática Independente (oposição) – foi recebida por uma manifestação pacífica de um grupo de cidadãos, vestidos de preto.

“Chega de mortes”, “Queremos bilhetes mais baratos” e “Exigimos mais atenção do Governo central” eram algumas das mensagens que podiam ler-se em cartazes que empunhavam. “Nós queremos que o Governo central, o Presidente da República e a comunidade internacional vejam o Príncipe tal como o Príncipe é. Já chega de mortes, já chega de dor“, disse Maria dos Prazeres, uma das manifestantes.

O chefe de Estado disse compreender o “sentimento de revolta e de dor” da população local. “Eu concordo com o vosso sentimento. Nós consideramos tardia a nossa presença aqui. Eu gostaria de estar cá logo no primeiro dia deste acontecimento triste, associar-me a vocês, ao Governo regional, mas vocês compreenderão a debilidade do nosso país”, respondeu Evaristo Carvalho, dirigindo-se aos manifestantes ainda no aeroporto local.

O Presidente são-tomense lamentou ainda não ter participado nos funerais das pessoas que morreram no naufrágio, e prometeu “aprofundar a análise” sobre as causas dos diversos naufrágios que nos últimos 15 anos já causaram dezenas de mortes. “Não fazemos milagres, mas temos que minimizar o máximo possível estes tristes acontecimentos que têm causado diversas perdas de vidas humanas”, acrescentou Evaristo Carvalho.

“Nós trazemos a expressão do sentimento da República: primeiro, condolências e pêsames às famílias enlutadas, mas a nação são-tomense no seu todo, estamos de luto”, disse, por seu lado, o primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus. “Vamos enterrar os nossos mortos, cuidar dos nossos vivos, mas de uma vez por todas temos que abrir um espaço de reflexão com todos os são-tomenses, os da diáspora, as competências todas, todos os órgãos de soberania para, de uma vez por todas, travar estas mortes”, acrescentou o chefe do Governo.

A delegação reuniu-se na sede do Governo regional, presidido por José Cassandra, com todos os participantes envolvidos na operação de busca e salvamento, em que estão envolvidos militares portugueses, a bordo do navio “Zaire”. “Estamos aqui para reconhecer e agradecer o vosso esforço, a vossa determinação e vontade em realizar o trabalho de busca e salvamento”, disse Evaristo Carvalho.

A comitiva visitou posteriormente o Hospital Manuel Quaresma Dias da Graça para visitar as três vítimas que ainda se encontram sob cuidados médicos.

O Governo são-tomense aprovou esta sexta-feira, em reunião extraordinária do Conselho de Ministros, a criação de uma comissão mista de inquérito para apurar as causas do naufrágio do navio “Amfitriti”, e declarou três dias de luto nacional, a partir deste sábado. Vai ser também criada uma comissão multissetorial, com vários ministérios envolvidos, que tem a missão de apresentar, no prazo de um mês, um plano de ação para uma “definitiva resolução da problemática da ligação marítima e aérea entre as ilhas de São Tomé e do Príncipe”.

O Conselho de Ministros decidiu ainda avançar com o aluguer de um navio que cumpra os requisitos técnicos para assegurar o transporte urgente de combustível e mercadorias para a Região Autónoma do Príncipe “em total segurança”, bem como a criação de um fundo de emergência para apoiar as vítimas e promoção de uma campanha de solidariedade.