O Observatório do Mundo Islâmico, que vai ser apresentado publicamente na terça-feira em Lisboa, pretende “ser uma referência do conhecimento” sobre a área “para que haja entendimento”, disse a porta-voz do organismo.

“Só através do conhecimento há entendimento e é essa a base estruturante do observatório, é ser uma referência do conhecimento em tudo que diz respeito ao mundo islâmico para que haja entendimento, para que se criem pontes”, declarou à agência Lusa Maria João Tomás, professora auxiliar da Universidade Autónoma e vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico.

A investigadora adiantou que o observatório é “transversal a todas as áreas de conhecimento” e abarcará “os países de maioria islâmica ou cuja religião oficial ou de Estado seja o islão”, ou seja, todos os países do Norte de África e da Ásia Ocidental (designação que prefere à de Médio Oriente), mas também o Paquistão, Afeganistão, Bangladesh, Indonésia, “o maior país de maioria islâmica”.

Maria João Tomás assinalou que as religiões “são um instrumento político”, tendo sido utilizadas ao longo da história e ainda atualmente “para fins políticos (…) para justificar guerras, para justificar ódios”.

Um exemplo recente é o da guerra na Síria, disse, explicando que a sociedade síria foi dividida “colocando sunitas (a maioria) de um lado e xiitas (minoria no poder) do outro e isso foi orquestrado para justificar uma guerra”.

No entanto, “o que estava em causa era impedir que a Rússia chegasse ou continuasse a ter Latáquia e Tartus, as bases navais” que possui na Síria e das quais precisa “para ter acesso ao Mediterrâneo e sobretudo para por navios em água na altura do inverno” e quem estava do outro lado eram “os Estados Unidos e a parte da NATO que não queria” que Moscovo conseguisse aquele objetivo, adiantou.

Um conjunto de académicos e investigadores ligados à área, “com trabalhos já feitos e publicados”, decidiu criar o observatório também por considerar que existia uma lacuna na sociedade civil em relação ao conhecimento do mundo islâmico, explicou Maria João Tomás.

“Estamos a formar as equipas de cada uma das áreas de conhecimento, que vão desde a literatura a aspetos securitários (…), de religião, (…) de economia”, disse, adiantando que o trabalho dos diversos núcleos será divulgado num portal do observatório na Internet.

“Espero que esteja pronto até dia 30”, quando é feita a apresentação pública do Observatório do Mundo Islâmico, na Universidade Autónoma de Lisboa, indicou a investigadora.

Maria João Tomás exemplificou: “Uma pessoa quer saber o que é que se está a passar em termos de literatura na Turquia” e haverá “alguém (…) que está a trabalhar exatamente nessa área e cujos trabalhos serão publicados” ou indicados no portal.

Mas o observatório e o portal também poderão ser úteis para “dar conhecimento aos investidores e aos (…) empresários (portugueses) de qual é que será o melhor investimento para o seu ramo de negócio”.

Uma empresa que deseje investir nos países em causa “pode recorrer com utilidade (ao observatório), pode contactar o observatório, dentro do núcleo de pessoas que estão a trabalhar nessas áreas para pedir informação, para pedir ajuda”, disse ainda Maria João Tomás, assinalando que “a geopolítica está muito ligada com oportunidades de negócio”.

A vice-presidente do observatório explicou que devido ao bloqueio imposto ao Qatar pela Arábia Saudita e outros vizinhos do Golfo em 2017, Doha “perdeu a refinação no Bahrein” e é Portugal que a está a fazer.

O observatório “é para a sociedade portuguesa”, insistiu, adiantando que para cumprir os seus objetivos terá ligações “a universidades do mundo islâmico”, “embaixadas (…), comunidade islâmica em Portugal”, à qual pertencem alguns “membros fundadores do observatório”.

Na terça-feira, para a apresentação pública do observatório, estão previstos debates sobre “As religiões como instrumento político”, na qual participam os embaixadores Francisco Seixas da Costa e Francisco H. Silva, e “O mundo islâmico, religião e poder”, com os investigadores Hermenegildo Fernandes, da Universidade de Lisboa, e Nuno Lemos Pires, do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa.

O Observatório do Mundo Islâmico tem como presidente o professor José Esteves Pereira, da Universidade Nova de Lisboa.