Ao longo do ano, não só futebolístico como civil, multiplicaram-se os textos e as análises às crises do Real Madrid, aos maus momentos do Real Madrid, ao fiasco (ou à ausência) do projeto do Real Madrid. Desde a saída inesperada de Zidane no final de maio do ano passado, passando pela ida de Cristiano Ronaldo para a Juventus em julho, seguindo-se a escolha pouco consensual de Lopetegui, a aposta que parecia certeira em Solari mas que depressa se revelou um penso rápido e, por fim, mais do que a perda da Liga espanhola, a eliminação da Liga dos Campeões logo nos oitavos de final.

Não foi — e continua sem ser — uma temporada fácil para o Real Madrid. Contudo, nos primeiros dias de março, o clube parecia ter escolhido o caminho que queria seguir nas próximas épocas. Um caminho que, mais do que o delinear de um novo projeto e um reformulado plano de ação, visava recuperar a fórmula vencedora do passado: mesmo que apenas pela metade. Sem Cristiano Ronaldo, Florentino Pérez conseguiu chamar Zidane de volta, uma espécie de D. Sebastião que emergia do nevoeiro para resgatar uma equipa perdida nove meses depois de deixar o Santiago Bernabéu.

As conclusões precipitadas retiradas do regresso de Zidane, numa primeira fase, giraram à volta do plantel do Real Madrid, das arrumações que iriam ser feitas já no início do verão e do ataque ao mercado que se apresentava como quase inevitável. Começou com Mbappé, contratação que seria facilitada pela relação privilegiada com o treinador francês mas que depressa caiu e já foi rejeitada pelo próprio jogador do PSG; continuou com Hazard, eterno prometido dos merengues que vai permanecendo no Chelsea e cuja viagem para Espanha ainda não está garantida; e vai-se arrastando com Pogba, outro francês que teria em Zidane o principal impulsionador de uma ida para Madrid, que protagoniza capa atrás de capa nos desportivos espanhóis mas cuja transferência parece ainda longe de estar fechada. Eventuais chegadas que se aliavam às partidas — e aos encaixes financeiros — de Mariano, Reguilón, Dani Ceballos e, principalmente, Gareth Bale.

O impacto da substituição de Solari por Zidane, desta feita em termos desportivos, começou por ser positivo: o Real somou duas vitórias seguidas em casa, primeiro com o Celta Vigo e depois com o Huesca. À derrota em Valencia seguiu-se outra vitória, desta vez às custas do Eibar, o que deixava nas entrelinhas que os merengues tinham finalmente conseguido implementar um mecanismo de reação a um resultado negativo, algo que falhou ao longo da temporada. Os empates com o Leganés e o Getafe, ainda que intercalados com uma vitória clara perante o Athl. Bilbao, provaram precisamente o contrário. Este domingo, com o último classificado Rayo Vallecano, o Real Madrid perdeu (1-0, marcou Embarba de penálti), afundou-se no terceiro lugar da Liga espanhola, viu o Barcelona sagrar-se bicampeão e já está mais longe do Atl. Madrid do que estava quando Solari saiu.

Quando Zidane voltou a Madrid, o Real estava a 12 pontos do líder Barcelona e a cinco do Atl. Madrid, na segunda posição, o que deixava longe e quase inatingível o objetivo de chegar à vitória na Liga mas deixava vivo o objetivo de ser vice-campeão. Atualmente, e numa altura em que restam três jornadas por disputar, o Barcelona já foi campeão com 18 pontos de vantagem para os merengues e o Atl. Madrid tem mais nove pontos do que o rival da capital espanhola. Em oito jogos, Zidane somou quatro vitórias, dois empates e duas derrotas: o sonho de ficar no segundo lugar da Liga espanhola implica agora que os colchoneros de Diego Simeone percam com o Espanyol, o Sevilha e o Levante, algo extremamente improvável, e que o Real Madrid vença o Villarreal, a Real Sociedad e o Betis.

Os merengues foram derrotados pelo último classificado da Liga espanhola, o Rayo Vallecano do português Bebé

A derrota com o Rayo Vallecano do português Bebé revelou uma versão de Zidane raramente vista: o otimismo sem reservas do treinador francês desapareceu por uma noite e o técnico mostrou-se profundamente desapontado com os jogadores, atirando palavras duras ao plantel e sublinhando que a equipa “não fez nada”. “Não fizemos nada. Não fizemos nada a todos os níveis. Às vezes não podes marcar, mas não fizemos nada. Estou chateado porque a imagem foi má. E eu sou o responsável por isso. Temos de pedir desculpa aos adeptos e ao clube. Foi tudo mau. A atitude e o jogo. Não nos entregámos em nada. Nem nos duelos, nem a correr, nem nada…o Rayo fez o seu jogo, mas nós nada. Não há explicação. Faltam três jogos e a temporada acaba. Com o Getafe ainda jogámos alguma coisa, mas com o Rayo foi nada do minuto 0 ao 90″, afirmou Zidane, que acrescentou ainda que quer que “a temporada acabe o quanto antes”. “Vou sempre defender os meus jogadores, mas hoje [domingo] não. Não podemos jogar assim. Mas eu também sou responsável”, sentenciou o francês.

A derrota do Real Madrid ficou ainda marcada por mais um episódio que deixa cada vez mais clara a clivagem entre o clube e Gareth Bale. Depois de há vários meses, ainda com Solari e enquanto estava lesionado, o galês ter sido criticado por ter saído do Santiago Bernabéu antes do final do jogo dos merengues com a Real Sociedad, Bale voltou a protagonizar uma cena semelhante e que voltou a não cair bem juntos dos adeptos do clube de Madrid. No final da partida em Vallecas, o terreno do Rayo Vallecano, o avançado não seguiu com a restante equipa para Valdebebas e foi diretamente para o Aeroporto de Barajas, onde tinha um jato privado à espera. O jornal Marca, porém, ressalva que Bale tinha pedido dois dias de férias antes do jogo e que terá sido o próprio Zidane a autorizar a ida direta do jogador para o aeroporto. Fica por explicar se a decisão do treinador francês se prende com motivos pessoais do jogador ou se já é quase indiferença quanto àquilo que este decide fazer. Até porque, na conferência de imprensa onde dirigiu palavras duras aos jogadores, Zidane foi confrontado com uma eventual desconcentração de Bale — e a resposta deixou a situação mais clara do que aquilo que parece. “Não sei se o Bale está concentrado no Real Madrid, têm que lhe perguntar a ele”, atirou o francês.