Ayrton Senna era um exemplo. Um ícone. Um mito. Uma referência para as gerações antigas, um ídolo para as gerações que se seguiram. Pelos mundiais conquistados, pelos Grandes Prémios ganhos, pelas ultrapassagens, pelo génio com e sem volante nas mãos. Ainda hoje, 25 anos depois, Alain Prost, um dos grandes rivais do brasileiro, admite que não é apenas a sua carreira que está ligada a Senna – é também a sua vida. E numa altura em que se torna incontornável ler artigos e artigos sem fim sobre o piloto nascido em São Paulo, há um nome presente em todos eles: Roland Ratzenberger. Ou, como descreveu um dia Johnny Herbert, “o homem esquecido da Fórmula 1”. “Esquecido para muitos mas não para mim”, acrescentou.

Na manhã de 1 de maio de 1994, antes do Grande Prémio de San Marino, Ayrton Senna colocou uma pequena bandeira da Áustria no seu Williams Renault. Pela terceira vez consecutiva desde o início da temporada, o brasileiro tinha conseguido a pole position e, após duas desistências, acreditava que seria possível quebrar a onda de triunfos de Michael Schumacher (Benetton-Ford) para poder dedicar o triunfo a Ratzenberger, que falecera na véspera. Esse foi um episódio marcante para o tricampeão mundial, que ficou muito abalado com o sucedido (viu o acidente quando estava nas boxes) e foi mesmo à pista falar com o médico oficial da Fórmula 1, Sid Watkins, para perceber os danos da grave saída de pista na curva Villeneuve.

Nascido em Salzburgo em 1960 (apesar de dizer de vez em quando que nascera apenas em 1962, para parecer mais novo nos vários campeonatos que foi disputando), Roland Ratzenberger, filho de dois funcionários públicos, teve desde cedo o sonho de chegar à Fórmula 1. Estudou Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico de Salzburgo, passando ainda pela escola de pilotagem Walter Lechner como mecânico e instrutor, aos 19 anos. Com aquilo que ia recebendo, participava em corridas não só na Áustria mas também em Itália e na Alemanha. Além de ter participado nas 24 Horas de Le Mans, fez sobretudo carreira em Inglaterra e no Japão, na Fórmula 3.000. Em 1994, atingiu o seu objetivo.

A oportunidade chegou através da Simtek Ford, equipa criada por Max Mosley (que viria a liderar a Federação Internacional de Automobilismo) e Nick Wirth em 1989 inicialmente para desenvolvimento de chassis para outras equipas. Em 1994, ano de estreia na Fórmula 1, David Brabham foi a grande aposta e Ratzenberger investiu tudo o que tinha para assegurar a outra vaga – concretizando aquilo que parecia certo em 1991 com a Jordan, falhando no momento decisivo. Barbara Behlau, empresária que na altura tinha uma mediática agência ligada à cultura e ao desporto,  concedeu ao piloto o financiamento necessário para um contrato que previa inicialmente um total de cinco corridas, depois dos resultados em Le Mans e no Japão.

Ciente das dificuldades que a equipa atravessava, o austríaco tentou sempre ser muito cauteloso em pista, não conseguindo a qualificação na primeira corrida, no Brasil. No Japão, Ratzenberger brilhou, saindo da 22.ª posição da grelha para um 11.º lugar no final da corrida. Seguia-se o Grande Prémio de São Marino, a terceira prova do Mundial que seria a sua última: na qualificação, já depois de uma saída de pista que tinha danificado a parte dianteira do carro, preferiu manter-se em pista para assegurar um tempo que lhe garantisse um lugar na corrida mas acabou por ter um choque violento contra um muro a mais de 300 km/h, depois da parte dianteira se ter soltado, o que tirou o controlo ao austríaco. Apesar das tentativas de reanimação feitas logo na pista e de ter ainda dado entrada no Hospital Maggiore, Ratzenberger faleceu mesmo.

No seguimento das investigações à morte do austríaco, num fim de semana negro para a Fórmula 1 onde Ayrton Senna também faleceu – o último piloto a morrer em fim de semana de corrida tinha sido Riccardo Paletti, em 1982 – e houve outros acidentes com gravidade, gerou-se uma grande controvérsia em torno do local e hora de óbito de Ratzenberger: enquanto os responsáveis da corrida defendiam que o piloto tinha sido levado ainda com vida para o hospital, os peritos apuraram que houve morte instantânea em virtude das fraturas no crânio e no pescoço, o que, de acordo com a legislação italiana, deveria levar ao cancelamento da prova. O que, se tivesse acontecido, poderia ter evitado o que se passaria no dia seguinte com Ayrton Senna.