Uma ópera satírica de 1927 vai ser adaptada e interpretada ao vivo 80 anos depois de ter sido censurada pelos nazis. Bastante popular no seu tempo,“The Tsar Wants His Photograph Taken”, do autor judeu alemão Kurt Weill, estreia dia 4 de maio com um elenco e orquestra profissional, noticia o The Guardian.

Michael Berkowitz, professor de História Judaica da University College of London (UCL), fez um trabalho de pesquisa e investigação para recuperar a obra, em conjunto com Leo Doulton, tradutor e encenador do espetáculo. Juntos, desvendaram o mistério por detrás da ópera e perceberam o porquê de a sátira ter sido altamente censurada.

Kurt Weill era judeu. Aqui fotografado em 1930

Na comédia musical, que o autor judeu compôs em conjunto com o escritor Georg Kaiser, é retratada uma tentativa de homicídio de um imperador ficcional. Antes de o imperador chegar a um estúdio fotográfico em Paris, onde seria fotografado, cinco anarquistas escondem uma arma no interior da câmara fotográfica de Angèle, a fotógrafa.

“O espetáculo conta a história de uma fotógrafa que trabalha em Paris em 1914 e a quem é pedido para fazer o retrato do tsar (imperador) no âmbito de uma conspiração de assassinato”, explicou Berkowitz. “Os nazis impediram a exibição da peça não só porque na altura as personagens eram judeus, mas também porque era uma história complexa. Eles gostavam de moralidade direta. É estranho, porque também há alguma empatia para com o tsar“, continua o professor.

“O tsar não é nenhum imperador em concreto. É um monarca que se apaixona incondicionalmente por Angèle”, explicou Doulton, de 24 anos. O encenador considera que Berkowitz adaptou a personagem da fotógrafa para uma audiência contemporânea. “É uma ópera linda e fez-me pensar sobre que outras peças terão ficado perdidas por falta de aprovação do regime político”, completou.

Mesmo oito décadas depois, a reinterpretação do espetáculo representa para Berkowitz uma oposição aos regime nazi.

“Na altura, fazer um bom retrato não era fácil e era também perigoso devido às antigas câmaras e aos químicos envolvidos. No entanto, a aristocracia, e mais tarde os nazis, quiseram fotografias dos seus retratos para as campanhas”, explicou o professor inglês. Mas, em 1936, o regime nazi estava “furioso” devido à existência de fotógrafos Judeus e ordenaram mesmo que os estúdios fossem encerrados, completa Michael Berkowitz.

Kurt Weill nasceu em 1900 na Alemanha e tornou-se um dos melhores e mais famosos autores do século XX. Inaugurou um estilo de ópera revolucionário, que se pautava pelas duras críticas e sátiras sociais. Mudou-se mais tarde para os Estados Unidos e obteve nacionalidade norte-americana. Entre os seus trabalhos, destacam-se Der Protagonist, Royal Palace, MahagonnyDown in the Valley. Uma das canções do autor foi ainda interpretada pelos The Doors e por David Bowie. O autor morreu em 1950, em Nova Iorque.