A Caixa Geral de Depósitos apresentou esta quinta-feira lucros de 126,1 milhões de euros, obtidos entre janeiro e março — um aumento de 85% em relação ao resultado que se gerou no período homólogo. Para estes lucros, argumenta o banco, contribuiu o facto de os resultados subjacentes (core) da atividade bancária terem subido mais de 11%. Mas, mesmo com a distribuição de 200 milhões de euros em dividendos (relativos a 2018), Paulo Macedo diz que isso “não significa que está tudo a correr às mil maravilhas — caso contrário, já teríamos rating de investment grade — mas o banco deu prova de que podia entregar estes dividendos”.

O banco confirmou, também, esta quinta-feira, que vai propor em assembleia-geral o pagamento de 200 milhões de euros em dividendos ao acionista (Estado), relativos ao exercício de 2018. Na conferência de imprensa de apresentação de resultados, em Lisboa, o presidente-executivo, Paulo Macedo, garante que o banco vai ficar com rácios de capital “bastante confortáveis” mesmo depois dessa distribuição de dividendos.

O produto bancário gerado pela CGD no primeiro trimestre de 2019 alcançou 455,9 milhões de euros, um aumento de 18,7 milhões de euros face ao primeiro trimestre de 2018. Para esta evolução favorável contribuíram, por um lado, os resultados de serviços e comissões que totalizaram 120,2 milhões de euros, um crescimento de 5,5 milhões de euros (+4,8%), face a março de 2018 e, por outro, a evolução dos custos de estrutura, que atingiram 277,7 milhões de euros nos primeiros três meses de 2019, reduzindo-se em 15,5 milhões de euros (-5,3%)”, pode ler-se no comunicado.

Os lucros teriam sido maiores caso o banco não tivesse tomado a opção de registar já os 60 milhões de custos regulatórios, (incluindo contribuições para o Fundo de Resolução e a contribuição especial sobre o setor bancário). Todos os custos regulatórios para o ano de 2019 já ficam, desta forma, reconhecidos nas contas do primeiro trimestre, um “custo sem precedentes” que Paulo Macedo contabiliza em 240 milhões de euros só desde a última recapitalização. O gestor fez questão de lembrar que, quando se critica que os bancos cobrem comissões, há que lembrar que estes custos são calculados perante a dimensão do banco — incluindo os depósitos — o que numa altura de taxas de juro negativas no BCE implica custos para o banco.

Por outro lado, o banco registou neste primeiro trimestre os 50 milhões de euros (brutos) que o banco recebeu pela venda de um quarteirão na Rua do Ouro, em Lisboa. A mais-valia dessa operação, que ajudou aos lucros do trimestre, foi de 36 milhões de euros. O imóvel foi vendido ao Grupo Sana, revelou Paulo Macedo.

Outra boa notícia é que o banco conseguiu fazer 100 milhões de euros em recuperações de crédito malparado, o que Paulo Macedo garantiu que não está relacionado com reversões de imparidades anteriores e tem um efeito nulo ou quase nulo sobre os resultados trimestrais.

Espero fortemente reverter muitas e muitas imparidades, para os poder devolver ao Estado. Mas, ao contrário de outros bancos, isso ainda não está a acontecer“, diz Paulo Macedo, recusando a ideia de que o banco já esteja a lucrar com mais-valias relacionadas com o reconhecimento de imparidades agressivo que existiu da última recapitalização.

Nova comissão de inquérito seria algo “totalmente desproporcionado”

Paulo Macedo falou, também, sobre a comissão parlamentar de inquérito à gestão do banco público, considerando que seria “totalmente desproporcionado” se viesse a haver uma quarta comissão de inquérito ao banco, porque apesar de o banco concordar que é preciso perceber o que se passou no banco público e tirar lições, estas comissões são danosas para a perceção pública em torno do banco.

“A Caixa, no espaço de um ano, tinha recuperado mais de 10 pontos num índice de recuperação, num mês perdeu esses 10 pontos. O nosso compromisso, agora, é ir recuperar esses pontos no terreno. Mas quem diz que isto não afeta a Caixa, não sabe o que está a dizer“, diz Paulo Macedo.

Embora a “Assembleia da República seja soberana”, na opinião de Paulo Macedo, a Caixa é um banco que, sublinha, que já deu toda a informação que foi pedida. Além dos “danos” reputacionais, “há o risco de perda de foco na área de comercial e na gestão”. “Quem mais ganha com a comissão de inquérito são os concorrentes da Caixa — esses são os maiores entusiastas, além de alguns ressabiados“, diz o presidente da Caixa, garantindo que a Caixa tirou muitas lições do que a aconteceu e que não só a Caixa mas toda a banca rege-se, hoje, por práticas muito diferentes, incluindo na área do crédito e do risco.

“A Caixa está diferente hoje ou não do que eram aquelas práticas? Está de certeza muito diferente, porque a banca toda está diferente: a supervisão é outra, a regulação é outra, as práticas de risco são outras, as tecnologias, a governance”, diz Paulo Macedo. “As lições que temos de retirar do passado levam-nos a que hoje em dia tenhamos, por força da supervisão e da regulação, uma ação concreta e sistemática em termos de governance. Além disso, a Caixa hoje tem rácios de capital mais fortes” e aprendeu a lição de que não pode voltar a ser a “última a ajustar os seus custos à redução de negócio”, diz o presidente-executivo.

Paulo Macedo deixou, também, outra notícia: além da Vieira de Almeida e Linklaters, também a sociedade Serra Lopes, Cortes Martins foi contratada para ajudar o banco a avaliar se há potencial para processos contra ex-gestores do banco, cujas práticas foram analisadas pela auditoria da EY.

Sobre o acordo com o empresário Pereira Coutinho, que envolve um perdão da Caixa e de outros bancos, Paulo Macedo di que “ter feito este acordo não leva a Caixa a ter de constituir, neste momento, imparidades adicionais porque já estavam reconhecidas em anos anteriores”. Mas a Caixa tinha alternativa? É que, sublinha Paulo Macedo, quando se avalia o que foi feito “tem de se perceber que alternativas viáveis é que existiam” — e o gestor sublinha que havia alternativas que incluíam, entre outras coisas, a perda de postos de trabalho nas empresas endividadas.

O presidente-executivo da Caixa Geral de Depósitos adiantou, ainda, que vão sair do banco este ano 570 pessoas, em termos líquidos, prevendo-se que haja 380 saídas por reformas ou pré-reforma e 290 saídas por mútuo acordo/não renovação de contratos a termo.