Moçambique

Viver à beira de um precipício em Moçambique por causa da chuva

Chuvas agravam risco de casas junto a uma ravina de 20 metros de profundidade que foi aberta há cinco anos e os habitantes ainda esperam por ajuda.

Outras casas estão perto, mas a de Farruque é a primeira, perigosamente perto do precipício

ANTÓNIO SILVA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Farruque Canivete, 26 anos, vive com o irmão e um primo à beira de um precipício que depois do ciclone Kenneth ameaça devorar-lhe a casa em Pemba, Norte de Moçambique.

“A cova está a abrir de cada vez que chove. Temos medo”, diz à Lusa no bairro de Mahate, à entrada da capital provincial de Cabo Delgado, junto à estrada nacional 1 (EN1).

A ravina de 20 metros de profundidade é uma de muitas que rasgam a cidade, desordenada, desde a zona alta até às praias, com construções que travam cursos de água e linhas de drenagem pluvial — e quando a água não tem por onde passar, faz força para encontrar um caminho.

“Esta vala não abriu agora, foi há cinco anos” depois de uma obra na zona e “até agora não houve nenhuma ajuda”, queixa-se Farruque, que sabe que cada pingo de chuva aumenta a sua situação de risco, mas que não tem rendimentos para sair dali.

“Não sabemos a quem podemos recorrer, a vala está próxima da nossa casa e não temos como mudar. Se pudéssemos, já tínhamos saído daqui”, mas por enquanto continuam na linha da frente da ameaça.

Outras casas estão perto, mas a de Farruque é a primeira, perigosamente perto do precipício.

Um corredor estreito e escuro leva até uma sala onde a instalação elétrica está à vista e alimenta uma televisão.

As paredes não caíram, mas estão a descascar-se e já se vê o esqueleto, ou seja, a rede de estacas de madeira que seguram o ‘matope’, barro que seca sobre a estrutura para formar a casa.

No domingo, dia de chuva mais intensa em Pemba e que provocou cheias repentinas na cidade, os três nesta casa acordaram com o barulho e quando espreitaram viram a terra da ravina a ceder.

A derrocada chegou a engolir uma retroescavadora que estava nas imediações.

“Não estamos seguros”, refere Rui Carlos, primo de Farruque, que vive na mesma casa, apontando para a árvore que têm ali ao lado: parte da raiz já está à vista, fora da parede da vala.

Crianças correm e brincam à beira da terra que vai cedendo, por entre as casas que se seguem à de Farruque.

Algumas delas vivem com Saina Rajam, 30 anos, moradora numa habitação com outras 12 pessoas e que pede “ajuda do Governo” para se fazer algo.

“Aqui não é seguro”, conclui.

O ciclone Kenneth foi o primeiro a atingir o norte de Moçambique e foi classificado com um grau de destruição de categoria quatro (numa escala de um a cinco, o mais forte).

A tempestade matou 41 pessoas, segundo o levantamento provisório das autoridades, e afetou cerca de 166.000 pessoas.

Moçambique foi pela primeira vez atingido por dois ciclones na mesma época chuvosa (de novembro a abril), depois de em março o ciclone Idai, de categoria três, ter atingido o centro de Moçambique onde provocou 603 mortos.

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