Tem 35 anos e o Observador encontra-se com ele à saída do PlayersLounge – a sala de jogadores – do Millennium Estoril Open. Veste uma t-shirt branca, uns calções escuros e aparece de boné. O “ele” podia ser mais um jogador do torneio mas é Rui Machado, o atual selecionador nacional de ténis e ex-número 59 do ranking mundial (um dos seis portugueses no top 100). Numa conversa rápida falámos sobre a transição de jogador para treinador e a vitória sobre João Sousa no ano de estreia do Millennium Estoril Open. “Uma das melhores vitória da minha carreira”, recorda.

Rui, em 2015 defrontaste o João Sousa na ronda inaugural do Estoril Open – é a única vitória de um português sobre o João neste torneio. Foi um dia especial esse?
O João é o nosso melhor jogador de todos os tempos. Eu estava numa fase em que tinha ganho muito jogos no inicio da época, em torneios mais pequenos e cheguei com alguma rodagem. Preparei bem o jogo taticamente e correu bem. Foi o primeiro ano aqui, também só joguei neste Estoril Open dois anos. Uma vitória em casa, é sempre especial. Naquele momento eu não era favorito e quando se ganha a um favorito é sempre especial e pelo jogador que é, é uma das melhores vitórias da minha carreira, o que só valoriza o João.

Naquele momento não era favorito e quando se ganha a um favorito é sempre especial”

Uns anos depois estás no Estoril Open noutro papel. Como é que é acompanhar tenistas mais jovens, dar-lhes a conhecer este mundo do circuito mundial por dentro?
Estou a acompanhar alguns dos jogadores do Centro de Alto Rendimento que foram convidados pela organização para serem parceiros de treino dos jogadores do torneio [Luis Faria e Tiago Cação – que acabou por jogar pares ao lado de Frederico Gil]. Eles têm estado a treinar de manhã à noite o que é uma oportunidade única, visto que não jogam com estes jogadores no dia-a-dia. São estas coisas que tornam o Estoril Open ainda mais importante. Paralelamente ao torneios, aqueles que jogam, à promoção do ténis que o torneio faz, há muitas coisas que vão ajudando o ténis português à volta deste evento.

Há muitas coisas que vão ajudando o ténis português à volta deste evento”

E tu como é que te vês com a raquete debaixo do braço, depois de também teres pisado estes courts?
Tenho essa fase bastante ultrapassada. No primeiro ano foi estranho, quando comecei como treinador. Sentia-me com vontade de saltar para o campo, mas agora já vesti a pele de treinador. Estou cá para ajudá-los, passar a minha experiência e tentar encaminhar da melhor forma os jogadores, o que é muito difícil: isto é uma modalidade muito competitiva.

No primeiro ano foi estranho, quando comecei como treinador. Sentia-me com vontade de saltar para o campo (…)”

E aprender também coisas que desconhecias como jogador?
Sem dúvida. No último ano já estava bastante desperto para esta função. Lembro-me que nos últimos meses, em que estava lesionado, passava dias e dias a ver vídeos e a estudar em casa, mas continuo muito interessado em aprender coisas novas.

O facto de teres sido afetado por várias lesões, ajudou a construir a tua imagem enquanto treinador?
Acho que ajuda um bocadinho a perceber o processo, a não entrar em pânico em fases difíceis, que com o tempo podemos ultrapassar essas fases mas o tenista vive muito do momento, mesmo os mais novos. Não olhamos muito para o passado, eu também tento não ficar muito agarrado ao passado, posso contar um ou outro episódio para ajudar, mas o tenista vive muito o momento e gosta é de olhar em frente e a minha missão é prepará-los para o futuro.

O tenista vive muito o momento e gosta é de olhar em frente e a minha missão é prepará-los para o futuro”

Como é que foi reencontrar outros tenistas com quem jogaste durante vários anos, agora neste papel de treinador?
Ao princípio perguntavam-me: estás a jogar ou não estás? Ainda para mais retirei-me relativamente novo, com 32 anos, e dos jogadores que ainda competem hoje em dia há muitos que são da minha idade. Estão no Estoril Open alguns deles e a relação é diferente: eu antes era adversário, agora deixei de ser rival deles e acho que a relação passou a ser mais saudável.

Antes era adversário, agora deixei de ser rival deles [de outros jogadores do circuito] e acho que a relação passou a ser mais saudável.”

Como treinador, passaste recentemente a selecionador nacional da equipa da Taça Davis, como é que foi também essa transição, visto que partilhaste balneário com eles…
É uma grande responsabilidade. Começámos com um desafio muito difícil, no Cazaquistão [em que Portugal perdeu por 3-1]. Agora temos mais desafios pela frente, a Bielorrússia é o próximo e temos que quebrar o enguiço de vencer jogos fora. Quanto ao ambiente, foi muito bom. Alcançamos na totalidade o que tínhamos delineado para dentro do balneário, os resultados não acompanharam mas a experiência foi muito boa. Senti a equipa unida e disponível. Agora é dar o máximo para continuar a representar Portugal da melhor maneira.

Agora que já estás neste papel de embaixador do ténis, sentes que é mais fácil passar a mensagem existindo um ídolo como João Sousa?
É sempre mais fácil divulgar quando há resultados e quando temos um ídolo como o João, que ganha um Estoril Open, com a quantidade de torneios que existem agora em Portugal é sempre mais fácil. As redes sociais também ajudam, mas nem sempre. Eu acho que nos próximos anos isso vai mudar.

No teu tempo de jogador quase que não existiam… o Facebook estava a começar a ganhar terreno…

Sim, eu nunca fui muito de redes sociais. A primeira que tive foi o Facebook e foi porque fui obrigado por um contrato publicitário. Nunca fui muito de me expor. O Facebook ajuda a passar a mensagem mas por vezes não ajuda assim tanto. Temos que as utilizar, os jogadores, de forma positiva.