Liga dos Campeões

Milagre dos Campeões Ingleses: como dois loucos deram a volta à mais bela das Taças

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O futebol é extraordinário porque os homens se transcendem. João Bonifácio suou, ficou cansado, arrancou cabelos e roeu unhas. Mas viu Liverpool e Tottenham em dois dos melhores jogos de sempre.

Autor
  • João Bonifácio

Corram para o ginásio, cortem no tabaco, comecem já uma dieta: a final da Champions vai ser jogada a uma velocidade tão grande, vai ser tão suada que vai cansar só de ver na televisão. Tottenham Hotspur e Liverpool, as duas equipas que mais pressionam ao cimo da Terra, que mais gostam de jogar no campo inteiro vão enfrentar-se em Madrid a 1 de Junho e o número de choques, passes longos, segundas bolas, cabelos arrancados e unhas roídas promete atingir números históricos.

Foi isso que acabou de me acontecer – suar, ficar cansado, arrancar cabelos, roer unhas: aos 55 minutos do Ajax-Spurs este texto estava completamente escrito; aos 95 sofrera um par de alterações para lembrar a fragilidade defensiva do Ajax nas bolas compridas, no jogo direto físico; aos 96 minutos o texto teve de ser reescrito de uma ponta à outra. Porque o futebol é extraordinário. Porque os homens se transcendem. Porque o acaso espera o momento em que os humanos estão cheios de certezas para lhes colocar uma casca de banana à traição. Porque o futebol é extraordinário.

Ou, pelo menos, foi-o durante as meias-finais desta edição da Champions – e é muito possível que estejamos a falar das maiores recuperações de sempre, sem contar com finais (nessas o Liverpool tem tradição desde 2005, quando virou um 0-3 ao intervalo, frente ao Milan). O Liverpool voltou a Anfield com uma desvantagem de três golos face ao Barça de Messi e espetou quatro sem resposta; os Spurs perderam 0-1 em casa com o super-Ajax, estiveram quase mortos no deserto quando se viram dois golos atrás na Allianz Arena – e de repente, do nada, dois golos de Lucas Moura, o jogo relançado, oportunidades de ambos os lados e, no último segundo, o terceiro de Moura.

É incrível, inacreditável, espantoso, magnífico. E é-o ainda mais se pensarmos em como ambos os clubes conseguiram as suas reviravoltas: o Liverpool estava sem Firmino e Salah por lesão; em seu lugar entraram de início Shaqiri e Origi, que pouco calçaram esta época; Origi marcou dois golos e os outros dois vieram de Wijnaldum, que saiu do banco. O Barça? Estava na máxima força.

Os Spurs, por sua vez, não contaram com Harry Kane, o mago dos golos, em nenhuma das mãos. Vertonghen andou a ser poupado por causa de fadiga muscular; no meio-campo chegou a haver apenas dois médios-centro disponíveis; Son não pode jogar a primeira mão; Lamela acabou por entrar na segunda, acabado de sair da enfermaria. Haviam derrotado o City quando o golo de Aguero (City) no último segundo fora anulado; agora marcaram no último segundo. Onde é que esta gente arranja tanto coração.

Tinha escrito, antes do twist final em Amesterdão, que o Ajax-Liverpool era “uma final de sonho entre dois colossos cuja folha de serviços na Champions é longa e escrita a dourado, mas ninguém estava à espera disto” e nem tudo é mentira, depois do duplo milagre inglês. Pode não ser a final preferida dos adeptos de futebol, mas quem gosta de bola tem de esboçar um sorriso perante isto: um colosso que renasce das cinzas graças a um treinador carismático (Klopp), um clube histórico, e habituado a perder, que ganhou outra vida graças a um treinador carismático (Pochetino).

E, de facto, ninguém estava à espera disto – o que é ótimo karma para a final: perante isto, é uma final imprevisível. Os Spurs derrotaram o City nos quartos-de-final mas os Spurs são os Spurs e falham sempre nas alturas em que não se pode falhar. E o Ajax havia derrotado o Real fora, ao que se seguiu outra reviravolta e com nova vitória fora, desta feita contra a Juventus, que apostou forte nesta edição da Champions, ao ponto de ter gasto 100 milhões em Cristiano Ronaldo. Ninguém esperava que os Spurs tivessem dentro deles esta coragem, este denodo, este orgulho.

O sucesso do Liverpool não é tão surpreendente, se tivermos em conta que ainda o ano passado chegaram à final, muito à conta de uma época mágica de Salah e do cimento que van Djik trouxe àquela defesa. Esse jogo foi marcado pela lesão de Salah – e pelos frangos de Karius. Klopp reagiu de forma enérgica: conhecido por apostar em jogadores da formação, por desenvolver quem já está no plantel, no caso enviou Karius para o exílio e foi a Roma buscar o brasileiro Alison.

Uma estatística elucida a transformação do Liverpool da época passada para esta: em toda a Premier League o Liverpool não sofreu um único golo de contra-ataque, o que demonstra o impacto que van Djik e Alison tiveram na equipa. O ano passado o Liverpool era uma equipa que apenas conhecia o acelerador a fundo; este ano sabe moderar a velocidade. Menos na Champions: na Champions o Liverpool funciona a mil hora, é mais louco, mais aberto, mais Klopp.

Há, aliás, muitas semelhanças entre os Spurs e o Liverpool, entre Pochetino e Klopp – o primeiro ponto em comum é a pressão e contra-pressão: ambas as equipas gostam de pressionar alto, de pressionar a saída de bola do adversário – se a recuperam o passe seguinte é vertical, em direção ao golo.

Em ambos os casos há uma opção pelo físico no centro do campo: o Liverpool, que atua em 4-3-3, usa três médios centro poderosos (Fabinho, Henderson e Milner, com Wijnaldum e Keita no banco), enquanto os Spurs, que têm menos opções, optam por dois monstros de força (Sissokho e Waynana, nos últimos tempos).

A largura é dada, nas duas equipas, pelos laterais, se bem que no caso do Liverpool os extremos (Mané e Salah) costumam ficar bem abertos, enquanto que nos Spurs não há propriamente extremos naturais: Son costuma partir da esquerda, Ali tem andado descaído para a direita, mas ambos funcionam mais como avançados interiores, com ordem para entrar para dentro, ir ao meio, cair nas alas.

Se os deixarem ambas constroem a partir da baliza, ambas gostam do jogo de passe – não como o Barcelona de Guardiola, não como o Arsenal de Wenger, não como o City de Guardiola, mas como equipas modernas, que gostam da bola. No Livrepool trata-se de fazer chegar a bola aos aos três da frente; nos Spurs, de encontrar Eriksen, que é um 8 com pés de 10 (mas que defende na mesma).

Dito isto, não há um único jogador nos respetivos plantéis que tenha problemas em jogar direto – foi, aliás, assim que os Spurs ultrapassaram o Ajax: viram-se encurralados com a pressão do Ajax, começaram a despachar a bola de qualquer maneira, até que Pochetino lançou Llorente, um homem alto que se tornou homem-alvo, e de repente havia uma saída para a pressão.

Também o Liverpool, depois de em Camp Nou ter tentado trocar a bola (com um sucesso que foi destruído pelo génio de Messi), estraçalhou o Barcelona com as suas bolas longas e tensas. Klopp e Pochetino não pretendem apenas aproveitar a velocidade dos seus homens da frente – querem ganhar a segunda bola. Quando uma defesa corta um lance pelo ar, por norma os seus médios são apanhados em contrapé, ao contrário dos médios opostos, que estão de frente para a baliza adversária. Essa segunda vaga de ataque, tanto no caso dos Spurs como do Liverpool, costuma esmagar oponentes: ganha-se a segunda bola, o adversário está desposicionado, sai passe de rutura, golo.

Este é o jogo de Klopp, este é o jogo de Pochetino: muita largura nos laterais, muita pressão, muita velocidade, toque de bola onde for possível, quando não for é ganhar as segundas bolas, passe longo, muita luta, muito suor, muita crença, quilos de crença, toneladas de crença, um universo infinito de crença.

No fundo, e isto é engraçado, este sempre foi o jogo inglês – e foi preciso um alemão e um argentino para que clubes ingleses voltassem a aprender a jogar à inglesa.

Nestas situações costuma-se dizer que o jogo vai ser decidido em detalhes. E até certo ponto isso será verdade: Eriksen será o jogador mais criativo em campo – e se o Liverpool quiser ganhar tem de anulá-lo. Tão importante quanto isso, para os Spurs, é que Kane regresse a tempo (o que parece possível): o inglês marcou 125 golos em 178 aparições pelos Spurs e parece ter uma relação quase paranormal com Eriksen, que será, certamente, o jogador mais criativo em campo, na final.

Mas perante equipas assim quem arrisca dizer o que pode definir a final? A estatística diz que em nove jogos Pochetino só venceu Klopp uma vez, empatando e perdendo outras quatro. Ambos gostam muito de apostar em juventude mas o Liverpool tem mais dinheiro e Klopp não hesitou em usá-lo, nos casos de van Djik e Alison – tanto em termos de onze titular como de profundidade de plantel, o Liverpool leva ligeira vantagem em quase todas as posições, em particular no meio-campo.

Os Spurs nunca ganham nada: a última vez que venceram um troféu foi a FA Cup em 1991 e não conquistam uma competição europeia desde a Taça UEFA de 1984. Mas depois tudo depende de um guarda-redes inspirado, de um golo de canto de van Djik, de uma bomba de meio da rua de Eriksen, de um lance individual de Mané ou Salah ou Son – ou, quem sabe, de um herói improvável, outro Origi, outro Wijnaldum, outro Llorente, outro Lucas Moura. O mais certo, perante o que vimos nas meias-finais, é o vencedor ser não quem errou menos mas quem teve coração a mais.

Em toda a história da Liga dos Campeões só por uma vez dois clubes ingleses se defrontaram na final – foi na edição de 2008/2009, que opôs Manchester United e Chelsea. Um jogo não demasiado emotivo, decidido a favor do United em penalties. Mas ninguém duvida que a de 1 de Junho será a final mais inglesa de sempre – mesmo que tenha sido preciso um argentino e um alemão para que Spurs e Liverpool tivessem redescoberto uma forma muito inglesa de jogar futebol.

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