A Guiné-Bissau está a viver um novo impasse político, dois meses depois de realizadas as eleições legislativas de 10 de março, o que tem condicionado a nomeação do futuro primeiro-ministro e a formação de um novo Governo.

Os deputados eleitos nas legislativas de 10 de março levaram mais de um mês a tomar posse, a 18 de abril, mas o início da X legislatura demonstrou logo as fraturas político-partidárias que existem no país com o impasse criado com a eleição para a mesa da Assembleia Nacional Popular.

“O país continua a viver sob o fantasma da briga desnecessária entre partidos políticos”, afirmou à Lusa o analista político guineense Rui Jorge Semedo.

Depois de Cipriano Cassamá, do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo verde (PAIGC), ter sido reconduzido no cargo de presidente do parlamento, e Nuno Nabian, da Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB) ter sido eleito primeiro vice-presidente, a maior parte dos deputados guineenses votou contra o nome do coordenador do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), Braima Camará, para segundo vice-presidente do parlamento.

O Madem-G15 recusou avançar com outro nome para cargo.

Por outro lado, o Partido de Renovação Social (PRS) reclama para si a indicação do nome do primeiro secretário da mesa da Assembleia Nacional Popular.

O parlamento da Guiné-Bissau está dividido em dois grandes blocos, um, que inclui o PAIGC (partido mais votado, mas sem maioria), a APU-PDGB, a União para a Mudança e o Partido da Nova Democracia, com 54 deputados, e outro, que juntou o Madem-G15 (segundo partido mais votado) e o Partido de Renovação Social, com 48.

“É verdade que o regimento é muito claro e explica perfeitamente como se deve fazer a eleição da mesa. O PAIGC nesse aspeto pecou, sobretudo, no que diz respeito ao cargo de primeiro secretário. Segundo o regimento, o cargo de segundo secretário é que é do PAIGC e não o de primeiro secretário”, afirmou Rui Semedo.

Em relação ao cargo do segundo vice-presidente, cabe ao Madem-G15, acrescentou o analista político, mas aquela formação partidária tem de assumir as regras do jogo e indicar outro nome para o cargo, assumiu ainda.

“Quem tem aqui que reclamar é o PRS, cujo lugar de primeiro secretário foi usurpado pelo PAIGC”, salientou.

Para o analista, o que “impera é a má-fé e uma estratégia de continuar a bloquear o parlamento”.

“É uma luta desnecessária que só poderá eventualmente ser resolvida com eleições presidenciais”, afirmou, salientando que o Presidente da República até aqui ainda não mostrou vontade de dialogar.

Rui Jorge Semedo sublinha que o novo impasse traz consequências nefastas para a Guiné-Bissau e demonstra que a estratégia dos líderes políticos continua a ser a de “tentar condicionar o funcionamento das instituições e tirar partido desses condicionalismos sistematicamente criados”.

“No plano internacional, o país não tem credibilidade, não só o sistema político, que agora é questionado, mas também a postura, a capacidade dos órgãos soberania e dos líderes políticos guineenses também está a ser posta em causa porque existe uma estratégia muito clara que vai sobretudo no sentido se não for eu, também não vais tu”, sublinhou.