Mkhitaryan nasceu em Yerevan há 30 anos, quando a atual capital da Arménia ainda era uma cidade soviética. Micki, a alcunha que lhe foi dada por Jürgen Klopp nos tempos do Borussia Dortmund para facilitar a comunicação para dentro de campo, é poliglota e fala sete línguas: arménio, francês, português, russo, ucraniano, alemão e inglês. Se as três primeiras aprendeu quando era criança, incentivado pela família, e as últimas quatro foram os ossos do ofício de ter jogado na Ucrânia, na Alemanha e agora em Inglaterra, o russo apareceu por influência da avó, filha de russos. O médio do Arsenal não tem propriamente problemas em falar outras línguas, em estar noutros países, em embrenhar-se noutras culturas. Mas este mês, já no próximo dia 29, pode ser impedido de representar o clube inglês porque um país não quer recebê-lo.

O Arsenal carimbou esta quinta-feira a passagem à final da Liga Europa, onde vai encontrar o Chelsea, ao eliminar o Valencia de Gonçalo Guedes na meia-final. Mkhitaryan, que conquistou precisamente a segunda maior competição europeia de clubes ao serviço do Manchester United de José Mourinho em 2017, entrou já na segunda parte para substituir Özil e o mais provável era que fosse opção inicial ou uma das primeiras substituições a saltar da manga de Unai Emery no jogo derradeiro. Mas existe um problema: um problema que extrapola em toda a linha os limites do futebol.

A final da Liga Europa realiza-se esta temporada em Baku, a capital do Azerbaijão. Ora, o Azerbaijão tem as relações diplomáticas cortadas com a Arménia desde 1988 devido à disputa do enclave Nagorno-Karabakh, um território azeri mas de maioria arménia. Os dois países assinaram um cessar-fogo em 1994, há 25 anos, mas os conflitos nas fronteiras daquele território são ainda uma realidade que ficou agravada em abril de 2016, quando a que ficou conhecida como Guerra dos Quatro Dias obrigou à deslocação de centenas de milhares de pessoas. Atualmente, nenhum cidadão arménio está autorizado a entrar no Azerbaijão: o que dificulta, obviamente, a presença de Mkhitaryan na final da Liga Europa.

Esta não é, ainda assim, uma situação nova para o jogador do Arsenal. Em 2015, quando ainda representava os alemães do Borussia Dortmund, Mkhitaryan não integrou a convocatória da visita ao Qabala, um clube do Azerbaijão, também a contar para a Liga Europa. Na altura, o Borussia atribuiu a decisão a “questões relativas à segurança do próprio jogador”, a mesma justificação dada pelo Arsenal já esta temporada, durante a fase de grupos da competição europeia — por altura da visita dos gunners ao Qarabag, a contar para um grupo onde também estava o Sporting e o Vorskla Poltava, o médio voltou a falhar a entrada nos convocados e Unai Emery explicou que o arménio “não podia viajar” para o Azerbaijão.

Em 2015, quando ainda jogava no Borussia Dortmund, o arménio falhou a deslocação ao Qabala

Nessas duas ocasiões, a UEFA ofereceu-se para mediar a obtenção de um visto especial para atletas de alta competição que está previsto na lei do Azerbaijão: os dois clubes ignoraram a ajuda do organismo que regula o futebol a nível europeu e defenderam que a segurança do jogador não estava assegurada, mesmo com o visto que permitia a entrada no país. No caso mais recente, o do Arsenal, a atitude do clube inglês foi criticada e até ridicularizada pelo treinador do Qarabag, Gurban Gurbanov, que considerou que os gunners não quiseram proteger o jogador mas sim “salvá-lo” da “pressão” de jogar no país. “Se o Henrikh Mkhitaryan vier ao Azerbaijão não seria a primeira vez. Muitos desportistas arménios já vieram ao Azerbaijão e é uma escolha do Arsenal não o trazer. Ele é que não quer a pressão de jogar em frente a 60 mil azeris”, afirmou o técnico.

Agora, e tendo em conta que se trata de uma final europeia, a decisão do Arsenal pode mudar e é provável que os ingleses aceitem a ajuda da UEFA. Em comunicado, o clube explicou que está “à espera de garantias de segurança por parte da UEFA”. “Ainda não recebemos garantias aceitáveis e esperamos que a UEFA consiga apresentá-las de forma célere. Estamos obviamente preocupados com o facto de a localização da final poder impedi-lo de jogar uma final europeia”, acrescentou o Arsenal, que ressalvou ainda que o próprio jogador exige essas garantias para aceitar viajar com a equipa. Contudo, de acordo com a BBC e apesar dos esforços do Arsenal junto da UEFA, a decisão final sobre a permissão de entrada de Mkhitaryan em território azeri pertence ao Governo do Azerbaijão.