Itália

Beijos gay, perguntas incómodas: há uma “selfie-guerrilha” em curso contra o líder italiano de extrema-direita Matteo Salvini

O líder do partido de extrema-direita Liga, também ministro do Interior de Itália, foi surpreendido há duas semanas quando duas raparigas deram um beijo numa "selfie" sua. Já há um movimento em curso.

Instagram Gaia Perisi

A história pode começar a ser contada assim: Matteo Salvini decidiu ir a um encontro do Congresso Mundial das Famílias e duas raparigas italianas de 19 anos ficaram aborrecidas com isso. O líder do partido eurocético, populista e defensor da intervenção estatal na economia Liga (antigo Liga do Norte), de extrema-direita, nunca escondeu que é conservador e anti-liberal nos costumes. Matilde Rizzo e Gaia Perisi não terão ficado propriamente surpreendidas com a ida de Salvini a um encontro chamado Congresso Mundial das Famílias, em Verona, em março do ano passado. Mas ficaram irritadas.

O encontro começou por acontecer nos Estados Unidos da América e serve para promover valores familiares católicos e cristãos, excluindo e opondo-se a modelos comportamentais e familiares que se desviem desse padrão, como o casamento homossexual, o aborto ou a adoção por casais do mesmo sexo. Salvini, que se identifica com as posições da WCF, decidiu ir ao encontro, fazendo assim representar nele o Governo italiano liderado pelo primeio-ministro Guiseppe Conte.

Matilde Rizzo e Gaia Perisi já não gostavam de Salvini e menos ficaram a gostar. Matilde Rizzo até explicou porquê, citada pelo The Guardian. Para ela, a presença do ministro do Interior italiano num “congresso anti-feminista, anti-gay e anti-aborto” foi “inaceitável”. “Não podíamos ficar quietas a ver o Salvini e os seus apoiantes a tentar arrastar a Itália de volta para a Idade Média”, disse ainda.

A rapariga italiana de 19 anos e a sua namorada (com a mesma idade) começaram a pensar numa forma de protestar contra Salvini. Inicialmente, o protesto planeado era bastante convencional: as duas deslocaram-se a Caltanissetta, na Sicília, para apupar Salvini num encontro deste com apoiantes. No final, foram surpreendidas: o líder italiano populista e de extrema-direita mostrou-se disposto a ir falar com os apoiantes e tirar fotografias com eles.

Matilde Rizzo e Gaia Pariso ouviram a disponibilidade de Salvini para falar com os simpatizantes da “Liga” e converteram-se (mas só por uns minutos). “Olhei para a Gaia e não pensámos duas vezes”, contou a primeira, citada pelo The Guardian. No exato momento em que a fotografia foi tirada, as duas beijaram-se: e o momento, visualmente caricato, chegou à internet e tornou-se viral.

Matteo Salvini desvalorizou o protesto tratando-o como piada inofensiva: disse que “elas acharam que tiveram uma vitória contra mim” mas ele na verdade não se importa nada “se uma rapariga quer fazer amor com outra rapariga”, desde que o modelo familiar de “pai e mãe não seja apagado” em Iália. As protagonistas, por sua vez, ficaram contentes com o impacto do protesto. “A fotografia circulou pelo mundo, ficámos orgulhosas. Atingimos o nosso objetivos, fizemo-nos ouvir e isso é importante”, referiu Matilde Rizzo, já em retrospetiva.

O momento foi caricato, mas de piada inofensiva passou quase a movimento. Há já quem lhe chame “selfie-guerrilla” — na imprensa italiana, nomeadamente no jornal Il Foglio — e para descrevê-lo talvez baste dizer que consiste em registar com o telemóvel e tentar tornar virais momentos embaraçosos de Salvini, virando o feitiço (a utilização da internet e da comunicação direta como modelo institucional de eleição) contra o feiticeiro.

Desde o momento “selfie-guerrilla” de Matilde Rizzo e Gaia Pariso, vários tentaram já apanhar Matteo Salvini em falso. Na última semana, um rapaz da cidade de Pesaro tentou beijar Salvini e registar o momento nas câmaras. Não conseguiu, mas no mesmo evento duas raparigas trocaram beijos com o líder da extrema-direita italiana por perto. Três dias antes, há cerca de uma semana, uma rapariga abordou Salvini pedindo-lhe para gravar um pequeno vídeo. Quando este se aproximou perguntou-lhe se ainda achava que as pessoas do sul de Itália eram “terroni”, um termo pejorativo habitualmente usado por alguns apoiantes da Liga como crítica aos habitantes daquela região do país. Salvini ainda lhe ordenou “apaga este vídeo”, a polícia aproximou-se e interveio, mas acabou por entregar de novo o telemóvel à rapariga — e o vídeo acabou mesmo publicado.

Não é a primeira vez que Salvini é notícia por polémicas no mundo digital. Em novembro do ano passado, apareceu a sorrir numa fotografia tirada em Veneza, a que se tinha deslocado depois de uma tempestade ali ter provocado 29 mortos. Foi criticado por isso. Também polémica foi a sua senda anti-Papa Francisco, que mais tarde percebeu-se ter sido motivada pelo menos parcialmente por conselhos do ideólogo norte-americano de extrema-direita Steve Bannon. Em junho de 2018, já tinha sido reconhecido por um grupo no aeroporto de Roma que se lembrou de lhe dedicar uma canção, cantando-lhe “Bella Ciao” aos ouvidos.

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