Noruega

Jornalista norueguês diz que “baleia espia” era usada para terapia em centro de mergulho russo

Morten Vikeby garante que conhece uma beluga similar à que foi encontrada junto à Noruega com um arnês que daria para fixar uma câmara. "A baleia está a ser acusada de espionagem. Eu vou defendê-la".

A baleia foi encontrada por pescadores noruegueses no final de abril

Jorgen Ree Wiig/Norwegian Directorate of Fisheries Sea Surveillance Service

O jornalista norueguês Morten Vikeby garantiu ao The Guardian que reconhece a baleia beluga encontrada nos mares noruegueses e suspeita de ser parte de um programa de espionagem russo. Vikeby diz que se lembra de ver uma baleia similar em 2008 em exercícios de terapia com crianças com deficiências mentais no Centro de Mergulho do Ártico, em Murmansk.

A beluga encontrada com um arnês em que se podia afixar uma câmara (ou uma arma), marcado com “Equipamento de São Petersburgo”, agirá “de forma similar” a Semyon, a baleia terapeuta vista pelo jornalista enquanto trabalhava para o jornal Fiskeribladet, uma publicação dedicada a temas náuticos.

“A baleia está a ser acusada de espionagem. Defendê-la tornou-se o meu propósito”, explicou Vikeby ao The Guardian. Depois de ter lhe ter sido retirado o arnês, a baleia permaneceu na zona de Hammerfest, sendo apelidada pela população local de Hvaldimir. O nome é a mistura da palavra norueguesa para baleia (hval) com o nome russo Vladimir.

Nem o governo russo nem qualquer organização do país reclamaram a propriedade da baleia. Mas, à mesma publicação, o cientista russo Dmitry Glazov admitiu que existem na zona de Murmansk pelo menos “três instituições diferentes — não necessariamente militares — que treinam mamíferos marinhos, incluindo baleias belugas, para realizarem uma série de tarefas”, incluindo recuperar objetos ou resgatar mergulhadores.

Já Mikhail Safonov, responsável pelo Centro de Mergulho do Ártico, garante que a organização não possui qualquer baleia beluga desde 2016, quando vendeu o último dos espécimes ao Oceanário de São Petersburgo. Mais, notou que as baleias “nunca tinham exercícios em que pudessem fugir para o mar aberto”.

A história foi contada, originalmente, há algumas semanas pelo mesmo The Guardian, que falou com os pescadores da pequena vila de Inga. Contam os pescadores que a baleia se aproximou dos barcos com um comportamento invulgar, procurando ativamente puxar cordas das laterais dos navios. Apesar desse incómodo, o animal não era hostil e parecia estar confortável com o contacto humano. Foi, por isso, possível retirar o arnês que estava bem preso no seu corpo. “Equipamento de São Petersburgo”, podia ler-se no arnês.

“Se esta baleia vem da Rússia — e há razões para acreditar que sim — não terão sido cientistas russos que treinaram o animal mas, sim, as forças armadas russas”, neste caso a marinha, disse Martin Biuw, um investigador norueguês. Um outro investigador, Audun Rikardsen, diz ter contactado cientistas russos que garantiram nada ter a ver com o caso — reforçando, assim, a ideia de que terá sido a marinha russa a treinar o animal.

Com que intenção? Não se sabe, mas sabe-se que nos anos 80 a União Soviética chegou a ter um programa de treino de golfinhos para deteção de armas submersas. Esse programa foi terminado, no início dos anos 90, mas a pesquisa russa com animais marinhos continuou, segundo revelou uma reportagem da TV Zvezda em 2017. No instituto de biologia marinha Murmansk treinaram-se baleias para ajudar mergulhadores a transportar material, guardar as entradas das bases navais e “se necessário, matar quaisquer estranhos que tentassem entrar no território”, dizia a reportagem.

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