A decisão da direção da Premier League de colocar todos os jogos da última jornada do Campeonato a acontecer à mesma hora acrescenta emoção, nervos e alguns problemas cardíacos aos adeptos ingleses e não só que assistem religiosamente àquela que é, com provas dadas, a melhor Liga de futebol em toda a Europa. Afinal, Inglaterra colocou esta temporada quatro equipas nas duas finais europeias, algo que nunca tinha acontecido, e este domingo era coroado o campeão inglês em 2018/19. A emoção, os nervos e os problemas cardíacos agudizavam-se se tivéssemos em atenção o facto de o Liverpool ter apenas menos um ponto do que o Manchester City e estar à distância de um golpe de teatro para se sagrar campeão quase 30 anos depois da última vez. E de golpes de teatro, depois da passada terça-feira, sabe o Liverpool.

Os reds voltavam à competição e a Anfield depois de terem goleado o Barcelona na segunda mão da meia-final da Liga dos Campeões e de terem chegado à segunda final da Champions consecutiva num dos melhores jogos da presente temporada. Desta vez, porém, o Liverpool não dependia apenas de si e precisava de que o Manchester City empatasse ou perdesse com o Brighton: para além de estar obrigado a vencer o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo e restante armada portuguesa. Nas bancadas de Anfield, para além de alguns adeptos dos reds com camisolas do Brighton, via-se uma enorme que tarja que representava em toda a linha a esperança da equipa de Merseyside — “Jürgener Believers”, algo como crentes em Jürgen, um voto de confiança em Klopp e no conjunto de jogadores que já marcou uma era em Liverpool.

Salah estava recuperado depois de ter falhado a receção ao Barcelona e era titular — ao contrário de Roberto Firmino, que continua lesionado — ao lado de Origi, que bisou com os catalães, e o inevitável Sadio Mané. Mas o Liverpool não jogava sozinho e tinha pela frente um Wolverhampton que está a realizar a melhor temporada do clube desde há 40 anos, que tem o sétimo lugar assegurado, que está à espera da final da Taça de Inglaterra para ainda saber se vai à Liga Europa e que tirou pontos ao longo da época ao City, ao Arsenal, ao Tottenham, ao Manchester United e ao Chelsea.

Ainda assim, o Liverpool conseguiu controlar as ocorrências do jogo durante o primeiro quarto de hora e impedir os passes longos de Rúben Neves que procuram a velocidade de Diogo Jota e a profundidade de Raúl Jiménez e que tantas vezes apanham desprevenidas as defesas adversárias. Aos 17 minutos, os reds aproveitaram o enorme entendimento do corredor direito — que tantos estragos fez com o Barcelona — e chegaram ao golo da vantagem: combinação entre Henderson e Alexander-Arnold, cruzamento rasteiro do lateral para o interior da grande área e Mané a aparecer em zona frontal para bater Rui Patrício. Anfield festejou, até porque antes de esperar pelo resultado do Manchester City era preciso ganhar ao Wolves, mas a verdadeira explosão de alegria chegou cerca de dez minutos depois.

Antes ainda da meia-hora de jogo em Anfield e em Brighton, Glenn Murray colocou os adversários do Manchester City a ganhar e os adeptos do Liverpool, quase todos de telemóvel na mão — incluindo o histórico Kenny Dalglish –, celebraram como se de um golo se tratasse. A alegria, porém, foi substituída por semblantes carregados apenas segundos depois, quando Agüero empatou em Brighton, e ainda mais quando Laporte colocou a equipa de Guardiola a vencer. Na ida para o intervalo, apesar da vantagem frente ao Wolves (que até esteve perto de empatar já em cima do descanso, com um remate de Doherty à trave da baliza), o Liverpool continuava no segundo lugar e o Manchester City continuava bicampeão inglês.

Na segunda parte, o Liverpool entregou a iniciativa aos foxes, que se aproximaram progressivamente da baliza de Alisson mas que também abriam espaço nas costas, onde os velozes Mané, Salah e Origi tentavam explorar a profundidade e o espaço entre os setores do Wolves. Klopp lançou James Milner no lugar de Origi, numa tentativa de agarrar o meio-campo e impedir as arrancadas de Jonny Castro e Dendoncker que tinham Jiménez e Jota sempre prontos para receber um passe para golo. Quando Milner entrou, mais ou menos à hora de jogo, Anfield recebeu a notícia de que Mahrez tinha feito o terceiro do City em Brighton.

Sem nunca baixar os braços mas com a noção clara de que dificilmente celebraria este domingo, o Liverpool acabou por passar o resto do jogo a tentar manter a ficha limpa, face a um Wolverhampton que esteve várias vezes perto de empatar. Esbarrando diversas vezes em Alisson, a equipa de Nuno Espírito Santo acabou mesmo por permitir o segundo golos dos reds, já que Mané bisou de cabeça depois de mais uma assistência de Alexander-Arnold (81′): já de começarem a cair as primeiras lágrimas nas bancadas, quando Gundogan fez o quarto do City em Brighton.

O Liverpool adiou novamente a conquista do título inglês que escapa há quase três décadas mas destruiu o recorde de pontos do clube, terminando a temporada com 97 pontos, mais 11 do que o anterior registo (estabelecido em 2008/09, com Rafa Benítez). Além disso, o conjunto orientado por Jürgen Klopp conseguiu ainda tornar-se o segundo classificado da história da Premier League com mais pontos conquistados, superando os 89 do Manchester United em 2011/12, ano em que o Manchester City se sagrou campeão inglês pela primeira vez. No final de uma temporada absolutamente louvável, o Liverpool acabou condenado por uma fase menos boa logo no início de 2019 e pela enorme eficácia da equipa de Guardiola: depois da final da Liga dos Campeões, discutida com o Tottenham a 1 de junho, Klopp irá com certeza colocar todas as fichas na vitória na Premier League do próximo ano, inscrevendo então de forma definitiva o próprio nome na história do clube inglês.