O antigo presidente brasileiro Lula da Silva diz que Jair Bolsonaro é “doente”. Na primeira entrevista televisiva que fez a partir da prisão, à britânica BBC, o antigo governante avalia o início de mandato de Bolsonaro como “extremamente desastroso” e acusa-o de “não compreender as coisas”: “Ele acaba de fazer um decreto a acabar com os conselhos populares criados a partir da Constituição de 1988. Defende barbaramente um estado armado e policialesco. Na cabeça dele, acha que as armas resolvem os problemas de toda a gente. Acaba autorizar que um fazendeiro pode usar arma e atirar em quem quiser. Acha que o problema do Brasil se resolve com armas, mas o problema do Brasil resolve-se é com livros, com escolas”, comenta.

Segundo Lula da Silva, o juiz Sérgio Moro — que conduziu a Operação Lava Jato, que condenou o antigo presidente do Brasil — chegou ao governo de Bolsonaro como recompensa por tê-lo mandado prender. Referindo-se a uma gravação vinda a público, de uma conversa entre ele e Dilma Rousseff, que o sucedeu na presidência, Lula da Silva comenta que essa é a prova de que “o Brasil está fora de controlo e já não tinha autoridade”: “Um juízo de 1ª instância fazer todos os desatinos que o Moro fez… ele fornecia à imprensa informações em primeira mão do jeito que entendia, a imprensa transformava a mentira do Moro em verdade e aí já se está condenado”, acusa ele em conversa com a BBC.

É por isso que, segundo ele, Sergio Moro não continuará muito tempo ao lado de Jair Bolsonaro no poder: “Ele não nasceu para isto. Nasceu para se esconder atrás de uma toga e ficar a ler o Código Penal. Ele tem de se submeter a debate. Eu, por exemplo, adoraria, quando saísse daqui, fazer um debate com ele sobre os crimes que cometi”. E acrescenta mais insultos ao presidente do Brasil: “Bolsonaro, em vez de só dizer porcaria, devia dizer: ‘Eu vou sair daqui a ser melhor que o Lula. Vou fazer universidades, vou investir em ciência e tecnologia, vou fazer mais casas’“.

E por que não o faz? Porque “corre atrás do filho para apagar um fogo todos os dias”, satiriza Lula da Silva: “Não quero falar sobre a família. Como eu não conheço, não quero ficar a dar palpite, mas aquilo que se apresenta publicamente é uma coisa incontrolável. Pelo bem do Brasil, espero que ele aprenda”.

Esta é a primeira entrevista que o ex-presidente brasileiro dá a uma televisão a partir da cadeia onde está detido, mas já antes tinha falado aos jornalistas do El País e da Folha de São Paulo. Na altura, Lula da Silva também atacou Bolsonaro e Sérgio Moro.

“A corrupção tem um peso, mas não ao ponto de atrapalhar”

Para Lula da Silva, o “bem do Brasil” estava nos passos que ele próprio tomou enquanto estava no poder: “Se cada pobre comprar dois pãezinhos e dois cafézinhos, se cada um comprar um par de sapatos, uma camisola e um par de calças, um tijolo a mais, a economia começa a funcionar. Há formas de um país crescer. Uma é o mercado interno, é produzir-se para o povo consumir. A outra é produzir para exportação. Mas para exportar é preciso fazer um esforço incomensurável para vender. Tem de bater à porta de cada país. Quando viajava levava empresários para tudo o que era sítio. Vendia sapatos, vendia roupa, vendia tudo. E é por isso que demos um crescimento extraordinário”, recorda.

Mas o Brasil já não é o mesmo, acredita ele. Lá, há “um problema psicológico coletivo na elite”, que é “não suportar a ascensão das camadas mais pobres do país”: “Incomoda que os pobres estejam a ocupar as praças que eram dos riscos, os pobres em restaurantes, os pobres a viajar nos aviões, os pobres estarem a ocupar um espaço de ascensão social que não estava previsto na elite brasileira desde o fim da escravidão”.

Questionado sobre a corrupção que assola o país, e pela qual Lula da Silva foi condenado, o antigo presidente do Brasil nega as acusações: “Não acredito que o Moro e o juiz que me condenou durmam com as consciência tranquila com que eu durmo. Sou um homem que estou muito tranquilo com a minha consciência. Só me tenho a mim e a esse povo maravilhoso lá fora. Quando provar a minha inocência, posso morrer tranquilo. Vou lutar para que os setores progressistas da sociedade voltem a governar esse país. Não é possível viver com a quantidade de mentira com que nós vivemos”, disse ele na entrevista à BBC.

No entanto, comentou Lula da Silva, a corrupção não é um problema grave. “Acho que a corrupção tem um peso, mas não ao ponto de atrapalhar o crescimento da economia do Brasil”, atirou: “O que atrapalha mesmo o crescimento da economia do Brasil é que o Brasil nunca pensou efetivamente em se desenvolver. O Brasil contentou-se em ser o que é: um país para 35 milhões e o resto que sejam número. Todos os mecanismos de combate à corrupção foram feitos nos meus oito anos e nos quatro da Dilma. Tudo!”, termina.