“Lembram-se do que aconteceu da última vez que houve um blackout em Roma? Não houve luz durante umas horas e foi um drama. Agora imaginem o que é estar sem luz durante vários dias.” O cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro do Papa Francisco, não está arrependido do que fez nem da quantidade de nervos que causou a Matteo Salvini, número dois do executivo italiano e líder da aliança nacionalista Liga.

Na noite de sábado, o cardeal polaco visitou um edifício ocupado por 450 pessoas, entre as quais se contam italianos e estrangeiros. Há seis dias que os habitantes do prédio do número 55 da Via di Santa Croce in Gerusalemme, em Roma, viviam sem eletricidade, depois de as autoridades a terem cortado por falta de pagamento. A fatura em atraso somava um total de 300 mil euros, de contas não pagas desde 2013.

Krajewski não hesitou. Quebrou o selo do contador de eletricidade deixado pelas autoridades e repôs a luz no edifício. Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana e que já criticou o Papa em diversas ocasiões, foi rápido a atacar o cardeal polaco.

Bannon aconselhou líder da extrema-direita italiana Matteo Salvini a atacar o “inimigo” Papa Francisco

“Espero que o esmoleiro do Papa, que interveio para voltar a ligar a luz num prédio de Roma, pague a conta de 300 mil euros”, disse, citado pelo La Repubblica, o também ministro do Interior italiano durante um comício em Bra, província de Cuneo.

Estou a pensar em todos vocês que fazem sacrifícios para pagar as contas”, disse Salvini, dirigindo-se aos presentes. “Fico feliz de saber que há alguém capaz de pagar as contas de todos os italianos em dificuldades.”

O político nacionalista sugeriu ainda que se o Vaticano pretende ajudar os italianos em dificuldades só tem de avisá-lo para que envie o número de uma conta bancária para o pagamento dessas contas.

“Agora que a luz foi restabelecida, vou pagar, não há problema”, disse Krajewski ao Corriere della Serra. “Aliás, também posso pagar as contas dele”, disse, rindo, referindo-se a Salvini. O cardeal polaco sublinhou ainda que não quer transformar o sucedido numa questão política e que o que estava ali em causa eram direitos humanos, não se tratando de uma questão de dinheiro.

“Foi um gesto desesperado. Estavam ali mais de 400 pessoas sem eletricidade, famílias com crianças sem a possibilidade de ter os seus frigoríficos a trabalhar”, sublinhou o esmoleiro do Papa, lembrando que naquele edifício se encontram cerca de 100 crianças. “O absurdo é que estamos no centro de Roma e são quase 500 pessoas abandonadas. São famílias que não têm para onde ir, pessoas que lutam para sobreviver”, acrescentou Krajewski.

Esta quarta-feira foi a vez do cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano, criticar o vice-primeiro-ministro italiano. Falando na Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, lembrou a polémica que se criou em torno do ato de Krajewski, dizendo que pessoalmente achava que as pessoas “se deveriam esforçar em compreender o sentido deste gesto, que é chamar a atenção de todos sobre um problema real que afeta as pessoas, as crianças e os idosos”.

Quanto ao pagamento de contas dos necessitados, sugerido por Salvini, Parolin foi direto ao assunto: “A Igreja já o faz, ajuda todos.”