Árabes, chineses ou russos, cabem quase todas línguas na estante dedicada à coleção de livros d’O Principezinho em casa de Carla Queirós, antiga professora de comunicação e atual adjunta de vereador nos pelouros Coesão Social, Educação e Habitação na Câmara Municipal do Porto. Leu pela primeira vez o conto do francês Antoine de Saint-Exupéry aos 17 anos, hoje tem 49 e já perdeu a conta às vezes que o leu aos filhos. Não foi a história do pequeno príncipe que chamou mais a atenção de Carla, mas sim as ilustrações. “Eu nunca tive jeito para o desenho, mas encanta-me as ilustrações do livro porque têm uma beleza quase infantil e variam em cada edição”, diz em entrevista ao Observador.

Se lhe faltava a mão para o desenho, o bichinho do colecionismo despertava em miúda. Além das dezenas de borrachas guardas, foram os livros que ocuparam mais espaço em sua casa e, consequentemente, no coração. Começou a coleção de exemplares d’O Principezinho há duas décadas “de uma forma descomprometida e completamente espontânea”. “Isto não é uma obsessão”, faz questão de esclarecer. Da troca de livros com o atual marido às ofertas de amigos, tudo acontece por acaso. “Quando vou almoçar fora entro numa livraria e pergunto se tem alguma coisa, sempre que vou viajar trago um livro como recordação e muitos foram-me oferecidos por amigos que já conhecem este meu gosto.” Ter uma dedicatória com o ano e o local de quem oferece o livro é um requisito básico.

Não é difícil encontrar “O Principezinho” nos quatro cantos do globo, afinal é o terceiro livro mais traduzido do mundo com mais de 160 idiomas, o primeiro foi lançado em 1943 nos Estados Unidos. Rússia, Roménia, República Checa, Itália, China, Austrália ou Itália são apenas algumas nacionalidades representadas na sua coleção “sempre inacabada”. “Tenho um exemplar do Cazaquistão a preto e branco e um de Buenos Aires em que o protagonista é totalmente diferente do que o conhecemos”, conta.

Na estante de Carla é possível encontrar centenas de livros portugueses, pois “basta terem um pormenor diferente para valer a pena” adquirir. Um prefácio do escritor Valter Hugo Mãe ou ser de uma edição ou editora especial é o suficiente para o levar para casa. Entre os 110 livros guardados há edições pop-up, com construções em origami no interior, e verdadeiros achados por 1€ em alfarrabistas da cidade.

A antiga professora reconhece que o conto está repleto de mensagens importantes e inspiradoras, onde as ilustrações ajudam a complementar a história e, também por isso, faz questão de oferecer a bebés de amigos e familiares com a intenção de ser o primeiro livro da sua biblioteca pessoal. Não se importa de os emprestar, fá-lo com orgulho e entusiasmo, mas garante que “nenhum está à venda”.

Este mês decidiu partilhar na internet a sua coleção, publicando uma página de um livro por dia. O feedback tem sido positivo e até já foi desafiada para fazer uma exposição no Porto. Sendo um livro e intemporal e capaz de abranger várias gerações, Carla acredita que “podia ser algo bastante interessante”. Adianta que “para já” nada está fechado, por isso, resta-nos ler e esperar.