“O Europeu foi indescritível – um feito do qual me vou orgulhar por muito, muito tempo. Pensava que esse torneio me tinha preparado para toda a pressão da Bundesliga. Pensava que estava pronto mas não estava. Em Portugal, eu corria, corria e corria porque tinha capacidade técnica e conseguia disfarçar qualquer fadiga; na Alemanha, podemos correr mas o jogo é tão rápido que tem de ser coordenado de outra forma mas não seres apanhado fora da posição. A minha primeira época não foi a ideal. Ouvia as pessoas dizerem que era um flop, um embuste”, escreveu em março Renato Sanches, no The Players’ Tribune.

O jantar a 4 de dezembro de 2015 onde Renato Sanches percebeu que a sua vida tinha mudado

Depois de seis meses a todo o gás no Benfica em 2015/16 onde se tornou a grande figura dos encarnados de Rui Vitória no triunfo que deu então o tricampeonato ao clube, o médio transferiu-se com apenas 18 anos (a fazer os 19 em agosto) para o Bayern. Em Munique. Na Alemanha. Para um miúdo que há menos de um ano andava em jogos da Segunda Liga na equipa B. A primeira época na Baviera ainda permitiu ao jogador realizar 25 encontros mas, ainda assim, o elevado valor da sua transferência acabou sempre por retirar a natural margem de paciência para se adaptar a uma nova realidade com características muito próprias. Na temporada seguinte, sem jogar, foi por empréstimo para o Swansea; em 2018, voltou aos germânicos.

“O meu pai tinha algo que me costumava dizer: ‘Tu és um guerreiro. Um guerreiro nunca desiste. Um guerreiro vai à guerra mesmo que pense que vai perder’. No último verão, comecei a reencontrar o meu jogo. Queria ganhar a Bola de Ouro, queria ganhar todas as medalhas e troféus. Ainda tenho todas essas ambições mas vêm atrás dos meus novos sonhos. Quero estar em grande forma, jogar mais minutos, ouvir as pessoas dizerem ‘Este é o Renato que contratámos’. Com o tempo, vou lá chegar. A minha viagem não tem sido simples mas não acabou”, assumiu o internacional português. Mais uma vez, a vontade era muita mas nem a mudança de treinador (entrou Niko Kovac) alterou muito o cenário, com o médio a realizar apenas 13 minutos nos últimos dois meses num total de 23 jogos e um golo (na Liga dos Campeões e contra o Benfica, na Luz). No entanto, este sábado era mesmo dia de Renato Sanches e tudo correu bem ao antigo médio dos encarnados.

Renato Sanches: o bom “chavalo” que à Musgueira torna

Aproveitando a lesão de Goretzka ainda na primeira parte, o português entrou aos 37′ quando o Bayern vencia por 1-0 (golo de Coman logo a abrir) e teve um papel determinante no triunfo com goleada que selou a sétima vitória consecutiva na Bundesliga, apontando o terceiro golo dos bávaros já depois de Haller ter empatado (50′) e Alaba ter colocado de novo o conjunto de Munique na frente. Desta forma, Renato conseguiu não só um feito histórico no Campeonato alemão tornando-se o primeiro português a vencer por duas vezes a prova mas também quebrou um longo jejum de golos em encontros a contar para a Primeira Divisão que já se prolongava desde 2 de janeiro de 2016, quando marcou o único golo da vitória do Benfica em Guimarães.

Mas esta foi mesmo uma tarde de sonho na Allianz Arena, onde todos os sonhos se transformaram em realidade: Frank Ribery e Arjen Robben, jogadores que passaram várias temporadas no Bayern e que irão sair no final da época (haverá ainda a final da Taça da Alemanha, com o RB Leipzig), entraram no decorrer da segunda parte e ainda foram a tempo de marcar cada um o seu golo com festejos que se estenderam do campo às bancadas perante o simbolismo de cada um daqueles momentos.

Desta forma, o Bayern, que andou várias jornadas afastado do primeiro lugar, confirmou a recuperação na Bundesliga e sagrou-se campeão com 78 pontos, mais dois do que o B. Dortmund que venceu esta tarde o B. Mönchengladbach por 2-0. Ainda assim, e de forma inevitável, todas as atenções estiveram centradas em Ribery e Robben, os heróis de uma tarde onde Renato Sanches voltou a ser feliz e provou que, aos 21 anos, ainda agora está a começar uma carreira longa no futebol europeu.