O antigo primeiro-ministro José Sócrates considera que a Europa foi alvo de “um vendaval” que mudou a sua cultura política, que já nada pode ser dado como certo e que nas eleições europeias a escolha decisiva é entre colaboração ou isolamento da extrema direita. Estas posições são defendidas por José Sócrates num artigo sobre as eleições para o Parlamento Europeu que publicou na revista semanal brasileira “Carta Capital” e ao qual a agência Lusa teve acesso.

Neste artigo, intitulado “Uma chance para a Europa”, sem qualquer referência à política portuguesa, o antigo líder socialista (2004/2011) adverte que a experiência dos últimos anos da União Europeia mostrou que nada já pode ser dado como certo e que a crise financeira (em que culpa a resposta da direita) “e a tragédia” dos refugiados “não foram uma pequena coisa, uma pequena troca de um pouco menos de liberdade por um pouco mais de segurança”.

Juntos representaram um vendaval político na confiança e uma séria mudança na cultura política europeia. Nestas eleições, novas escolhas serão feitas e começam logo na noite eleitoral [do próximo dia 26]: a política europeia dirá o que fazer com a extrema direita — colaboração ou isolamento. Isso marcará o rumo e a escolha entre as duas faces da nossa história — o continente das luzes ou o continente das trevas. A Europa tem a sua segunda oportunidade”, sustenta

Na perspetiva de José Sócrates, a União Europeia “desempenhou uma função importante no mundo — a voz da paz, a voz da cultura humanista, a voz da ordem mundial que procura legitimidade no direito e vai além da relação de forças”, mas, “de repente, esse espaço ficou vago e esse capital político foi deitado fora”.

“Subitamente, todo o discurso político europeu mudou — a linguagem, as prioridades, até os princípios fundadores parecem esquecidos. Deixámos de falar do modelo social europeu, a coesão desapareceu como objetivo da união e, pior, muito pior, a liberdade individual foi sendo substituída pela ideia de segurança coletiva”, critica. “O ideal do fim das fronteiras internas”, segundo o líder do executivo português entre 2005 e 2011, “parece ter acabado”.

“O direito internacional é agora discutível; os direitos individuais deixam de ser um absoluto para entrar na relatividade da contingência política e do interesse nacional. Este é o vento que sopra — sem nada nem ninguém que se lhe oponha”, aponta o antigo primeiro-ministro. Para José Sócrates, “o que está a acontecer não é uma simples mudança política, mas uma profunda mudança de cultura política”.

“O poder moderador e arbitral da Europa para quem muita gente se virava em tempos de aflição deixou de se ouvir”, escreve, antes de se interrogar “quando é que tudo isto começou?”. “Sim, a crise económica ajudou (mais propriamente a austeridade como resposta à crise), mas, na verdade, a mudança já vinha de antes. A guerra do Iraque e a crise dos refugiados aceleraram o movimento. A Europa humanista, a ideia de uma Europa fiel ao direito internacional, soçobrou. E justamente no momento em que o mundo mais dela precisava”, defende.

Na opinião do antigo primeiro-ministro, as principais questões políticas da Europa remetem para o “antigo dilema: depois de séculos de domínio, qual é afinal o seu papel no mundo — simples testa de ponte da superpotência americana na Eurásia ou bloco político aliado com identidade e voz própria”.

“Se a escolha é pela segunda, então o contributo da Europa para a ordem internacional não pode ser outro que a projeção no mundo do melhor da sua história: o universalismo dos direitos humanos e a defesa do direito internacional, constituindo-se assim como ator político moderador do seu aliado transatlântico (mais necessário que nunca). Por várias vezes esse papel mostrou os seus limites, é certo, mas também é certo que em muitas ocasiões essa duplicidade de papéis provou ser benéfica e produtiva à estabilidade mundial”, acrescenta.

Ou seja, acentua José Sócrates, “se a Europa quer ter uma presença autónoma na política internacional então necessita de recuperar o prestígio e autoridade que já teve nos assuntos políticos que fizeram de si uma voz singular no mundo — a defesa dos direitos humanos e do direito internacional”.

“Como parece óbvio isso trás consigo, igualmente, uma imperiosa alternativa de rumo na sua política interna: recusar o crescente autoritarismo estatal; rejeitar a limitação de direitos individuais; e restabelecer a ideia de direito como limitador do poder do Estado”, salienta neste seu artigo