Chipre

Chipre, a ilha dividida onde predominam os nacionalismos étnicos

Chipre enfrenta as eleições europeias em clima de agravamento das relações com a Turquia e abalada por uma crise política interna motivada pela revelação de crimes em série.

Ana Freitas/LUSA

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  • Agência Lusa
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Chipre enfrenta as eleições europeias em clima de agravamento das relações com a Turquia e abalada por uma crise política interna motivada pela revelação de crimes em série, e quando as perspetivas de reunificação da ilha permanecem remotas.

A descoberta nos últimos anos de importantes jazidas de gás no Mediterrâneo Oriental estimulou os apetites dos países da região e das grandes empresas. O Governo de Chipre, a parte grega da ilha, assinou contratos de exploração com gigantes dos hidrocarbonetos (Eni, Total, ExxonMobil), mas a Turquia opõe-se a qualquer atividade de exploração que exclua a República Turca de Chipre do Norte (RTCN, um terço do território e apenas reconhecida por Ancara).

No início de maio, a Turquia rejeitou avisos dos Estados Unidos e da União Europeia para que abandone os seus projetos de início de atividades exploratórias na “zona económica exclusiva” de Chipre, enquanto Nicósia tem reforçado os acordos bilaterais nesta área com os seus vizinhos do leste, Israel e Líbano.

A Turquia também anunciou em meados de maio “o maior exercício” da sua Marinha de guerra nos três mares que rodeiam o país, e no contexto das tensões em torno da exploração dos hidrocarbonetos ao largo da ilha dividida.

Em paralelo, e com uma economia ainda muito dependente do turismo, as revelações sobre a morte de sete mulheres e raparigas estrangeiras, atribuídas a um militar cipriota grego, implicou a demissão do chefe da polícia e do ministro da Justiça, num caso em que as autoridades foram acusadas de não investigarem de forma séria o desaparecimento de imigrantes, numa ilha dividida e onde ainda se confrontam dois nacionalismos irredentistas.

A República de Chipre, dois terços do território, atualmente com cerca de 850.000 habitantes onde predomina a população de origem grega cristã ortodoxa e as minorias arménia e maronita, foi fundada em 1960 após a sua libertação da ocupação britânica, mas a ilha apenas esteve unida de facto durante três anos, quando se iniciaram os conflitos entre as duas principais comunidades, num território onde predomina a população de origem grega.

Em 1974, a tentativa de Enosis (união à Grécia) implicou a divisão na ilha na sequência da invasão militar da Turquia, dolorosas trocas de populações e a ocupação da parte norte, onde nove anos depois será criada RTCN, habitada pelos cipriotas turcos de religião muçulmana (perto de 300 mil habitantes) e apoiada pela Turquia a nível militar, económico, demográfico e diplomático.

O progressivo afastamento das duas comunidades tentou ser contrariado pelo Presidente cipriota grego Dimitri Christofias (do comunista AKEL) entre 2008 e 2013 e Mehmet Ali Talat, social-democrata e líder do lado turco entre 2005 e 2010.

Mas o nacionalismo prevaleceu — o referendo em abril 2004 sobre o plano da ONU para a reunificação foi apenas aprovado pela parte turca poucos dias antes da adesão da República de Chipre à UE –, e o lado grego comprovou ainda não estar preparado para uma solução.

Assim, o atual Presidente de direita Nicos Anastasiades, que batalhou pelo “sim” em 2004, também evitou concluir um acordo nas conversações de Crans-Montana em julho de 2017.

Os nacionalismos continuam a impregnar a igreja, as forças armadas, os ‘media’, as escolas. E na parte grega, a igreja ortodoxa não esconde as suas simpatias pela Frente Popular Nacional (ELAM), o partido de extrema-direita que elegeu dois deputados nas legislativas de 2016. Nas presidenciais de 2018 o seu líder Christos Christou obteve 5,65%, contra os 0,88% obtidos em 2013.

Nesse ano, e devido à crise do sistema financeiro, o Governo de Chipre aceitou um memorando proposto pela “troika” de credores. E o ELAM desencadeou de imediato, à semelhança dos congéneres da Aurora Dourada na Grécia, um programa de apoio social aos mais desfavorecidos. No entanto, parte da sua força vem dos estádios de futebol, quando iniciou o recrutamento entre as claques do APOEL de Nicósia.

Nas eleições europeias de 26 de maio, Chipre elege seis eurodeputados. E os ultranacionalistas acreditam que vão entrar no Parlamento europeu, após algumas sondagens lhes atribuírem 11%.

Apesar de o voto ser obrigatório em teoria, a taxa de participação é geralmente baixa (43,97% em 2014). Mas a República de Chipre prevalece um país decididamente pró-europeu e por um motivo particular: a adesão em 2004 confirmou que Chipre faz “parte do ocidente”, distinguindo-o dos vizinhos do leste ou dos “irmãos-inimigos” do norte. Se a UE não constitui a solução para “questão cipriota”, surge pelo menos como uma proteção face à Turquia.

Assim, a União Democrática (DISY), o partido de direita do Presidente Anastasiades, e o Partido Democrático (DICO, centro-direita), conseguiram com a ajuda dos media convencer os eleitores sobre as vantagens do memorando. E mesmo o AKEL defendeu a construção europeia, perante os ataques eurofóbicos da extrema-direita cipriota e europeia.

O único fator inovador neste escrutino poderá ser a eleição de um cipriota-turco, incluído na lista do principal partido da oposição cipriota-grego e em boa posição para ocupar um lugar de eurodeputado.

Os cipriotas turcos que podem apresentar-se ou votar nas eleições europeias têm de deslocar-se à parte sul da ilha para a campanha.

Niyazi Kizilyurek, professor na Universidade de Chipre em Nicósia, concorre no escrutínio nas listas do AKEL (elegeu dois eurodeputados em 2014), e espera obter votos das duas principais comunidades.

Num país onde a abstenção atingiu 56% nas últimas europeias em 2014, prevalece a aplicação do voto obrigatório que, no entanto, tem sido ignorado por parte considerável da população. E o resultado do ELAM permanece uma das principais incógnitas para o escrutínio de 26 de maio.

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