Corrupção, lavagem de dinheiro e crise de refugiados dominam a campanha em Malta, com uma questão em particular no centro do debate político: a divulgação do inquérito ao assassínio da jornalista Daphne Caruana Galizia, em 2017.

A 16 de outubro de 2017, uma bomba colocada no automóvel matou a jornalista e pôs fim às investigações que há vários anos publicava sobre corrupção e lavagem de dinheiro por destacados dirigentes políticos, designadamente em relação aos chamados ‘vistos gold’, que em Malta correspondem a uma compra direta de cidadania.

Depois de numerosos apelos, o governo socialista do primeiro-ministro Joseph Muscat aceitou em 2018 ordenar um inquérito às circunstâncias da morte de Caruana Galizia e foi esse inquérito, conhecido como ‘Relatório Egrant’, que entrou na campanha para as europeias depois de um tribunal recusar o pedido do líder do Partido Nacionalista (PN, oposição), Adrian Delia, para a sua completa divulgação.

A oposição acusa Muscat, que recebeu da justiça o relatório integral, de bloquear a divulgação, mas o primeiro-ministro assegura que quer publicá-lo e não o faz porque enfrenta a oposição da Procuradoria-Geral, que alega que o documento contém nomes e pormenores sobre testemunhas que não devem ser tornados públicos.

A questão é tanto mais sensível quanto, segundo a imprensa maltesa, o próprio primeiro-ministro é visado nas investigações de Caruana Galizia, assim como a mulher, Michelle, que será a beneficiária da misteriosa empresa Egrant, com sede no Panamá, destino de pagamentos ilícitos a Muscat e a colaboradores próximos.

Malta tem sido criticada pela deficiente separação de poderes, ausência de mecanismos do controlo no sistema político e mau funcionamento da justiça, aspetos que dificultam o combate à corrupção num país que a organização não-governamental Transparência Internacional coloca no 54.º lugar do índice global de corrupção (Portugal está no 30.º).

O tema dos refugiados e migrantes é também dominante no país, que é com Itália e Espanha uma das principais portas de entrada na Europa dos milhares que atravessam o Mediterrâneo.

Malta, que conta cerca de 400 mil habitantes, recebeu em 2018 mais de mil migrantes, mas em vários casos tem recusado autorizar a acostagem de navios de organizações de resgate até à conclusão de acordos, caso a caso, com outros países da União Europeia (UE) que aceitem acolhê-los.

A política de Malta é dominada por dois grandes partidos, os já citados Partido Trabalhista (PL, social-democracia) e Partido Nacionalista (PN, democracia-cristã), apesar de o sistema político favorecer o multipartidarismo ao assentar no voto único transferível, segundo o qual o eleitor vota num candidato, indicando de seguida, por ordem de preferência, os candidatos para quem deverá ser transferido o voto caso aquele que designou em primeiro lugar já esteja eleito ou tenha sido eliminado.

Nestas eleições europeias, o PL lidera destacado as sondagens, com 57% e a eleição de quatro eurodeputados, e o PN reúne 38% das intenções de voto, que lhe permitem eleger dois eurodeputados.

Outros três partidos — Alternativa Democrática (ecologista), Imperium Europa (extrema-direita) e Partido Democrático (centro-esquerda) — ficam aquém dos 2% das intenções de voto, o que os impede de eleger qualquer eurodeputado.

O país é, na UE, o que tem registado uma participação eleitoral mais elevada, se não forem tidos em conta os países em que o voto é obrigatório, e 75% dos eleitores malteses votaram nas anteriores europeias, em 2014.

Malta vota a 25 de maio e elege seis dos 751 deputados do Parlamento Europeu.