O nome de Meng Wanzhou pode ser desconhecido para alguns, mas nos últimos tempos tem sido uma das pessoas mais colocadas no meio da “guerra fria tecnológica” entre Estados Unidos e a China. É que Wanzhou é a diretora financeira da Huawei — uma das empresas que Donald Trump colocou numa espécie de “lista negra” e que nos últimos dias viu gigantes tecnológicos como a Google suspenderem todos os seus negócios com a empresa. Mas o caso não fica por aqui: talvez o nome de Wanzhou seja menos estranho quando recordamos a sua detenção no ano passado em Vancouver, no Canadá, depois de um pedido de extradição dos EUA e que lançou o descontentamento em Pequim.

Sendo a Huawei uma das maiores multinacionais chinesas — presente em 170 países e com mais de 180 mil funcionários –, Ren Zhengfei, o fundador da empresa, é uma espécie de intocável na China, conta o El País. Meng Wanzhou, de 46 anos, é a sua filha, mas pouco se sabe sobre ela, uma vez que a política dos funcionários da Huawei é muito pouco aberta à comunicação social e raras são as vezes em que falam publicamente.

“Profissional” e “discreta”. É assim que a diretora financeira da empresa, citada pelo El País, é descrita por quem a conhece, apesar de todas as polémicas que têm surgido nos últimos tempos. Nascida em 1972, na província de Chengdu, aos 16 anos Meng decidiu adotar o apelido da sua mãe, filha de um alto funcionário do Partido Comunista daquela região. Nos anos 80, mudou-se com a sua família para Shenzhen, uma província constituída maioritariamente por pescadores. Foi lá que o seu pai, em 1988, fundou a Huawei.

Meng começou por ser rececionista na empresa do pai, em 1993. Mas só depois de tirar um mestrado em contabilidade na Universidade de Ciências e Tecnologias de Huazhong é que conseguiu chegar ao departamento das finanças da empresa. Em 2011, passou a diretora financeira da Huawei e em Março do ano passado deu aquele que é visto como o grande passo em direção à sucessão do seu pai, de 74 anos: foi nomeada vice-presidente da empresa. Nesse mesmo ano, foi escolhida pela revista Forbes como uma das empresárias chinesas mais bem sucedidas.

Casada com o empresário Liu Xiao e com quatro filhos, Meng Wanzhou vive no Canadá desde 2009, ano em que conseguiu uma autorização de residência. É lá que mantém duas propriedades de luxo avaliadas em 10,6 milhões e 3,7 milhões de euros. Mas é lá também que agora vê o “furacão” chegar.

A detenção e o estalar da “guerra fria tecnológica”

Em dezembro de 2018, Wanzhou Meng foi detida em Vancouver depois de Washington ter pedido a sua extradição. O motivo? A diretora financeira da Huawei, segundo as autoridades norte-americanas, terá violado as sanções impostas pelas pelos Estados Unidos ao Irão ao alegadamente enviar para esse país produtos que foram fabricados nos Estados Unidos.

Depois da detenção, rapidamente os representantes chineses no Canadá exigiram a libertação imediata de Meng, afirmando que a China “se opõe com firmeza e protesta com energia” a detenção “que prejudicou gravemente os direitos da vítima”. A detenção de Meng é o símbolo mais visível de como decorre a guerra aberta entre as duas super potências pelo controlo do universo tecnológico nos próximos anos.

Do outro lado da barricada, Washington lançou uma vasta campanha junto de países aliados para dissuadir as suas empresas de telecomunicações de usarem equipamentos do grupo chinês por poderem dar a Pequim acesso a informações sensíveis, segundo a imprensa norte-americana. A Huawei continua a defender a sua independência e afirma que nunca usou o seu equipamento para espiar ou sabotar as comunicações nos países onde este é usado.

Após comparecer a um juiz, Meng foi acusada de fraude e ficou em liberdade condicional, depois de pagar uma fiança de 10 milhões de dólares canadianos, o equivalente a cerca de 6,6 milhões de euros. Agora, a empresária tem de utilizar uma pulseira eletrónica no pé e pagar, do seu próprio bolso, a uma empresa de segurança privada — composta por ex-polícias e ex-militares — que garanta que ela não sai da sua casa em Vancouver (uma das duas habitações de luxo) sem autorização judicial.

Mas a vice-presidente da Huawei não ficou isolada do mundo. No início deste mês, chegou até a enviar uma carta aos mais de 180 mil funcionários da empresa de telecomunicações, onde agradeceu o apoio contínuo que foi recebendo durante estes momentos, naquele que foi o primeiro comentário público que fez depois da sua detenção.

Nos últimos meses, muitas pessoas da Huawei — as que eu conheço e as que não conheço — continuaram a preocupar-se com a minha segurança e deixaram mensagens para mim através da comunidade [a Huewei Online] e isso abençoou-me e animou-me, tocando o meu coração de uma forma indescritível”, começou por escrever Meng, citada pela South China Morning Post.

Meng referiu ainda que ficou emocionada com a atitude dos seus funcionários, especialmente com aqueles que ficaram acordados toda a noite para conhecer as decisões do tribunal. “Embora as minhas atividades em Vancouver tenham sido limitadas nos últimos dias, a cor e o mundo do meu coração têm enriquecido e ampliado sem precedentes”, sublinhou ainda.

Enquanto esta “guerra fria” continua, a administração dos Estados Unidos anunciou que vai permitir que durante os próximos três meses a Huawei ainda possa atualizar componentes e programas informáticos norte-americanos nos aparelhos que já tenham sido vendidos. O fundador da empresa alertou, entretanto, que os norte-americanos estão a subestimar a força do gigante tecnológico chinês e que é inevitável que haja conflito para chegar ao “topo do mundo”.