Nuno Melo tem repetido vezes sem conta o apelo ao voto dos eleitores de “direita”, dizendo que o CDS não tem medo de se assumir como “partido da direita”, e não do centro. Assunção Cristas, por sua vez, diz, como disse esta terça-feira, que o CDS está onde sempre esteve: “No centro e na direita democrática”. A estas duas designações, Paulo Portas, no topo honorário da hierarquia, ainda veio juntar uma outra, mais global, a pisar os calcanhares ao eleitorado do PSD: a família política “não-socialista”. De uma maneira ou de outra, Paulo Portas apareceu esta terça-feira na campanha centrista para dar uma ajuda no apelo ao voto, agora que faltam apenas cinco dias para as eleições. E é um apelo ao voto de todos os eleitores que se encontrem algures entre a direita e o espaço não-socialista, deixando de fora os “populismos, nacionalismos e extremismos”. Ou seja, um apelo aos eleitores que também são do centro, que também são do PSD.

Foi assim que o ex-líder do CDS se apresentou esta terça-feira, num mega-jantar da campanha em Cascais — o maior já realizado nestas semanas de estrada –, a pedir que o “senso comum prevaleça sobre as utopias” porque “nunca a prosperidade de uma nação se construiu com as esquerdas radicais”. Paulo Portas até já votou — recorreu ao voto antecipado, no domingo passado. Por isso, Nuno Melo e Pedro Mota Soares, alegrem-se, “já têm o meu voto”, disse.

O ex-líder do CDS tinha prometido duas coisas quando se afastou da liderança: “Não condicionar a nova líder, porque todos os presidentes precisam de liberdade”, e “não se esquivar a dizer ‘presente’ em tempo de eleições”. “É por isso que estou aqui convosco, e com gosto”, disse assim que subiu ao palco do Mercado da Vila de Cascais. Num discurso de pouco mais de 20 minutos (tempo recorde para o líder que era conhecido por se alongar nas palavras), Paulo Portas atacou os extremos e remeteu para o CDS a moderação. “No ADN dos conservadores está uma inata rejeição do caos e uma natural inclinação para a ordem”, disse, apontando baterias aos partidos da esquerdas em Portugal.

“O país padece de um desequilíbrio excessivo a favor das esquerdas mais radicais, e nunca a prosperidade de uma nação se construiu com essas forças radicais”, disse ainda. Por isso, acrescentou, “a moderação tem de ficar à frente da demagogia, e o senso comum tem de prevalecer sobre as utopias — esse seria um muito bom sinal que Portugal daria à Europa”.

No resto dos seus 22 minutos de comício, Portas entrou na fase que descreveu como “meditações” sobre a Europa, nomeadamente sobre a falta de liderança na União Europeia (que só o comprometem a ele, não ao partido), mas “voltou” a Portugal para concordar com Assunção Cristas na ideia de que “cativações e impostos são o novo nome da austeridade”.

Portas repetiu ainda o que confessou dizer aos seus “amigos socialistas”, depois de elogiar a conversão do PS à ideia de controlo das contas públicas: “Quem não quer depender dos FMIs da vida, de acertos e de erros, não endivida o país loucamente”, disse. Já sobre a Europa, o líder de 16 anos do CDS alinhou também no discurso do combate aos populismos, à esquerda e à direita, e atribuiu culpas aos moderados na Europa, por, na crise dos migrantes, terem deixado “Itália sozinha”, e agora se queixarem dos “populismos em Itália”.

Cristas acusa Costa de querer a presidência do Conselho Europeu para “não ter de reparar estragos de quatro anos”

Antes de Paulo Portas, Assunção Cristas tinha feito um discurso muito duro contra António Costa, que acusa de “pôr o interesse do país em segundo plano” para cumprir as suas aspirações de ser eleito presidente do Conselho Europeu. “E para quê? Para não ter de reparar os estragos de quatro anos de governação adiada”. Porque a António Costa, disse, “só lhe interessa a sua própria vida, e a sua própria carreira”. “António Costa não serve Portugal, serve-se de Portugal”.

Para a líder do CDS, António Costa “colocou o país entre parênteses quando perdeu eleições e se associou à esquerda para governar, sem olhar a condições”, e prepara-se para voltar a fazer o mesmo com os olhos postos na sua própria carreira. “Os olhos de António Costa já não estão cá, já não lhe interessa o país, a sua ambição cega fala mais alto colocando o interesse do país em segundo plano e pondo agora o foco na na presidência do Conselho Europeu“, disse, sugerindo que se olhasse para o périplo que o primeiro-ministro fez esta semana por vários países europeus. “Está em campanha, em campanha à custa de todos nós, e para ser presidente do Conselho Europeu”, disse.

É por essas e por outras que Assunção Cristas diz que a posição do CDS é “cristalina”: “Seremos sempre, mas sempre, oposição a este PS de António Costa”. Tanto nas europeias como nas legislativas. “Um voto no CDS, agora e nas legislativas, nçao servirá nunca para apoiar um governo de António Costa. E somos os únicos que o dizemos, com frontalidade e sem medo”. Recado dado para o PSD.