Não deve haver vilão pior e mais ridículo em toda a história dos filmes da Disney, sejam de animação, sejam de imagem real, do que o vizir Jafar desta nova versão de “Aladino” com actores e efeitos digitais e realizada por Guy Ritchie, que sucede à animação de 1992. Nem nos momentos em que, com a ajuda dos computadores e da banda sonora, a personagem é supostamente mais sinistra, o actor Marwan Kenzari deixa de parecer um “hipster” lingrinhas suburbano, que decidiu abrir um tasco vegetariano lá no bairro social, para aproveitar a moda da comida saudável. Não é que do lado dos heróis o panorama seja melhor. O egípcio Mena Massoud, escolhido para interpretar Aladino, é um canastrão de bolso, para além de um pãozinho sem pinga de sal nem de presença na tela. Até o tigre Rajá e o macaco Abu – ambos digitais – vão melhor que eles.

[Veja o “trailer” de “Aladdin”]

Quase tudo o que o “Aladdin” animado de Ron Clements e John Musker estreado há quase 30 anos, e hoje um clássico do género, tinha de bom, este “Aladdin” com gente de carne e osso e muito “software” por trás recria mal. E o que lhe acrescenta de novo é ditado pela agenda politicamente correta e feminista. A Agrabah original, referida como “bárbara” e um lugar onde se cortam cabeças, é agora um alegre ponto de encontro de culturas e etnias de todo o globo; e a princesa Jasmine (Naomi Scott, uma cara bonita com boa voz) foi injectada com “girl power” e, mais do que querer casar com um príncipe e ser feliz, pretende suceder ao pai, o velho e bondoso sultão, e governar Agrabah. O filme até lhe dá uma canção extra (a oscarizada banda sonora original de Alan Menken está, no resto, intacta) para ela afirmar as suas intenções de estadista. Mas a canção é banal e Ritchie é piroso a filmar a sequência.

[Veja Will Smith entrevistar Naomi Scott e Mena Massoud]

E há ainda o Génio da Lâmpada, que no filme animado de Clements e Musker tinha o aspeto, a voz e a personalidade frenética do desaparecido Robin Williams, que disparava piadas, à partes e trocadilhos com mais velocidade do que nós nos conseguíamos rir deles. Will Smith tem a tarefa ingratíssima de lhe suceder, e apesar de lhe devermos os poucos bons momentos do filme, ele não tem a capacidade cómica, o virtuosismo vocal ou um argumento decente para chegar aos calcanhares de Williams. E Smith ainda por cima é vítima de um dos maiores problemas de “Aladdin”: os efeitos digitais mal acabados, que em vez de suspenderem a descrença do espectador e contribuírem para o clima mágico e maravilhoso do filme, estão sempre a mostrar as costuras e a denunciar o artifício.

[Veja imagens da rodagem]

Guy Ritchie foi recentemente responsável por um dos maiores crimes de lesa-mitologia arturiana de que há memória, em “Rei Artur: A Lenda da Espada”, e filma aqui com mão mole, câmara prosaica, desleixo narrativo, espalhafato ou pés de chumbo (vejam-se as sequências musicais “bollywoodescas” da festa em honra do príncipe Ali, e da apoteose final, ambas de uma banalidade mecânica), e com escassa capacidade de deslumbramento e de fantasia, escudando-se invariavelmente nos imperfeitos efeitos especiais para a tentar conseguir. “Aladdin” devia ser uma viagem empolgante, cómica e maravilhosa num tapete voador, mas o tapete raras vezes consegue levantar voo. E quando o faz, começa a ratear ao fim de dois ou três minutos e volta ao chão.

Não há herói, canção, efeito especial, lâmpada mágica, pirueta de tapete encantado, modernice ideológica ou génio azul e jovial que valha a este novo “Aladdin”. A Disney produziu um desastre das Arábias.