A caravana do Bloco de Esquerda chegou ao Incrível Almadense pouco antes das 22h00. Por essa hora, a poucos quilómetros, António Costa já tinha lançado duros ataques aos seus parceiros da atual solução de governo. Mas os bloquistas não estavam dispostos a reagir. Traziam os discursos preparados e nem mesmo os ataques dirigidos do alto da “geringonça” iam mudar uma vírgula nas intervenções. A tática assumida era clara: não responder às críticas de Costa, Pedro Marques ou Nuno Melo, que ao longo desta quarta-feira foram desferindo vários golpes no BE — na sequência dos discursos que Marisa Matias e Catarina Martins fizeram na terça-feira em Braga.

Para que não ficassem dúvidas, a eurodeputada pôs por palavras a estratégia que trazia: “Esta campanha eleitoral começou com muita gente a tentar fazer destas europeias a primeira volta das legislativas. Alegra-me que o BE tenha contribuído para fazer um debate de fundo sobre as europeias. Recusamos que não se discuta o projeto europeu”. A resposta possível estava dada. O tema da sua intervenção era outro.

O alvo de Marisa Matias era a banca. “Os bancos funcionam como máquinas de acumulação que favorecem as elites parasitárias deste país. Refiro-me às elites de sempre, que a cada ano têm usado o seu dinheiro como se fosse seu. Mas não é”. Nenhuma novidade, mas em tempos eleitorais nunca é demais fazer um pouco de doutrina para acordar plateias de comício.

Os argumentos iam colando. A candidata insistia: “Refiro-me a estas elites porque elas não têm direito à impunidade. Sempre que algo correu mal foi a nós que vieram buscar o dinheiro. Sempre foi assim e tem de deixar de ser assim”. Nova salva de aplausos. Reciclando alguns argumentos já utilizados na campanha, fez uma série de críticas à injustiça fiscal e às tendências de “Juncker, o santo padroeiro dos paraísos fiscais”.

Catarina Martins: “Quem vive na precariedade vive com medo”

Num palco redondo no meio da sala, com público em toda a volta, e quando o discurso se assemelhava a uma revisão da matéria dada sobre a posição do partido perante a banca, Marisa Matias puxou pelo único argumento em que falaria diretamente de adversários, voltando a animar as 250 pessoas que enchiam o auditório. “Foi apenas o Bloco que confrontou diretamente o PS, o PSD e o CDS sobre os seus planos obscuros para privatizar os sistemas de segurança social da UE. Queremos um sistema único, público, solidário. Não aceitamos que queiram usar o dinheiro dos pensionistas para pagar as fraudes do futuro”, proclamou.

Não se tratou de um discurso empolgante mas foi o suficiente para animar os apoiantes presentes no Incrível Almadense que já antes tinham ouvido Catarina Martins. Ao contrário do que tem feito ao longo da campanha, a líder do BE não foi a protagonista deste comício. Com um discurso menos galvanizador que o do costume e com algumas frases feitas, a coordenadora bloquista dedicou a sua intervenção a um único tema: precariedade.

Ainda assim, um dos soundbites da noite pertenceu precisamente a Catarina Martins, que contou com uma inesperada mas preciosa intervenção de um bebé para o completar da melhor maneira. “Quem vive na precariedade vive com medo”, disse a dada altura, fazendo silêncio a seguir. Um silêncio que foi quebrado por um bebé que, como se reagisse ao que a líder do BE acabara de anunciar sobre o seu futuro, choramingou naquele mesmo instante.