O dia é de calor, o ambiente jovem e descontraído e a disponibilidade para escutar políticos parece inversamente proporcional ao termómetro: baixa, muito baixa. Rui Tavares, o cabeça de lista do Livre às eleições europeias rapidamente percebe e pouco se demora a distribuir os panfletos do partido. Depois de um primeiro encontro com um grupo do Volt, o movimento pan-europeu que não vai a votos, e de uma breve troca de cumprimentos, os alvos passam a ser os grupos de amigos que se espalham ao longo dos relvados. A acompanhar o candidato menos de dez pessoas, com bandeiras do Livre nas mãos.

Mais uns passos, novo alvo: “Já que estão na fila…”, a frase serve para abrir espaço para entregar os panfletos a quem está na fila da roulotte das bebidas. Há muito que Lisboa não é só dos lisboetas, nem dos portugueses, e os turistas que vieram até Belém aproveitar o bom tempo e a música ouvem também a explicação de Rui Tavares sobre o partido: “Green left”, não descurando porém a parcimónia. Entrega um panfleto a uma turista alemã e pede-lhe que partilhe com os três amigos: “Temos que poupar, não temos muito dinheiro”.

No que diz respeito à campanha feita até aqui, Rui Tavares não poupa críticas aos principais partidos. Começa por apontar à falta de Europa nos discursos, termina nas políticas aprovadas e volta a dar o seu exemplo quando, em 2010, enquanto eurodeputado independente das listas do Bloco de Esquerda, criou bolsas de estudo financiadas pelo seu ordenado de deputado no Parlamento Europeu. O candidato procura porém distanciar-se do Bloco de Esquerda e cita a falta de clareza dos bloquistas em relação à saída do euro: “Já outros partidos que não sabem se vão ou não sair do euro…”.

“O ‘eurocontinuismo’ e o ‘eurocatastrofismo’ são diferenças retóricas, há pouco para mudar, ou muito, se rasgássemos os tratados”, diz criticando de uma tirada só os cinco partidos que estão na linha da frente das europeias. O candidato atira ainda àquilo que considera uma “impossibilidade auto imposta” ao “não tratar os cidadãos como adultos” no discurso das campanhas que “falam de casos” e são “uma espécie de aquecimento para as legislativas”.

Para Rui Tavares o objetivo é claro: “É possível operar uma revolução cidadã na União Europeia para que esta não seja uma amálgama de democracias, mas uma verdadeira democracia unitária” e lamenta a oportunidade perdida numas “eleições únicas” onde eleitores de 28 países diferentes são chamados a votar e a “decidir os seus legisladores”, aproveitando para reforçar que o partido defende que os membros do Conselho Europeu também deviam ser eleitos pelos cidadãos.

Questionado sobre se o discurso anti partidos no poder não é de algum modo populista, o candidato parece incomodado e é categórico: “O Livre é anti-populismo”. Rui Tavares acrescentou ainda que o populismo “foi contagioso país a país, mas também partido a partido”. O candidato falou ainda do relatório apresentado por si em 2013, “sobre a situação dos direitos fundamentais e as normas e práticas na Hungria” e acusou “quem não agiu na altura” de “ter culpas no cartório” apontando ao PSD e ao CDS que “agiram tarde e a más horas”.

O cabeça de lista do Livre tem esperança que o grupo dos Verdes Europeus seja a “chave do próximo mandato”, “pondo fim ao presídio do PPE nas instituições europeias”, numa “esquerda verde forte, pró-europeia e anti-austeridade”, já que “a resposta não pode ser o voto no populismo”.

“O voto na extrema-direita é um voto em vigaristas”, atira o candidato que dá o exemplo do governo austríaco que “vinha a ser financiado por russos”.

“A resposta às doenças dos partidos do sistema pelo populismo é a resposta errada porque é substituir os políticos do costume por vigaristas que são ainda pior do que eles”.

Da última vez que tentou ficou mesmo às portas do PE. Mas não entrou. Desta vez, e apesar das sondagens contarem outra história, está confiante de que o Livre será compensado nas urnas no domingo: “Há muitos eleitores que querem ver esse mérito premiado”. Um mérito que diz ser a “substituição dos partidos do costume por ser Livre, por levar ao Parlamento Europeu quem leva a sério a política europeia“.