Crítica de Livros

Deixem a Sophia ser católica

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Na primeira biografia de Sophia, a autora defende a poeta, mesmo quando não precisa de defesa; vê em Sophia um modelo quando não lhe parece modelar, arredonda a figura, escreve Carlos Maria Bobone.

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: Sophia de Mello Breyner Andresen
Autora: Isabel Nery
Editora: A esfera dos livros
Páginas: 334

Tayllerand é habitualmente visto como um prodígio diplomático por ter conseguido passar dos governos mais revolucionários para os mais pios sempre como figura de proa. A habilidade, de facto, é assinalável: ora de bem com o terror, ora de bem com o Rei, Tayllerand foi, provavelmente, o mais profissional praticante do jogo de cintura que a humanidade já viu.

Ora, se a proeza de Tayllerand é admirável mas, ao mesmo tempo, desprezível, a proeza de Sophia de Mello Breyner é muito mais digna e ainda mais admirável. É que Sophia não precisou de colear entre um lado e outro com volte-faces convenientes; Sophia de Mello Breyner conseguiu a proeza de ser admirada pelos lados mais antagónicos, mas conseguiu ainda ser admirada por esses lados antagónicos ao mesmo tempo. Se lutar contra os “fascistas” lhe trazia aplausos da esquerda, o sangue trazia-lhe a benevolência da direita; se a poesia chega, não só aos velhos, mas aos mais velhos entre os velhos que são os Antigos, os contos elevam as crianças; é mulher, o que agrada aos feministas, mas também é senhora, o que agrada aos machistas. A memória de Sophia parece ter matéria para relíquias infinitas que orgulham as mais desavindas capelinhas. E é natural que este lado simpático, quase consensual, motive biografias populares.

Toda a gente tem razões para gostar de Sophia. Os contos de moral simples, os versos claros, o significado Histórico de alguns motes, tudo isto torna Sophia de Mello Breyner uma figura popular. Daí que também seja legítimo que se faça uma biografia centrada nestes aspectos mais populares: uma biografia ligeira, jornalística, que se lê sem dificuldade e em que a narrativa linear é preferida à análise literária e à interpretação. A biografia de Isabel Nery mostra como Sophia foi importante, mas não explica porque é que é importante. Apresenta uma figura a quem está interessado em conhecer uma figura, não a quem quer saber como é que ela investigou a figura. Até aqui, nada contra.

É certo que a biografia tem alguns erros estranhos – como chamar constantemente “jesuíta” ao pobre Frei Bento Domingues –, que a prosa poética da biógrafa não é de grande gosto e que o testemunho da segunda mulher de Francisco Sousa Tavares nos leva subitamente e a contra-gosto para a agitação dos lençóis alheios; no entanto, são pecadilhos que se aturam. O que é mais estranho é que a Isabel Nery não basta frisar o lado popular da poetisa. Não nos parece que seja uma manobra consciente; parece-nos, até, que é um sinal de simpatia; a biógrafa toma-se de amores pela sua biografada e defende-a, mesmo quando ela não precisa de defesa; vê em Sophia um modelo e, por isso, naquilo em que Sophia não lhe parece modelar, trata de arredondar a figura. Não nos parece que seja um convencimento consciente, mas a verdade é que, julgando que faz de Sophia o modelo, Isabel Nery esboça uma Sophia à imagem de Isabel Nery. O modelo é a biógrafa, não a biografada.

O caso em que isto é mais nítido é o capítulo sobre o catolicismo. Isabel Nery está familiarizada com as tonsuras e os negros cabeções, conhece a intransigência doutrinal e a hipocrisia dos prestes; está habituada às posições retrógradas dos fiéis do Vaticano e à vilania cardinalícia. Como é que Sophia de Mello Breyner, uma mulher tão cheia de virtudes cívicas e de progressismo comprovado, uma mulher esclarecida e sofisticada, pode ser católica? Isabel Nery não tem toalha que lhe enxugue a água do baptismo, para a devolver à gentilidade; é impossível negar a fé da autora que tantas vezes a proclamou; assim, o que a biógrafa faz é passar o essencial desta fé para aquilo que a combate.

No capítulo sobre a fé de Sophia, Isabel Nery começa por frisar a grande amizade entre Sophia de Mello Breyner e o Padre Manuel Antunes. Sophia amiga de um jesuíta, da vil corja da sotaina? Nada disso, Isabel Nery assegura que é um padre que escreve “contrariando a posição da Igreja”. Depois, é dito que “ser católica não coibia Sophia de aplicar a sua exigência ética à Igreja”. Os católicos normais aplaudem a vida dissoluta do clero e, quanto à exigência ética, se a têm, só a aplicam a quem não a professa. Sophia, porém, é uma católica de excepção, quase uma não católica, já que aplica a sua exigência ética à Igreja. A expressão escolhida é “não coibia Sophia” que, passe a cacofonia-coibia-Sophia, sugere que, em geral ser católico e coibido é o procedimento comum; com Sophia não. O “ser católica não coibia Sophia” só está lá porque o ser católico é entendido como um entrave àquilo que Sophia fazia.

Nunca se diria que “ser poetisa não coibia Sophia de aplicar a sua exigência ética à Igreja”. Assume-se que o católico não aplica a sua exigência ética à Igreja, quando é precisamente a única coisa que o católico faz. Se não a aplicasse, não haveria regras para serem ou não cumpridas, ou os votos de pobreza, ou os votos de castidade, são obrigações que os ateus impõem à Igreja. Quem tem exigência ética sobre a Igreja é, sempre, a Igreja, pelo que a frase deveria estar ao contrária. Precisamente por ser católica é que Sophia aplicava a sua exigência ética à Igreja.

Isabel Nery continua e chama à liça um conto de Sophia, o Jantar do Bispo, que “critica os poderes instalados”. Ora, neste conto há um padre Varzim, que a biógrafa associa ao Padre Abel Varzim. Que o padre Varzim do conto exige que a Igreja seja mais atenta aos pobres, é verdade; que o Padre Abel Varzim, além de exigir isso, é revolucionário, aceitamos também. O que não aceitamos é que, de um Varzim para o outro, de repente Sophia já esteja envolvida em discussões sobre prostitutas, porque o padre Abel Varzim falou sobre elas. De um conto sobre a pobreza, Sophia é de repente transferida para os terrenos fracturantes sem uma palavra sobre eles, à conta de uma observação “impertinente” de um padre que partilha com o do conto o apelido e a preocupação com a pobreza.

Daqui surge que, não dizemos com toda a lata porque o procedimento nos parece inocente, Isabel Nery perore sobre a relação dos católicos com Sophia: “Os utilizadores da Igreja beata e obediente aos poderes estabelecidos terão dificuldade em encontrar coerência no catolicismo e no espírito insurgente de Sophia”. A frase é cómica, porque atribui aos “utilizadores” os problemas da autora. Ou seja, quem tem dificuldade em encontrar coerência não são os católicos, é Isabel Nery. Como ela está habituada a esta “Igreja beata e aos poderes estabelecidos”, não concebe que um espírito “insurgente” seja católico. Insinua a contradição entre o espírito de Sophia e Igreja, mas passa-a para outro, para os malvados que não entendem Sophia.

Tudo o que, na perspectiva de Isabel Nery, poder afastar Sophia do catolicismo, é utilizável. “não gostava de repetir fórmulas”, considera-se um católica algo “anárquica” e as amizades com Manuel Antunes e Bento Domingues (que até parece que não são padres) mostra que recusou sempre pôr a Igreja à frente da sua ética. “Em resultado da sua educação”, fraqueza perdoável, mas que atenua a convicção, é católica; no entanto, tinha uma visão “muito crítica” da instituição e achava as missas “chatas”. Nunca é simplesmente católica, é uma católica “crítica”, uma católica em que a biógrafa agarra em tudo o que pode para a afastar da Igreja, dada a ideia que faz da Igreja e a ideia que faz de Sophia. Tanto a ideia que faz da Igreja como a ideia que faz de Sophia são muito redutoras. No caso da Igreja, pouco importa, dado que não a está a biografar. No caso de Sophia, já é mais triste.

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