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Festival de Cannes

Documentário “Avó do Death Metal” foi premiado em Cannes. Falámos com o “neto”, que é português

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Era o que faltava a Inge Ginsberg, 97 anos, sobrevivente do Holocausto, espia, letrista de Hollywood e metaleira: um prémio em Cannes. O português Pedro Henriques da Silva foi recebê-lo por ela.

Inge Ginsberg é a "avó do death metal". Atrás dela, com a cara pintada de branco e uma rosa vermelha na lapela, está o português Pedro Henriques da Silva

Inge Ginsberg nasceu na capital austríaca em janeiro de 1922 e, nos anos que se seguiram, já fez de tudo — e tudo é mesmo tudo.

Tocou piano nos salões de Viena; foi anexada pela Alemanha nazi; casou; fugiu pelos Alpes para a Suíça; viveu num campo de refugiados; espiou em Lugano para o Office of Strategic Services, o antecessor da CIA; compôs para Dean Martin, Nat King Cole e Doris Day; fez fortuna; divorciou-se; mudou-se para o recém-criado estado de Israel; casou outra vez (no total, foram três casamentos e outros tantos divórcios); fez-se milionária na bolsa de Nova Iorque; teve uma filha; foi avó; começou a cantar; tornou-se estrela do YouTube; participou em talent shows na Suíça e nos Estados Unidos, e acalentou o sonho nunca concretizado de competir na Eurovisão.

Agora, aos 97 anos, acaba de ver “Death Metal Grandma”, a curta documental que a norte-americana Leah Galant rodou sobre a sua vida, ser distinguida em Cannes, com o prémio do American Pavilion para o melhor documentário de um novo realizador.

Viu, conta ao Observador o português Pedro Henriques da Silva — uma espécie de “neto” desta avó metaleira —, mas viu à distância. Apesar de estar a pouco mais de 400 km, na sua casa de Zurique, Inge não quis viajar até ao sul de França para receber um prémio que podia ou não acontecer. “Ela está ótima de saúde, mas cada vez mais impaciente. Não quis vir”, explica o músico, compositor e professor da New York University, a viver nos Estados Unidos desde os 18 anos.

Não fosse o português, de 42, e a mulher, a argentina Lucía Caruso, também música e compositora, e Inge Ginsberg teria sido tudo menos cantora de death metal ou estrela do YouTube. Apesar de, no pós-guerra, ter tido uma parceria musical de sucesso com o então marido, Otto Kollman — ele compunha, ela escrevia as letras para alguns dos mais famosos cantores de Hollywood –, a austríaca nunca tinha pegado num microfone.

“Conhecemos a Inge há 16 anos, eu tinha uma peça para orquestra que estava a ser interpretada em Nova Iorque e ela foi assistir, com uma amiga de um amigo. A avó da Lucía tinha morrido nessa altura e a filha da Inge tinha acabado de perder a custódia da filha, portanto elas acabaram por adotar-se uma à outra, como neta e avó. Foi depois disso que ela decidiu voltar ao mundo da música. Queria que escrevêssemos para ela, mas as letras eram muito pirosas, muito românticas, talvez tivessem funcionado nos anos 40, mas agora não, não estávamos interessados“, recorda o português.

Até que Inge, tempos depois, num fim-de-semana que o casal luso-argentino foi passar à sua casa no norte do estado de Nova Iorque, lhes apareceu com uma letra… diferente.

Era uma coisa sobre morte e vermes e caveiras. Disse-lhe que soava a death metal e depois mostrei-lhe o que era death metal — claro que ela não sabia o que era. Respondeu com aquele sotaque que ela tem: ‘I love death metal, let’s do it‘. Gravámos o videoclip e partilhámos no YouTube. Até hoje, tivemos mais de 500 mil visualizações“, continua Pedro Henriques da Silva.

Desde 2014, ano de formação dos Inge & the TritoneKings, já gravaram outras três músicas e respetivos vídeos. “Totenköpfchen” (Ri-te da Morte), a primeira, que gravaram em alemão para poderem concorrer ao Festival da Canção da Suíça, continua a ser a mais popular.

A letra? “Pequenas caveiras/ pequenas caveiras/ abanem os esqueletos/ deixem o sol/ deixem a lua/ brilhar através das vossas costelas/ tigelas do diabo/ caveiras a rolar/ quando o diabo agarra a tua alma/ meia-noite, pequenos vermes riem/ no festim para onde os trouxeram/ esquece os vermes/ esquece o túmulo/ bebe e come/ e canta e ri/ e o diabo volta para o inferno”.

“A Inge sempre insistiu em concorrer à Eurovisão. Dissemos-lhe desde o início que ser viral no YouTube era mais adequado, mas ela não quis saber. Tentámos várias vezes, sempre pela Suíça, mas nunca nos responderam sequer”, conta o português, que tinha toda a razão: assim que os vídeos da austríaca, então com 92 anos, caíram na Internet, as solicitações começaram a chover.

Primeiro foi o Switzerland’s Got Talent, depois o original americano. “Fomos convidados pelos produtores do programa para fazer a audição em Nova Iorque, em 2016. Estavam entre cinco e oito mil pessoas à espera, mas nós passámos à frente de toda a gente. Ainda assim, como tivemos de preencher uma data de papelada, ainda tivemos de esperar uns 45 minutos. Foi uma dor de cabeça, porque a Inge não queria esperar, só dizia que se ia embora.”

Apesar de ter ficado e de terem passado à eliminatória de Los Angeles, para desespero de Pedro e de Lucía, acabaram por não aparecer na televisão. “Ela estava em Israel e não quis apanhar um avião. Pagavam-lhe a deslocação em executiva e a estadia, mas ela simplesmente não quis. Explicámos que era diferente do programa suíço, que o público alvo nem eram só os 320 milhões de habitantes dos Estados Unidos, mas o mundo inteiro, mas ela não quis saber”, lamenta Pedro Henriques da Silva.

Autora de vários livros sobre o Holocausto e a fuga à Anchluss, a anexação nazi, em 1938, quando tinha apenas 16 anos, Inge Ginsberg escapou várias vezes à morte como espia ao serviço dos Estados Unidos e viveu os anos dourados de Hollywood sentada na sala de estar de Doris Day — é mais do que expectável que, aos 97 anos, não faça nada que não lhe apeteça realmente fazer.

“Era uma princesa de Viena. Depois tive quatro anos de Hitler, de perseguição. Escapei pelas montanhas, onde quase morri congelada. Consegui chegar, com o Otto, o meu primeiro marido, à Suíça, onde vivemos como refugiados”, conta em “Death Metal Grandma”.

Visivelmente debilitada, precisa de usar as duas mãos para pôr batom nos lábios ou fazer o risco da sobrancelha e demonstra até alguma dificuldade em respirar, entre frases. Ainda assim, mantém o bom humor e a mente desempoeirada: “Cozinhar é tão importante numa relação como o sexo. Foi assim que apanhei todos os meus bons homens, a cozinhar bons jantares”, revela numa outra cena do documentário, filmada na cozinha do seu apartamento de Manhattan.

“Continuamos a fazer isto com a Inge porque sabemos que lhe dá energia, sabemos que isto a mantém viva”, surge também a dizer Pedro Henriques da Silva, amigo, compositor, guitarrista e neto emprestado, imediatamente antes do momento mais pungente do documentário.

Pelo terceiro ano consecutivo, Pedro e Lucía conseguiram convencer Inge a ir ao America’s Got Talent — e a efetivamente ficar para a audição, desta vez. Mas, no momento de prestar provas, a nonagenária esqueceu-se da letra da música e não conseguiu atuar.

Nem isso a abalou por aí além: “Estou viva. Não tenho de fazer coisas especiais para provar que estou viva. O meu conceito de céu e inferno é o seguinte: no momento da morte, percebes que a tua vida foi boa e cheia — isso é o céu. Agora, se pensares, ‘devia ter feito isto ou aquilo’, é o inferno”.

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