Não é habitual que entrevistas com músicos aconteçam a uma hora tão matinal como as 9h — a maioria gosta de se deitar tarde, aproveitando a noite para lazer ou trabalho, consoante esta for de trabalho ou de folga. Para a marroquina Hindi Zahra, contudo, 9h é uma hora perfeita. Habituada a despertar cedo, a artista que mora em França desde os 13 anos chegou a acordar diariamente às 3h30 quando passou um ano em Marraquexe, a compor as canções do seu segundo álbum (Homeland, de 2015). Este fim-de-semana, vai apresentar o disco ao vivo em Portugal em concertos no Theatro Circo, em Braga — já este sábado, 25 de maio — e no renovado Cineteatro Capitólio, no Parque Mayer, em Lisboa — no dia seguinte, domingo, 26.

Hindi Zahra, que na verdade se chama Zahra Hindi (há-de explicar a inversão do nome de batismo na conversa), é uma artista peculiar. Já apelidada em Inglaterra de “Patti Smith do Norte de África”, canta desde pequena e deu o seu primeiro concerto há mais de 20 anos. Apesar disso, com 40 anos comemorados em janeiro, tem apenas dois álbuns editados, resultado de uma carreira que não se conforma com as obrigações de editar discos a uma regularidade frenética.

Autora de álbuns capazes de agregar estilos tão variados como o jazz, o blues do deserto, a chanson francesa, ritmos sul-americanos e cabo-verdianos e a folk norte-americana, Hindi Zarah está a compor o seu terceiro álbum de originais mas fez uma pausa para uma série curta de concertos na Europa. Ao Observador, falou da sua infância em Marrocos, da sua ida para França com 13 anos, do seu convívio com imigrantes portugueses neste país, do que sentiu quando estes lhe deram a ouvir Amália Rodrigues, da cultura da comunidade Berber de que descende e das perguntas que lhe fazem por ser mulher e querer fazer o que alguns homens fazem. Acabou a entrevista a dizer o seguinte:

Passámos anos e anos e anos a lutar uns com os outros, porque alguém não é cristão, não tem a mesma religião, “não é como eu”. Tudo para finalmente percebermos: temos isto e aquilo em comum e isso é mais importante do que as diferenças, podemos viver bem com elas. A mistura é o destino para o qual estamos a caminhar.”

Como está a correr a sua manhã?
Muito bem. Estou muito entusiasmada porque nos últimos tempos tenho estado sobretudo a trabalhar no próximo álbum — parei as digressões há perto de um ano. Poder ir agora fazer alguns concertos [em Portugal, Espanha e França] novamente entusiasma-me muito.

Li na imprensa francesa que está a trabalhar com produtores musicais belgas. Confirma?
Sim, confirmo. Com músicos belgas, sobretudo.

Vamos falar do seu segundo álbum, que vai apresentar em Lisboa e Braga? Para o compor, passou um ano em Marraquexe. É verdade que acordava diariamente às 3h30 para trabalhar?
É verdade, sim, absolutamente. Se nos deitarmos cedo, é uma boa hora para acordar. Gosto de trabalhar durante a noite, porque à noite tudo tem uma boa frequência, não há som, está tudo calmo e é muito, muito importante para mim ter vida nesse período. Durante a noite consigo captar a magia, puxar pela criatividade. Não gosto de me deitar tarde, prefiro ir dormir cedo e acordar também muito, muito cedo, para depois ter um dia de trabalho longo pela frente. Como nesse período em Marraquexe também estava a pintar [Hindi Zahra é também pintora], precisava mesmo de dias longos.

O que a fez ir até Marraquexe e passar um período tão longo lá?
Antes de tudo o resto, tinha vontade de voltar ao meu país. Nasci em Marrocos e queria voltar. Precisava, ainda assim, de ir para um sítio específico que não conhecesse na plenitude, que tivesse algo para poder descobrir. Marraquexe é muito atrativa nesse aspeto porque é um dos sítios com maior magnetismo do mundo, é uma cidade altamente magnética.

Fui lá para trabalhar mas também para passar por uma espécie de processo espiritual, de que precisava para momento de composição do álbum. Quando estou a criar, preciso sobretudo de emergir em silêncio e contemplação. Pude criar o ambiente certo ali, numa cidade onde tudo está escondido mas ao mesmo tudo está a descoberto.

A cantora (também atriz) regressa este fim-de-semana a Portugal. Este sábado atua em Braga, cidade que visitou há 20 anos, com amigos imigrantes portugueses em França (@ Tala Hadid)

Estava a dizer há pouco que parou perto de um ano para compor o seu próximo álbum. Também passou um longo período para compor o disco anterior. Conseguiu, nessas duas fases, parar? Não é habitual um músico dar-se ao luxo de poder tirar tanto tempo e dedicar tanto tempo a trabalho de composição, sem grandes perturbações…
Sem dúvida — e não é possível porque vivemos num período industrial [na música]. É muito importante falar sobre isso, porque para mim ser hiper-produtivo é viver com automatismos e não acho que a criatividade tenha alguma relação com a produtividade. Criámos uma sociedade em que o humano tem também de ser uma máquina super-produtiva, mas eu preciso de tempo, de tomar o meu tempo. Hoje, tudo tem de ser rápido, tudo tem de ser… não sei, não compreendo. O tempo é que dita as regras, mas o meu tempo é interior e não obedece a imposições exteriores.

Para conseguir compor música que respire, que tenha a ambiência dos desertos, montanhas e grandes espaços sobre os quais canta, precisa de tempo e isolamento?
Sim. Preciso de tempo para fazer as coisas. Se as fizer com tempo, elas duram mais — e eu quero que as minhas canções resistam, durem no tempo, vivam por muitos anos. A “Beautiful Tango”, por exemplo, foi revelada há dez anos e as pessoas hoje conhecem-na. Aos que não a conhecem e a ouvem pela primeira vez, parece-lhes algo novo.

Quer essa canção em específico quer o seu primeiro álbum no geral foram bem acolhidos pelo público e pela crítica, ainda mais quando se tratou de um álbum que não foi lançado por uma editora tradicional [foi lançado por si, numa editora que criou para o efeito]. Como também cantava nesse disco sobre temas pessoais, experiências e culturas próximas, como foi depois ter de lidar com expectativas e começar a compor e escrever sobre outros temas do zero? Foi-lhe fácil ou difícil?
Foi por causa desse desafio que me isolei. Não queria ser pressionada por expectativas que me são alheias, embora as expectativas das pessoas que adoram a minha música sejam importantes para mim. Quero fazer essas pessoas felizes mas não quero ser pressionado por uma indústria ou por prazos, foi por isso que fui para Marrocos. Acho que temos de ser livres e fazer as coisas com tempo. Não obedecer a prazos retira-me pressão, porque posso passar três ou quatro anos a dar concertos e só depois voltar a fazer um álbum, não tenho de os fazer ano sim, ano não. Seria horrível sentir-me forçada a fazê-lo. Faço um álbum e tento fazê-lo perdurar por tanto tempo quanto possível.

Esse primeiro disco, Handmade [significa algo como ‘feito à mão’ ou ‘caseiro’], tinha um título adequado. Nele, tocou, cantou e foi responsável pelas melodias, pelos arranjos das canções e pela produção de som. Queria ter o maior controlo possível sobre algo que teria depois de assumir, a que iria dar o seu nome? Já cantava e dava concertos muito antes de lançar esse disco, por certo terá tido convites para gravar antes.
Sim, sem dúvida. A primeira vez que assinei um contrato na área da música tinha 20 anos, mas não queria assinar com uma empresa enquanto artista, queria assinar um contrato enquanto produtora musical. Queria ter a minha primeira editora e queria ser a primeira mulher marroquina a produzir o meu próprio álbum. Queria fazer isso porque cresci dessa forma.

As pessoas perguntam-me se sou uma control freak só porque quero produzir o meu álbum. Não oiço essa questão ser feita a um homem, é absolutamente incrível! “Porque é que queres fazer a mistura de som dos teus discos?”, perguntam-me. Quando é um homem a fazê-lo, só se diz que é fantástico que ele o misture, que faça tudo, isto e aquilo. Mas a uma mulher perguntam se somos control freaks. É estapafúrdio. É por ter vontade de ter controlo sobre a minha música que me isolo. É muito, muito difícil ouvir perguntas dessas — e é por causa disso que não tenho uma vida mundana, tenho uma vida espiritual e artística.

Percebeu que “Beautiful Tango”, o seu tema com maior impacto, era uma canção especial antes de a lançar? Ou surpreendeu-a a popularidade que acabou por ter?
Fiz o tema numa altura em que estava a trabalhar em muitas canções, mas quando acabei esta percebi que tinha algo de especial. Tinha uma melodia muito forte, que fazia com que não me apetecesse parar de a ouvir [risos]. Comecei assim [cantarola a melodia base, sem a letra] e era difícil parar de o fazer. Antes de ser catchy para as outras pessoas, foi catchy para mim. Uma das coisas que a internet tem de bom é a possibilidade de fazermos chegar uma canção a um público vasto, vê-la crescer e ver pessoas interessarem-se por ela. Coloquei o tema na internet, no Myspace, em 2007, três anos de lançar o meu primeiro álbum [de que a canção veio a fazer parte]. Portanto, tive tempo para perceber a reação das pessoas antes de a editar.

Provavelmente não lhe seria tão fácil fazer isso se tivesse um contrato com uma editora que a amarrasse a compromissos de lançamentos, a prazos…
Exatamente. Além disso, um produtor quereria torná-la uma canção “grande”, com o som das guitarras a ficar perfeito — e não era perfeito, não tinha de o ser. Queria ter um som nostálgico, não queria um som super produzido, limpinho e certinho.

“As pessoas perguntam-me se sou uma ‘control freak’ só porque quero produzir o meu álbum. Não oiço essa questão ser feita a um homem, é absolutamente incrível”, apontou, em entrevista ao Observador (@ VALERY HACHE/AFP/Getty Images)

Isto pode parecer uma pergunta tonta, mas porque é que decidiu inverter o seu nome de batismo? Chama-se Zahra Hindi e passou a ser conhecida na música como Hindi Zahra.
Porque em Marrocos o nome da família tem um peso diferente. Na minha terra natal [Khourigba], o meu bisavô foi chefe de tribo, portanto o nosso nome foi sobretudo definido pelas pessoas, que tratavam todos os membros da família como “Hindi”, sem sequer dizer o primeiro nome. Foi por isso que decidi que o apelido deveria vir primeiro, porque em Marrocos toda a gente tratava as pessoas da minha família, incluindo eu, por Hindi.

O que é que a música lhe deu de melhor? O que é que aprendeu e que retorno é que teve deste ofício de escrever canções, gravar discos, dar concertos?
Antes de mais, aprendi a trabalhar com outros. Era muito tímida e trabalhava maioritariamente sozinha, com a música comecei a formar um pequeno grupo. Também aprendi a viver com outras pessoas na estrada, viajar com elas, liderar um grupo. Não tinha essa experiência antes de me tornar cantora e compositora. Aprendi também a conhecer um território sagrado que é o palco. É preciso conhecê-lo e merecê-lo — e não é possível aprendermos isso na escola, ninguém nos pode mostrar como se faz, temos de o experienciar. Tive de ir tentando, com o tempo, aperfeiçoar o meu ofício e desempenho no palco. Poderia dar mais exemplos, mas aprender a estar em palco foi uma coisa muito concreta.

Já disse em entrevistas anteriores que a música estava presente em sua casa desde muito cedo. Como era o seu dia-a-dia habitual em Marrocos, durante a infância?
A minha mãe acordava muito cedo para fazer pão. Como fazemos o pão em casa, as mulheres acordam muito, muito cedo. Lembro-me da minha mãe pôr sempre música a tocar desde muito cedo. O primeiro som que ouvíamos depois do silêncio da noite era música a tocar lá em casa. Vivia também com a minha avó, com o meu avô, com os meus tios… Toda a família vivia junta, não viviam apenas os pais e os filhos. Lembro-me também que antes ou depois de jantar, os meus tios apareciam com guitarras e tocavam, faziam-se jam sessions, compunham-se canções, era algo completamente normal no dia-a-dia.

Disse a um jornal francês: “Na minha família, umas 20 pessoas viviam no mesmo imóvel”. Como é que isso marcou a sua personalidade e a forma como lida com a convivência com os outros e com a privacidade?
Em Portugal não é habitual a família viver toda junta na mesma casa?

Não é muito habitual, não. Normalmente vivem os pais com as crianças, por vezes também com os avós mas nem sempre.
No sul de Itália, por exemplo, vive-se como em Marrocos, famílias grandes em casas espaçosas — e as pessoas também fazem pão juntas, é um modo de vida muito africano, na verdade. Bom, mas é como viver numa tribo [risos], é a forma de continuar a viver em tribo mas com uma vida adaptada aos tempos modernos. Aprende-se a partilhar, aprende-se que não estás sozinho. Cresce-se com avós que nos ensinam muitas coisas importantes sobre a vida, acho que é muito importante manter a ligação entre avós e crianças e crescer com pessoas de gerações distintas.

Creio que se tem, também, uma experiência diferente sobre a morte. Quando o meu avô morreu, era uma criança. Porém, a morte dele não me assustou porque tive a possibilidade de a ver, de viver com ela e com a sua ausência diariamente. Houve muitas cerimónias e aí aprende-se que é possível lutar contra as dificuldades e contra os momentos complicados não se estando sozinho.

Em sua casa ouvia-se música variada, eclética?
Sim porque conviviam gerações diferentes em minha casa. Os meus avós e os meus pais não ouviam a mesma música que os meus tios ouviam. Os meus tios ouviam música rock, blues e jazz, música americana e africana, enquanto os meus avós ouviam apenas música tradicional. A minha mãe gostava sobretudo dos The Beatles e de música indiana e egípcia.

Sei que a música brasileira lhe chegou ao ouvido bastante cedo. Conhece música portuguesa?
Conheci quando vim para França. Os meus primeiros amigos em França eram portugueses, tínhamos laços em comum, desde logo por sermos imigrantes. A minha primeira amiga chamava-se Moreira — e foi ela que me fez descobrir a Amália Rodrigues. Aconteceu também porque quando vim para França, vim para um sítio onde não viviam imigrantes marroquinos e africanos, pelo que a cultura mais próxima que encontrámos foi a portuguesa. Convidavam-me para ir a casa deles, para comer com eles.

A infância em Marrocos, a viver numa casa com muita gente: “É a forma de continuar a viver em tribo mas com uma vida adaptada aos tempos modernos. Aprende-se a partilhar, aprende-se que não estás sozinho” (@ Tala Hadid)

O que achou da Amália?
Foi um grande choque para mim, um grande choque. A “saudade” [assim pronunciada, em português] tem um efeito muito forte na música. Está na música da Amália como também está no blues. Para mim, foi muito natural passar o meu tempo com portugueses, viver com eles. A minha primeira viagem a um outro país europeu depois de chegar a França foi a Portugal, fui a Braga com uns amigos quando tinha 20 anos. Esses amigos tornaram-se como família para mim, porque um deles, o António, assim como o seu irmão, vinham ao fim-de-semana trabalhar com o meu pai. Foi muito fácil ficar amiga deles, criámos uma relação muito familiar.

Quando começou a ter consciência da música que se tocava em sua casa, qual foi o seu primeiro impulso? Pensou primeiro em juntar-se ao grupo para tocar ou em cantar?
A voz, a voz. A minha mãe era uma cantora, uma grande cantora. Talvez por causa disso, fui automaticamente e diretamente para o canto.

A maior parte das pessoas que gostam muito de música passam por fases em que idolatram pelo menos um ou outro artista, uma ou outra banda. Também teve quem tivesse esse tipo de efeito em si, enquanto crescia?
Sim. Era muito curiosa e nos anos 1980 tínhamos muitos cantores: o Michael Jackson, a Whitney Houston, o George Michael, todas aquelas estrelas pop que apareceram na música americana. Não tinha uma obsessão em específica, tinha muitos cantores que gostava de ouvir.

É curioso falar no Michael Jackson, fez-me lembrar a versão que fez da “Like a Prayer” da Madonna.
Wow, você sabe tudo! [Risos] É verdade, fiz uma versão dela, sim.

É uma versão muito interessante. Mostra que os versos, a que às vezes não se presta grande atenção por causa da produção pop, podem ser cantados de maneira muito diferente.
Oh, thank you, thank you. “Obrigado”.

Ora essa. Mas voltando às perguntas: com que idade se mudou para Paris?
Tinha 13 anos. Também dizem sempre que o meu pai era francês e a minha mãe marroquina, mas não é verdade [eram ambos marroquinos].

Com que primeira impressão ficou de Paris? Como se adaptou?
Foi muito difícil para mim. Eu não queria ir, não queria deixar Marrocos, mas o meu pai queria que os filhos estudassem fora do país. Os primeiros cinco anos [até chegar aos 18 anos] foram muito complicados, passei-os muito triste, com muita dificuldade em fazer amigos. Andava sempre com a minha família, com a minha entourage. Os únicos amigos que fiz foi aqueles de que já falei, portugueses. Esses foram muito simpáticos connosco, convidavam-nos para estarmos com eles, de certa maneira acolheram-nos. Mas foi muito difícil para mim deixar Marrocos.

E como é que foi recebida na indústria musical, enquanto cantora, mulher e mulher africana? Pergunto-lhe porque falava há pouco das perguntas que lhe são feitas por ser mulher…
O meu foco esteve sempre em trabalhar de forma independente. O mais importante para mim foi sempre fazer grandes canções, de que as pessoas — o meu público — gostassem. Não quis saber o que a indústria musical pensava sobre o que fazia, a minha única preocupação era chegar ao meu público. As críticas vão e vêm, a música não, fica.

“A minha primeira amiga chamava-se Moreira — e foi ela que me fez descobrir a Amália Rodrigues. Foi um grande choque para mim. A ‘saudade’ está na música da Amália como também está no blues” (@ VALERY HACHE/AFP/Getty Images)

A sua música congrega ritmos de vários países, estilos musicais de várias culturas, da africana à norte-americana, da sul-americana à oriental e à europeia. Acha que isso reflete de alguma forma o tipo de pessoa que é? Ou é algo apenas estético, que não tem tradução comportamental?
Acho que reflete e que é uma posição política em si.

Em tempos em que se nota, nas redes sociais e nas ruas, intolerância e agressividade perante “o outro”, perante quem é diferente, criar pontes em vez de muros entre culturas é uma tomada de posição.
Exato. Se fosse um arquiteto, o que seria mais difícil de construir, a ponte ou o muro? A ponte, é claro. Um muro constrói-se mais facilmente, tijolo sobre tijolo, mas para construir uma ponte é preciso trabalho geométrico detalhado. Precisamos de fazer esse trabalho mais difícil, precisamos de pensar sobre como construir pontes. Também não esqueço que esse encontro de culturas deve procurar a igualdade e a justiça, que a minha música tem inerente a ideia de que somos todos iguais, mesmo tendo diferenças. Todos os países podem trazer algo à cultura universal.

Nunca gostei do facto de nós, pessoas do sul, sermos sempre considerados preguiçosos, más pessoas, violentos e tudo o mais que se diz. Até dentro de alguns países isso acontece. Em Espanha, as pessoas do norte odeiam as do sul, os catalães odeiam pessoas do sul, por exemplo. É estapafúrdio, chega-se ao ponto de na mesma família coexistirem pessoas que se querem matar . Se isso acontece entre pessoas que vivem no mesmo país, imagine-se entre pessoas que não falam a mesma língua, que não partilham a mesma cultura. Quero que a perceção sobre as coisas mude. Até a Europa está divida, veja-se como o norte tratou o sul, como Portugal, a Grécia, a Espanha e a Itália foram tratados pela Alemanha, por França e pelo Reino Unido, por exemplo. O que as pessoas na Alemanha disseram sobre os gregos… como é possível? Há muito trabalho pela frente. A minha música também é política por ser feita por uma mulher, vinda de Marrocos, um país muçulmano e africano. É importante que as pessoas tenham uma perceção mais humana dos outros.

A Hindi Zahra descende do povo Berber [grupo étnico, indígena e parcialmente — mas não inteiramente — nómada, espalhado sobretudo pelo norte de África]. Pode-me dar exemplos de hábitos e do modo de vida berber e tuaregue [comunidade berber] que possam surpreender quem não sabe muito sobre eles?
Acho que as pessoas não estão a par da posição que a mulher tem nestas sociedades, que são matriarcais. As pessoas ficariam surpreendidas ao ver o poder que as mulheres têm nestas tribos. Quando explico às pessoas, ficam muito surpreendidas por perceber que a mulher, por ser responsável pela comida de toda a tribo, é o elemento mais poderoso. Não estou a falar de fazer a comida, mas da gestão da quantidade de comida que existe.

Se vivermos no Sahara, por exemplo, a comida e a água são muito importantes — e quem tomar conta da gestão desses elementos é como se gerisse um banco. As pessoas não imaginam que as mulheres têm esta importância e poder, dizem sempre: ‘ó meu deus, vocês sofrem tanto enquanto mulheres na vossa sociedade’. Eu cresci com mulheres muito poderosas à minha volta.

Falava há pouco de como o segundo país europeu que visitou — e o primeiro como turista — foi Portugal. Mais tarde voltou, já para concertos. Com que impressão ficou do país e das pessoas?
Estou muito feliz por voltar porque tenho uma relação longa com Portugal, é um país presente há muito na história da minha vida, não apenas desde que sou artista. Também senti sempre que tinha um público muito vasto em Portugal. Quando fui tocar a Lisboa pela primeira vez foi uma loucura. Conheço muito bem o povo português, a cultura portuguesa, já me deram muito. Sinto-me como as pessoas se sentem quando não veem um amigo há muito tempo mas estão prestes a reencontrá-lo. É este o meu sentimento face a Portugal: a sensação de uma amizade que nunca vai acabar.

O The New York Times publicou recentemente um artigo sobre o Bombino, também nascido no norte de África e com quem colaborou no seu disco mais recente, Homeland. O autor do artigo defendia que “o blues do deserto do Norte de África tornou-se, possivelmente, o género de músicas do mundo a emergir com mais sucesso desde o reggae”. Queria perguntar-lhe se concordava com a ideia e porque é que acha que chegou às pessoas e se tornou tão popular — por exemplo na Europa e EUA?
Acho que isso aconteceu porque o norte de África é um território que fica a meio caminho de duas coisas, entre Europa e África. É uma música que toda a gente consegue perceber, tal como o reggae — que por sua vez é uma mistura de música jamaica e música ocidental. Quando o blues do deserto do Norte de África apareceu, toda a gente o conseguiu compreender, porque é um estilo de música misturado, de miscigenação. Toda a gente pode encontrar nele algo que lhe é familiar, para os norte-americanos e para os europeus será o blues, que reconhecem no som das guitarras.

Os europeus e norte-americanos não compreendem a linguagem, mas pelo menos compreendem a música, é-lhes minimamente familiar. É ótimo que esteja tão popular porque precisamos de música que estabeleça pontes entre culturas. É uma música muito simbólica, também, porque nasceu de uma mistura entre duas grandes culturas — a ocidental e a africana.

“Quando o blues do deserto do Norte de África apareceu, toda a gente o conseguiu compreender, porque é um estilo de música misturado. É ótimo que esteja tão popular porque precisamos de música que estabeleça pontes entre culturas.” (@ Tala Hadid)

Essa popularidade dirá alguma coisa sobre os tempos atuais [em que a música latina, por exemplo, se impôs também com grande força no mercado musical norte-americano]?
A mistura é o destino para o qual estamos a caminhar! A internet rompeu fronteiras e estamos agora a preparar-nos, já temos consciência disso, para que a próxima geração não pense sequer em questões de raça, de fronteiras. Por agora, a primeira reação a uma cultura distinta ainda é encontrar as diferenças — mas a segunda reação já é, tantas vezes, perceber o que é comum às duas. Passámos anos e anos e anos a lutar uns com os outros, porque alguém não é cristão, não tem a mesma religião, “não é como eu”. Tudo para finalmente percebermos: temos isto e aquilo em comum e isso é mais importante do que as diferenças, podemos viver bem com elas. Vamos passar a pensar assim, estou convencida disso.

Obrigado, Hindi. E bons concertos.
Não tem de quê — e obrigado.