11 anos depois, FC Porto e Sporting voltam a encontrar-se na final da Taça de Portugal. É a quinta vez que acontece e desta feita vai servir para desempatar o registo entre os dois clubes no que toca a decisões na segunda prova mais importante do futebol português: os leões começaram a ganhar, na final de 1977/78, os dragões empataram as contas em 1993/94 e ficaram por cima em 1999/00 mas a equipa de Alvalade repôs a igualdade no histórico de resultados a 18 de maio de 2008, data da última final da Taça de Portugal disputada entre FC Porto e Sporting.

Na altura, os dragões de Jesualdo Ferreira e o Sporting de Paulo Bento não foram além no nulo ao fim de 90 minutos e a final seguiu para prolongamento. Rodrigo Tiuí, herói improvável dos leões que tinha entrado na partida no último minuto do tempo regulamentar para substituir Abel, inaugurou o marcador aos 111′ e bisou aos 117′, de pontapé de bicicleta, garantindo ao Sporting a conquista do único título da temporada (no Campeonato, o clube de Alvalade ficou em segundo lugar, a 20 pontos do campeão FC Porto). 11 anos depois — e como seria de esperar –, já nenhum dos jogadores que disputou a final da Taça de 2007/08 está na equipa que então representava: ainda que por pouco, já que Rui Patrício só saiu dos leões no final da temporada passada e foi titular no Jamor, com apenas 20 anos.

Um olhar mais aproximado aos onzes iniciais, aos suplentes utilizados ou não e aos treinadores permite, ainda assim, o detetar de alguns cruzamentos irónicos que os meandros do futebol proporcionaram nos 11 anos que se seguiram à última final entre FC Porto e Sporting. A começar precisamente pelas balizas: por se tratar de um jogo da Taça, Nuno Espírito Santo substituiu o habitualmente titular Helton do lado dos dragões; nos leões, o jovem Rui Patrício tinha conquistado a primazia sobre o inconstante Stojkovic. Ora, 11 anos depois, Nuno é o treinador de Patrício no Wolverhampton, onde em conjunto com a restante armada portuguesa conquistaram a melhor temporada de sempre dos foxes na Premier League e o direito de estar na Liga Europa no próximo ano. As coincidências que dizem respeito ao Wolves, porém, não ficam por aqui, já que também João Moutinho — que em 2008 era capitão do Sporting e que saiu para o FC Porto dois anos depois — é treinado por Nuno Espírito Santo no clube inglês.

E por falar em treinadores, Jesualdo Ferreira e Paulo Bento seguiram caminhos em toda a linha díspares. O primeiro saiu do FC Porto rumo ao Málaga, esteve dois anos e meio no Panathinaikos e depois assumiu o comando do Sporting, o mesmo Sporting que em 2008 defrontou na final da Taça. Foi com Jesualdo Ferreira que os leões registaram a pior classificação de sempre na Primeira Liga, um sétimo lugar em 2012/13, e o treinador passou depois pelo Sp. Braga e pelo Zamalek do Egito (onde foi campeão e ganhou uma Taça) até chegar ao Al-Sadd do Qatar, onde ainda está e já foi campeão nacional e conquistou uma Taça e uma Supertaça. O segundo, por sua vez, saiu do Sporting para ser selecionador nacional e orientou a Seleção durante quatro anos — incluindo no Euro 2012 e no Mundial 2014 –, até ser despedido depois de perder o primeiro jogo da qualificação para o Euro 2016 com a Albânia. Passou pelo Cruzeiro do Brasil, pelo Olympiacos da Grécia e pelo Chongqing Dangdai da China até ser convidado para comandar a seleção da Coreia do Sul em 2018.

Seguimos em frente pela equipa do FC Porto. Aos 34 anos, Jorge Fucile ainda atua pelos uruguaios do Nacional, Bruno Alves está no Parma, Pedro Emanuel conquistou no início do mês a Taça da Arábia Saudita com o Al-Taawon para depois ceder o lugar a Paulo Sérgio e João Paulo, central formado no Ul. Leiria que em 2007/08 cumpria a segunda temporada com os dragões (depois de também já ter estado emprestado ao Sporting), joga ainda pelo Marinhense enquanto…avançado. Até regressar à cidade de origem, o jogador passou pelo Rapid Bucareste, pelo Le Mans, pelo V. Guimarães e por três clubes do Chipre: o Omonia, o Apollon Limassol e o AEL Limassol. Ainda nos dragões, Mariano González ainda joga pelo Santamarina da Argentina, Lucho González é capitão do Atl. Paranaense do Brasil e ganhou a Taça Sul-Americana em dezembro, Paulo Assunção terminou a carreira em 2014 no Levadiakos e Lisandro López foi campeão argentino em abril com o Racing Avellaneda. De resto, Ricardo Quaresma está há quatro temporadas no Besiktas e Raúl Meireles, bem, decidiu abraçar de vez as semelhanças inequívocas com António Variações.

Nuno e Rui Patrício estavam em balizas opostas na final da Taça de 2008 e agora são treinador e jogador no Wolverhampton

No Sporting, já estabelecidos os reencontros entre Nuno, Patrício e Moutinho, é curioso olhar também para a titularidade de Abel Ferreira na direita da defesa: o atual treinador do Sp. Braga fazia parte do onze inicial indiscutível de Paulo Bento e foi ele que saiu em cima do minuto 90 para dar entrada a Rodrigo Tiuí. No centro da defesa estava Tonel, que terminou a carreira em 2016 no Belenenses e entretanto já treinou o Lusitânia e o União de Lamas, e Anderson Polga, que deixou os relvados em 2012, cumprindo apenas três jogos pelo Corinthians depois de deixar Alvalade. Aos 34 anos, Leandro Grimi ainda joga pelos argentinos do Newell’s Old Boys, Miguel Veloso está no Génova desde 2016 e Romagnoli pendurou as botas no ano passado, permanecendo no San Lorenzo de Buenos Aires enquanto diretor desportivo. Até que chegamos aos casos mais intrincados.

Começando por Marat Izmailov. Titular pelo Sporting na final da Taça de maio de 2008, o russo saiu precisamente para o FC Porto em 2013, marcando apenas um golo ao longo de 16 jogos durante temporada e meia. Foi emprestado ao Qabala do Azerbaijão e transferido para o Krasnodar da Rússia até chegar em 2017 ao Ararat Moscovo, o último clube que representou. Seguem-se Yannick Djaló, que saiu dos leões para o Benfica e desde 2016 passou por Toulouse, San Jose Earthquakes, Mordovia Saransk e V. Setúbal até aterrar no Ratchaburi da Tailândia e ainda Derlei, que em 2008 estava no Sporting depois de ter sido bicampeão nacional pelo FC Porto e de também ter estado no Benfica e terminou a carreira apenas dois anos depois, ao serviço do Madureira do Rio de Janeiro.

No Facebook, Rodrigo Tiuí recorda o primeiro golo da final da Taça de há 11 anos, marcado ao 11.º minuto do prolongamento

Por fim, Rodrigo Tiuí, o herói que entrou aos 90′, bisou entre os 111′ e os 117′ e permanece no imaginário dos sportinguistas: o avançado saiu em 2009 para o Atl. Paranaense, passou pelos russos do Terek Grozny, regressou ao Brasil para jogar pelo Náutico, pelo Criciúma, pelo Brasiliense, pelo Linense e pelo Itumbiara, viajou para o Japão e juntou-se ao Gifu e depois ao Fukushima United e voltou novamente à base em 2017, tendo já passado por River Piauí, Noroeste, Barra da Tijuca e Uberaba em apenas dois anos. Contas feitas, Tiuí já passou por 13 clubes desde que saiu de Alvalade e desde 2010 que não marca mais do que três golos por temporada. Na memória do avançado brasileiro permanece, com toda a certeza, a recordação da final da Taça de Portugal de maio de 2008 — no Facebook, o jogador de 33 anos tem uma fotografia do jogo enquanto imagem de capa da própria página.