O dia era de Meghan Markle mas a pequena Charlotte conseguiu roubar um pouco das atenções. Pouco tempo depois do casamento dos duques de Sussex, em maio de 2018, conheciam-se alguns pormenores da cerimónia, incluindo que a filha do casal Cambridge foi a responsável por organizar e tomar conta dos nove pequenos pajens e damas de honor que acompanharam a noiva ao altar. Claro que contou com a ajuda da ama, Maria Teresa Turrion Borrallo, que os manteve em ordem com um velho truque e outro mais recente: doces e a porquinha Peppa, partilhou na altura uma convidada.

O poder de encanto dos desenhos pode ter nacionalidade britânica mas há muito que contagiou o mundo, Portugal incluído. Foi há 15 anos que o fenómeno começou, de forma tímida, estreando-se em solo nacional em 2010, na RTP2, e em 2012 no Canal Panda, onde hoje se mantém. E dificilmente haverá família com crianças que desconheça este grupo, cujos pequenos vídeos se encontram ainda disponíveis online através da HBO ou da Netflix.

“Acho que ainda estou em negação”, admitia ao The Guardian Neville Astley, co-criador da série dirigida por Mark Baker, a que se junta o produtor Phil Davies e ainda uma equipa de 16 elementos. “Elf Factory” foi a alcunha dada ao estúdio de animação quando tudo começou, longe de imaginarem o impacto que os desenhos teriam mais de uma década depois. “As pessoas hoje pensam que temos cartões gold e comandamos milhares de animadores”, ri-se Davies, que prefere descrever a Astley Baker Davies, a sua produtora, como “uma pequena empresa de solicitadores”.

A verdade é que desde que enfiou as patas numa poça de lama pela primeira vez (uma das predileções do boneco), o destino de Peppa, da Mãe Porca, do Pai Porco, do pequeno irmão George e do resto do clã, nunca mais foi o mesmo — tornou-se um verdadeiro colosso dos ecrãs e do merchandising, aponta o mesmo Guardian, lembrando essa estreia no Channel 5. Chegados a maio de 2019, a saga de Porquinha Peppa soma quase 300 episódios, e ganha embalo para novos 117, já em fase de produção. O conceito foi exportado para 118 países e a provar que esta é uma lucrativa vara, basta atentar no número gerado: qualquer coisa como 1.1 mil milhões de libras (1.25 mil milhões de euros).

Detalhe e exigência

A fórmula do sucesso é capaz de ser tão simples quanto os próprios desenhos, como quase sempre são as ideias mais eficazes. Histórias breves em três atos, narradas ao longo de cinco minutos, sem grande espaço para inversões do enredo à última hora ou angustiantes pontos de suspense. Para além disso, talvez grande parte do sucesso assente no facto da narrativa ancorar na vida de família, “uma das primeiras coisas com que uma criança se identifica, daí que a agarre tão precocemente”, defende Greg Childs, produtor na CBBC e CITV, frisando ainda como a série é “brilhantemente escrita”.

Uma linha de pensamento partilhada por Nuno Beato, produtor da Sardinha em Lata e realizador de séries infantis. “Os ingleses são muito bons em guião, que é sem dúvida um dos segredos deste projeto da Peppa Pig. Está muito bem construído. Mesmo a nível europeu os estúdios de animação procuram guionistas ingleses. Diria que é um dos fortes pilares. Claro que a proximidade entre os temas e o público também é relevante”, descreve ao Observador, admitindo que a fasquia está cada vez mais elevada. “Hoje temos vários canais infantis, uma segmentação televisiva quase por idades. A depuração do que se mostra a cada faixa, a forma como se trabalha o público alvo, é cada vez mais meticulosa. Hoje seria impensável ter um Tom Saywer a fumar, a realidade é outra, ainda por cima no pré-escolar, que é a faixa da Peppa Pig.”

Nuno recorda-se do arranque da série e de como nessa altura o formato serviu de orientação para “Ema&Gui”, a série que produziu e realizou. “Lembro-me até de falar com uma animadora portuguesa, a Sandra Santos, que trabalhou com eles, e de pedir referências mais a nível técnico”. A realizar neste momento a sua primeira longa-metragem, “Os demónios do meu avô”, recorda ainda um episódio em particular. “Havia uma cena dentro de um carro e não tinha cinto de segurança nem cadeirinha. Acabei por ter de acrescentar ambos para conseguir vender o programa à Finlândia. Quando fazemos séries pensamos em todo o mundo, não apontamos só a Portugal, se queremos vender internacionalmente, sobretudo o pré-escolar. Grande parte das televisões que compram esses formatos são estatais, que têm uma responsabilidade maior. Têm que ouvir o público, que está cada vez mais exigente, em tudo o que rodeia o mundo infantil, incluindo a animação”

Foi no começo de abril deste ano que o desenho animado anunciou na sua conta de Twitter a chegada de uma nova personagem, Mandy Mouse, um ratinho numa cadeira de rodas, uma nota a favor da inclusão e da diversidade, e mais um passo na marcha do desenho animado. Peppa, a porquinha que tem amigos como a ovelha Suzy e que adora brincar com o seu ursinho Teddy, já esteve nomeada e venceu vários prémios nos famosos BAFTA Children’s Awards, e tem tudo para continuar a contagiar novos espectadores. “A animação tem isto, dura muitos anos porque o público também se vai renovando. Para nós tem 15 anos, para as crianças não necessariamente.

Quanto à personagem principal, e a título de curiosidade, em 2017 chegava a notícia de que Cecily Bloom, a jovem que fazia a voz original do desenho animado da Porquinha Peppa atingira a maioridade e começara as suas aulas de medicina na Universidade de Cardiff, no Reino Unido.

Entre a subversão, as controvérsias e o “Ano do Porco”

Nem uma família de porcos bem sucedida se livra de ter uma vida de cão, pelo menos de vez em quando. Na Índia, por exemplo, onde se estreou em 2016, Peppa goza de uma popularidade comparada ao desporto por excelência no país, o críquete. Já na China, foi largamente vista com maus olhos, associada à contra cultura, e a sua reabilitação aconteceu apenas no começo de 2019, por obra e graça do arranque do Ano do Porco, com o zodíaco a impulsionar o seu inesperado sucesso a oriente — teve até direito a um filme.

A jogar em casa, no Reino Unido, protagonizou muitas outras polémicas, que forçaram mesmo os criadores a introduzir alterações na série animada. Aconteceu quando receberam várias denúncias por Peppa e a família aparecerem sem cinto de segurança quando viajavam nas primeiras temporadas, à semelhança do que “Ema&Gui” passaram. As mesmas críticas se estenderam à falta do uso de capacete quando circulavam em bicicleta.

Em dezembro de 2017, uma médica, Catherine Bell, alongava-se num artigo numa revista científica sobre uma das personagens, o Dr Urso, que estaria a incentivar os espectadores a consultarem os médicos por problemas insignificantes, alegando ainda que a série espelhava um cenário que poderia frustrar expectativas – “o Dr Urso parece prestar um excelente serviço, com acesso rápido e direto ao telefone, atendendo continuamente e sem limite de visitas”. Tudo não passou de uma tradição natalícia da publicação BMJ, que nessa quadra costuma lançar artigos pseudo-científicos num formato cómico, mas daqui se entende a influência e mediatismo de Peppa e companhia.

Os reparos, agora mais a sério, chegam a detalhes como o sotaque das personagens, caso que não será sentido por cá, já que o formato é dobrado. Fora de portas, no entanto, mereceu até a criação de hashtag a preceito, #peppaeffect, depois de uma série de pais sentirem que os filhos começavam a desenvolver uma pronúncia excessivamente britânica, tudo por assistirem à série.

Em fevereiro de 2019, Peppa voltava a ser visada, e logo numa associação ao desafio Momo, que chegara no ano anterior e que escondia vários convites à auto-mutilação, culminando com o apelo ao suicídio dos participantes. Ora, segundo o Daily Mail, esses conteúdos estavam a ser incluídos de forma discreta em vídeos infantis do YouTube da  “Porquinha Peppa” e “Fortnite”, um alerta que terá surgido por parte de uma mãe no Reino Unido. No mês seguinte, novo caso — até os bombeiros de Londres levaram a peito um dos episódios, acusando os criadores de sexismo, por terem dado largas ao estereótipo ao associarem a atividade de bombeiro a personagens masculinas.

Dos livros aos festivais, o universo Peppa

Livros, vestuário, um quarto de hotel baseado neste universo, e um enorme parque temático, o Peppa Pig World, que abriu em 2011 em Hampshire, são apenas algumas das ramificações do fenómeno, tão estruturantes, segundo Nuno Beato, como um bom guião ou um realizador com experiência. “A Peppa tem uma interessante campanha de distribuição por trás que correu muito bem, o merchandising, foi tudo bem estruturado”.

Ao The Guardian, Rob, o pai de uma menina de sete anos super fã dos bonecos animados, abordou o fenómeno, a adoração sentida por crianças como a filha Betsy, e como a visita ao parque se comparou a uma experiência religiosa. “A Peppa estava num palco e as pessoas estendiam-lhe os miúdos. Foi como conhecer o Papa”.

No seu país natal, Peppa, teve até direito a uma edição especial em livro em que conhece a rainha, um lançamento que coincidiu com o Jubileu de diamante de Isabel II. Por cá, continua a reinar noutro tipo de atrações. Nos dias 5 a 7 de julho, no Parque dos Poetas, em Oeiras, volta a ser uma das estrelas da companhia em mais uma edição do Festival Panda, a 12ª, este ano dedicada à à sustentabilidade ambiental e preservação da natureza, com o tema “Planeta Feliz”.