“Já viste que estás à frente do CDS em Vila Franca de Xira?” A conversa entre as duas amigas, apoiantes do PAN, era sustentada pelos dados que iam sendo cuspidos pelos telemóveis. A cada minuto que a noite eleitoral avançava, o partido Pessoas-Animais-Natureza ia passando à frente de Assunção Cristas, ora numa freguesia, ora num concelho, ora num distrito. Mas estar à frente de um partido de direita conservadora numa terra de marialvas, toureiros e forcados tem um sabor mais agradável para um ambientalista do que terminar à sua frente no distrito de Faro. Ou ficar quase empatado com os centristas no de Lisboa e no do Porto. E o resultado de Vila Franca de Xira passou de boca em boca, deixando largos sorrisos na cerca de cinco dezenas de apoiantes do PAN que se juntaram na sede de campanha, em Lisboa.

O resultado final da noite foi o esperado: o PAN fez história. Em oito anos de vida, elegeu o seu primeiro eurodeputado e deverá ser o primeiro partido português a sentar-se no grupo dos Verdes europeus. Mas cada macaco no seu galho — não foi suficiente para passar à frente do CDS em números absolutos, serviu q.b. para saborear o ser a quinta força política em mais do que um distrito do país. E a quarta força em muitos municípios.

André Silva, que também já entrou para os anais do partido ao tornar-se nas últimas legislativas o primeiro deputado eleito do PAN para a Assembleia da República, sublinhou esse facto no seu discurso de fim de noite. Tão ao fim da noite que já todos os líderes políticos tinham falado, Presidente da República incluído. Apesar de ter afirmado que o partido não tem medo, e que “não há setores intocáveis”, o PAN estava preocupado. Com mais ou menos umas centésimas, podia dar-se o volte-face. Cantar de galo estava fora de questão. Quando gritou vitória, André Silva fê-lo com dados oficiais e absolutos.

O PAN é a quarta força política em muitos concelhos do país, e somos a quarta força no círculo da Europa”, regozijou-se André Silva, dizendo por diversas vezes que esta era uma noite de festa, uma noite para celebrar.

Para além dos seus próprios resultados, outro dado trazia alegria acrescida ao partido Pessoas-Animais-Natureza: estas eleições representaram o fim do bipartidarismo no Parlamento Europeu, com uma subida expressiva dos ambientalistas que ganham 15 assentos e se tornam o quarto grupo político, com um total de 67 representantes.

“É uma noite histórica”, disse André Silva. “Obrigado àqueles que confiam no bloco europeu e nas nossas propostas e que querem ver pela primeira vez — e conseguimos — um eurodeputado português ambientalista na Europa.”

“O PAN não é uma moda”, continuou. “Há cada vez mais pessoas a pensar como nós, que temos de ter respostas corajosas para problemas difíceis, problemas do século XXI e para os quais os partidos do sistema não têm tido respostas, estando na origem deles”, disse perante meia centena de apoiantes do PAN. A cada frase, os simpatizantes respondiam com gritos efusivos: “Eu-ro-pan! Eu-ro-pan! Eu-ro-pan!” Foi o slogan da noite, ensaiado em surdina uma hora antes, treino que acabou por não ser em vão.

Para já, André Silva garante que não haverá temas a que o PAN se vá esquivar. “O debate em torno das matérias económicas é importante, mas a religião do PIB não pode estar no centro do debate”, detalhou. O que é preciso é “combater a crise climática”, e o “único partido capaz de o fazer é o PAN agora pela voz do Francisco Guerreiro”, o cabeça de lista do partido e recém-eleito eurodeputado, concluiu.

Para o Parlamento Europeu, Francisco Guerreiro deixou claras quais as batalhas que vai travar: decretar o estado de emergência climática e defender a passagem para uma economia descarbonizada. “A revolução deixou de ser silenciosa”, vai entrar na Europa “com uma voz muito firme”, onde haverá, “pela primeira vez, um representante de todos os animais”, disse.

Os resultados da noite eleitoral, garantiu, não o surpreenderam. “Não é uma surpresa, temos feito um trabalho de profundidade, honesto e de propostas.”

A verdade é que ao início da noite, sonhou-se mais alto: as primeiras sondagens televisivas abriam a hipótese de o partido eleger não um, mas dois eurodeputados. O grito de alegria ecoou pela sede. Só o grito — as caras do partido estiveram sempre longe da sala cheia de jornalistas. André Silva e Francisco Guerreiro refugiaram-se na cave como tinham prometido logo à entrada. Comentários? Só com dados finais e definitivos. E assim foi. A vitória só foi celebrada depois da meia-noite.

A prudência foi sempre a palavra de ordem, já que o sonho poderia cair por terra e não se chegar sequer ao grande objetivo de eleger um eurodeputado. Eleger dois? Coube a Inês Sousa Real, da Comissão Política Nacional, comentar as primeiras projeções, preferindo não arriscar muito: “Se vierem dois [eurodeputados] será muito positivo.” Não vieram. Mas a cavalo dado não se olha o dente e André Silva foi rápido a ler nos números destas europeias a “consolidação do percurso que o partido tem feito desde 2011” e do seu “paradigma disruptivo”. E enquanto António Costa piscou o olho a partidos fora da geringonça, André Silva piscou o seu a todos os restantes, deixando claro que o partido “está disponível para dialogar com todos os partidos”. Desde que não esteja em causa a defesa dos ecossistemas e do planeta, claro.

[Difamações, frustrações e outras lamentações. A noite eleitoral num minuto]